O achinelamento de casco é diagnosticado quando o local tem o eixo podo-falangeano (eixo quartela-casco) desalinhado

Isto é, o ângulo de casco é menor que o ângulo da quartela. A condição pode ser causada por diferentes motivos:

Traumatismo – Animais que sofreram algum tipo de fratura na região da quartela ou boleto, desalinhando o eixo de forças que o peso exerce sobre o casco e sobrecarregando mais a parte posterior do casco.

Isto também pode ocorrer no membro contra-lateral ao lesionado, por sobrecarga. Por exemplo, se o animal tem um problema no membro anterior direito e há claudicação ou até uma inatividade total do membro, o anterior esquerdo passa a sustentar todo o peso que seria dividido entre os dois, podendo levar a um achinelamento.

Má conservação do casco – Essa é a causa mais comum. Afeta animais que são mal casqueados, sem que o casqueador respeite a angulação correta que o casco de cada animal deve ter.

O intervalo de tempo entre um ferrageamento e outro também é um fator importante. Não se deve esperar que a ferradura caia do casco. Dependendo da utilização do cavalo uma ferradura dura sessenta ou até noventa dias. O que algumas pessoas percebem como vantagem é na verdade muito prejudicial ao animal, levando ao achinelamento dos cascos. O tempo ideal entre um ferrageamento e outro fica em torno de cinco a seis semanas.

As consequências prejudiciais causadas pelo achinelamento atingem locomoção e performance dos cavalos. Mesmo a curto prazo, acontece deficiência em se movimentar e aumento da força que o animal tem que fazer para realizar o andamento. Ele passa a tropeçar com mais frequência, pois o trajeto do casco tem um atraso (retardamento do ápice da trajetória) no ‘vôo’ que executa a cada passada.

A médio e longo prazo, o casco achinelado causa contusões na região da pinça, esforço exagerado nos tendões flexores (superficial e profundo) e maior pressão na região posterior do casco levando a problemas como síndrome do navicular e colapso dos talões. Se a causa do achinelamento for má conservação do casco ou tempo excessivo entre um ferrageamento e outro o problema pode ser corrigido em qualquer idade.

Quanto ao tratamento em si, ao contrário do que muitos pensam, não basta ser feito o casqueamento com a retirada do material apenas da parte anterior do casco, ou seja, da região da pinça e um pouco dos quartos não mexendo nos talões. Esse tipo de casqueamento pode até corrigir o ângulo do eixo da quartela com o casco, mas causa um problema maior que é chamado de colapso de talões.

Quando não são aparados devidamente, ao invés de crescerem os talões vão deitando cada vez mais e a área de apoio da parte posterior do casco vai diminuindo a cada casqueamento que é feito dessa maneira. Para que isso não ocorra é necessário aparar os talões, é o que chamamos de ‘trazer o casco para trás’ aumentando a área de apoio da sua parte posterior.

A referência que usamos para a aparação dos talões é a parte mais larga da ranilha. O uso da pinça reta e rolada é indicada tanto para cavalos que vão ser ferrados quanto os que vão ser somente casqueados. Com isso diminuímos a área de resistência que a pinça longa exerce no momento em que o animal muda a passada. Dessa forma teremos cascos fortes, bem apoiados e capazes de sustentar o peso que lhes é imprimido na movimentação do animal.

Quanto ao ferrageamento, é indicado o uso de ferraduras do modelo oval (eggbar ou pianela) e de coração (heartbar). Essas ferraduras proporcionam um maior apoio à região posterior do casco, e consequentemente diminuem a pressão nos talões. Elas devem ser usadas também com a pinça reta e rolada auxiliando o ponto de quebra do casco.

Não há idade específica para buscar a ‘cura’ do achinelamento. Sempre é interessante e possível melhorar o problema. Existem casos de animais que têm cascos com tendência a crescerem achinelados por fatores como: raça, tipo de modalidade esportiva a que são submetidos e angulação do eixo da quartela com casco. Para esses animais usamos as ferraduras já citadas.

A ideia principal na correção desse problema é reduzir o stress causado pela pinça comprida na parte posterior do casco e nos tendões flexores. O uso de talonetes é muito comum. Esse tipo de palmilha em forma de cunha pode resolver o problema num primeiro momento, mas à longo prazo ele se agrava ainda mais.

A tentativa de aumentar o ângulo do casco com esse acessório faz com que, a pressão sobre os talões aumente ainda mais fazendo com que eles entrem em colapso mais rápido, diminuindo ainda mais o ângulo do casco.

A prevenção desta condição é simples. O principal ponto a observar é a aparação correta dos cascos, preservando o ângulo do eixo podo-falageano (quartela-casco), que é individual para cada animal. Além disso, o tempo entre um ferrageamento e outro não deve ser superior a 6 semanas.

Casco de cavalo não é como roda de carro, em que se troca o pneu somente quando está gasto. Lembre-se que, o casco cresce principalmente em animais que, usam ferraduras diretoe não têm o desgaste natural.

As ferraduras muitas vezes podem ser reutilizadas, mas devem ser retiradas para a aparação do casco nos prazos citados (5 a 6 semanas). Somente com esse tipo de prevenção evitamos que o achinelamento traga problemas graves e irreversíveis para saúde e utilização dos cavalos.

Por Edison Pagoto
Médico veterinário e ferrador, professor na Universidade do Cavalo em Sorocaba
Fonte: Editora Passos