É muito importante entendermos a relevância de conhecer os aspectos que envolvem a audição dos equinos, considerado o segundo sentido mais bem desenvolvido depois da visão

Para uma melhor compreensão, vamos iniciar esse artigo com uma ligeira explicação sobre o comportamento equino no que diz respeito aos seus sentidos. São cinco os sentidos do cavalo, sendo todos muito mais desenvolvidos em relação à espécie humana: o olfato, o paladar, o tato, a visão e a audição.

O olfato é muito desenvolvido, podendo sentir cheiros definindo uma série de situações, tais como: identificação de animais, identificação de cio das éguas, percepção de predadores, etc. O paladar é apurado, os cavalos têm preferência a determinados sabores como o azedo, o amargo, o salgado e o doce. A grande maioria prefere o doce e também o salgado, mas não irão rejeitar outros sabores disponíveis.

paladar

O tato apresenta resposta ao toque mais leve como, por exemplo, o pouso de uma mosca em sua pele, afastando-a com abano da cauda, balançar da cabeça ou contraindo um músculo subcutâneo. Os cavalos também exploram os ambientes próximos com os pelos longos em seus lábios superiores e inferiores, da mesma forma que esses pelos ao redor dos olhos e nariz ajudam proteger de lesões quando algo se encontra próximo a essas regiões.

A visão é o principal sentido do cavalo. E os olhos, posicionados lateralmente, permitem ver simultaneamente perto e longe. percebendo movimentos repentinos. Os olhos dos cavalos apresentam mais receptores de movimento que os do olho humano, porem é mais difícil discernir pequenos detalhes. Eles conseguem identificar movimentos à distancia, mas quando o objetivo está muito próximo, tem dificuldade pela limitação na capacidade de foco rápido.

Seu campo visual pode atingir quase 360 graus, com visão tridimensional, 70 graus diretamente na frente, limitando a percepção de profundidade, dificultando a estimativa de distancia se comparado ao humano. Apresenta pontos cegos na frente abaixo do focinho e por traz na linha da inserção da cauda (posterior).

AUDIÇÃO

A audição é um tema que julgo ser de máxima importância, principalmente quando observamos o cavalo atleta em suas diversas modalidades de competições equestres. Sinto-me muito a vontade em abordar esse assunto, pela experiência ao longo de vários anos (perto de 30 anos) atuando no segmento dos cavalos de esporte.

área cega

Durante todo esse tempo, pude observar o comportamento de vários cavalos nos recintos de eventos, principalmente na aproximação das pistas e arenas de competições, onde muitos deles refugavam para entrar ou mesmo quando já estavam dentro, tentando se afastar ou sair, relutando em iniciar seu percurso.

Este comportamento pode acontecer por vários motivos, mas sem dúvidas, a audição é um fator que explicará parte desse comportamento por ocasião da chamada sonorização, que muitas das vezes são mal equalizadas, volumes acima dos suportáveis, levando ao estresse do animal. Varias foram as vezes que ouvimos dizer que o cavalo em casa se comportava muito bem nos treinamentos, porém ao chegar às proximidades das pistas, alteravam completamente seu comportamento, seu desempenho e os resultados se tornavam negativos.

Vários podem ser os motivos para o estresse, como transporte, temperatura, quadros de patologias, sonorização, etc., mas vamos nos ater no aspecto audição do cavalo, motivo principal deste artigo, que pode ajudar organizadores de eventos, competidores, treinadores e criadores quanto à qualidade e a utilização adequada do sistema de sonorização de provas equestres, fator importantíssimo, desde que em condições adequadas ao Bem-Estar Animal de competição.

A ORELHA

É denominada adequadamente como órgão vestíbulo coclear, pois não só permite que o animal ouça, mas também lhe confere um sentido de equilíbrio. Os estímulos mecânicos produzidos por ondas sonoras se transformam em impulsos nervosos na cóclea e a ação de pequenas quantidades de líquidos e cristais microscópicos em neuroreceptores dentro do vestíbulo proporciona ao animal uma percepção da atitude e do movimento de sua cabeça em relação à gravidade. Ambas as funções são efetuadas na orelha interna, a mais medial das três subdivisões da orelha como um todo. As outras subdivisões são a orelha média e a orelha externa sendo esta visível no animal e as outras contidas no osso temporal.

ORELHA EXTERNA

É composta de duas partes, a aurícula e o meato acústico externo. O pavilhão é a ‘orelha’, assim identificada para o leigo, a parte que se salienta na cabeça. O meato acústico externo é o canal que vai da base do pavilhão até a membrana do tímpano, distendido através de uma abertura do osso temporal. O pavilhão tem um formato de funil para receber o som e pode mover-se.

ORELHA MÉDIA

Está contida no osso temporal e é, essencialmente, um pequeno espaço cheio de ar, conhecido como cavidade timpânica. A parte lateral da cavidade incorpora a membrana do tímpano. A cavidade timpânica pode ser dividida em partes dorsal, media e ventral. Nelas são encontradas a cadeia de ossículos auditivos e músculos associados, na parte media encontra-se a tuba auditiva e na parte ventral a bolha timpânica que segundo estudos, pode melhorar a percepção de sons de freqüências muito baixas e muito altas.

ORELHA INTERNA

Os estímulos mecânicos produzidos pelo som e pelas alterações da posição da cabeça são transformados em impulsos nervosos na orelha interna. Esse é um mecanismo delicado que fica exposto a vibrações sonoras na superfície lateral e os impulsos em que estas vibrações são convertidas, deixam o osso em fibras nervosas que atravessam o meato acústico interno na superfície medial. Sua estrutura apresenta o labirinto membranático, ductos semicirculares, máculas que controlam a posição da cabeça em relação à gravidade e sua movimentação.

Os cavalos podem ouvir sons à distâncias maiores do que nós humanos. Muitas vezes, estes sons estão há vários quilômetros de distância. Por causa de sua sensibilidade e sua audiência, os cavalos podem se assustar facilmente quando ouvem ruídos altos o colocando em um estado de alerta maior.

A FREQUÊNCIA AUDITIVA

A frequência dos sons é medida em Hertz (Hz). O nosso alcance de audição vai de 20Hz até 20KHz, mas os cavalos podem ouvir desde 60Hz até 33,5KHz, aproximadamente.  Portanto, o cavalo é capaz de captar sons não captados pelo homem. Ao contrário dos cães (que captam melhor os sons graves), os cavalos captam os ultrassons agudos, porém não conseguem ouvir certa frequência de sons graves que nós conseguimos.

Essa sensibilidade auditiva pode trazer sofrimento ao cavalo. Barulho excessivo o deixa sobressaltado e agitado.

A LOCALIZAÇÃO DO SOM

Quanto à localização da fonte dos sons, o cavalo sobrepuja muito o homem. Enquanto o ser humano é capaz de localizar um som em um ângulo de um grau, o cavalo tem um limiar de cerca de 25 graus. Ele também é dotado de um sistema de alerta coordenado entre a visão e a audição. Podemos observar isto na simultaneidade entre os movimentos da cabeça e dos olhos quando o cavalo ouve um ruído inesperado.

A DISTINÇÃO SONORA

O cavalo reconhece ruídos familiares e também os comandos dados pelo homem e parecem melhores do que o ser humano para distinguir entre sons de intensidade aproximada.

ONDAS SONORAS

O som pode ser descrito através de uma sequência de ondas sonoras, que são ondas de deslocamento, densidade e pressão que se propagam pelos meios compressíveis, como o ar, a água ou um sólido. Nem toda onda sonora é percebida como ruído e nem todas são identificadas pelo ouvido.

vibrissas

As vibrissas (bigodes) ao redor do focinho e, os cascos, são considerados, até certo ponto, como detectores de energia vibrátil, a energia da onda sonora.

QUAL A DIFERENÇA ENTRE FREQUÊNCIA E DECIBÉIS?

A frequência de um som mostra o quanto ele é grave ou agudo, enquanto os decibéis indicam o volume. Este último conceito é uma importante referência para a saúde auditiva. De acordo com o valor dos decibéis (dB), podemos saber quando um som está muito alto. Barulhos acima de 110dB podem provocar perdas auditivas irreparáveis em menos de 30 minutos. Se o ruído ultrapassar 160dB, como durante uma explosão de fogos de artifício perto, nem que seja por uma fração de segundo, pode levar ao rompimento do tímpano.

A frequência é uma grandeza mais abstrata, mas também perceptível aos ouvidos. Vamos começar lembrando que, em certo sentido, as ondas sonoras são como as ondas do mar: elas oscilam para cima e para baixo, em uma sucessão de picos e depressões. No caso das ondas marítimas, se o oceano estiver agitado, essas oscilações ficam mais frequentes. Isso significa que a frequência delas aumentou. No mundo das ondas sonoras, os ouvidos traduzem o crescimento da frequência como um som que fica cada vez mais agudo. Além disso, cada valor de freqüência também significa um tom específico.

A professora Rickye Heffner, do Departamento de Psicologia da Universidade de Toledo (Ohio, USA), em seu trabalho sobre a evolução da audição em mamíferos, aborda achados igualmente amplos de exposições crônicas e agudas aos ruídos, onde tais exposições poderão desencadear a reação de medo, conseqüentemente a mudança de comportamento animal.

Efeitos do ruído na produtividade e no comportamento animal dependem não apenas da intensidade (dB) e frequência (Hz), mas também da capacidade auditiva da espécie, da idade e do estado fisiológico do animal no momento da exposição. Também depende da experiência do animal ao tempo que foi exposto durante a sua vida (histórico de exposição aos ruídos).

COMO OS ANIMAIS PERCEBEM O RUÍDO?

O efeito do ruído no sistema nervoso central depende do estado do cérebro. Em um indivíduo exausto, os mecanismos compensatórios são mais vulneráveis ​​do que em um indivíduo descansado. A intensa exposição ao ruído pode danificar a cóclea e a orelha interna e levam a uma cascata de efeitos auditivos ao longo de toda a cascata auditiva central (Castelhano-Carlos e Baumans, 2009). Animais têm um espectro diferente de sons audíveis com sensibilidade máxima a frequências inaudíveis para humanos (Voipio, 1997).

METABOLISMO E ESTRESSE

O ruído demonstrou induzir uma variedade de mudanças fisiológicas, como mudanças na homeostase (Equilíbrio Fisiológico), cardiovascular e na secreção de hormônios. O sistema nervoso parassimpático também é influenciado e tem um efeito principalmente reverso em comparação com o sistema nervoso simpático (Algers ET Al., 1978; Manteuffel, 2002).

O som alto é bem conhecido por efeitos adversos na pressão sanguínea e frequência cardíaca em seres humanos e animais (Geverink et al., 1998; Morgan, Tromborg, 2007). O efeito mais óbvio é uma reação de estresse geral com maior secreção de ACTH, dando um aumento de hormônios adrenocorticais no sangue (Burrow et al., 2005).

Reações ocorrem no sistema circulatório e na motilidade gastrointestinal, mudanças no metabolismo da glicose do fígado, mudanças na atividade enzimática dos rins, e um aumento de percentual de eosinófilos no sangue e imunossupressão (Algers et al., 1978). O ruído causa uma reação de estresse geral influenciando a maioria dos órgãos. A reação do estresse provoca efeitos em curto prazo e também efeitos em longo prazo.

Fisiologicamente, exposição prolongada ao ruído intenso está associada ao aumento da atividade do sistema nervoso autônomo. Sua ativação prolongada está correlacionada com maior atividade no hipotálamo-pituitárioa-adrenal, causando uma diminuição nos glucocorticóides plasmáticos e um aumento das catecolaminas plasmáticas, ACTH e concentrações de cortisol (Otten et al., 2004; Kanitz et al., 2005). No entanto, não só o estresse prolongado, mas também repetido, é perigoso.

A AUDIÇÃO CAPTA A ATENÇÃO DE UM CAVALO

Os seres humanos atendem movendo os olhos, independentemente da modalidade do alerta estímulo. Os cavalos, no entanto, ‘atendem’ ao apontar os ouvidos.

Estudos psicofísicos e comparativos sobre o alcance da audição no cavalo em comparação com um limite humano em muitas situações, para o cavalo é extremamente desconfortável sons de alta intensidade (altos e desajustados), o assustando demasiadamente, provocando reações comportamentais de medo e/ou fuga.

Quando o cavalo se assusta provoca um estímulo de agitação o que compromete sua concentração e pode estragar sua performance de ‘cavalo atleta’, visto que a área de sensibilidade da audição do cavalo é ampla desencadeando defesas e reflexos do animal, geralmente de resistência aos comandos do cavaleiro.

Outra área de grande importância na pesquisa sobre audição do cavalo é a sua capacidade para identificar certos estímulos auditivos com certas consequências. Embora Heffner (1998) sugere que é difícil para um cavalo associar qualidade de um sinal sonoro com uma resposta espacial, os cavalos podem aprender a associar certos sons em certos eventos, desenvolvendo fobias sobre uma determinada atividade, com comportamento agitado. Sua agitação pode estar relacionada com sons que estão fora do alcance do ouvido humano.

Os cavalos podem ligar experiências específicas tanto positivas como negativas a sons específicos. Às vezes, a chave para a agitação de um animal pode ser o que ele está ouvindo.

CONCLUSÃO

Baseado nas observações, e mesmo em pesquisas, é necessário ter um cuidado com a saúde auditiva, tanto de humanos quanto de animais, em especial o cavalo. Pesquisas continuam sendo realizadas e não podemos negligenciar a nossa própria sensibilidade auditiva, uma vez que ao nos incomodarmos com sons mal equalizados, em volumes acima do limite nos causando desconforto, imediatamente podemos lembrar que nossos cavalos por possuírem uma sensibilidade auditiva muito mais apurada que a nossa pela sua própria natureza ao longo de milhares de anos de adaptação e seleção, certamente sofrerão em mais intensidade e com sérios prejuízos a sua saúde, ao seu comportamento e a seu desempenho atlético.

Devemos isso aos nossos cavalos atletas, as melhores condições para se tornarem verdadeiros campeões.

Por Roger O. Clark   –  Médico Veterinário

Colaboração Zootecnia –  (LETA – Laboratório de Etologia Animal / UFSC | Nebeq – Núcleo de Bem Estar de Eqüínos / UFSC)

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