Quando o animal começa a ser usado como meio de locomoção, cria-se um laço. Clique aqui para ler a primeira parte.

Os equinos têm fundamental importância na vida dos homens, uma vez que essa relação contribuiu para o desenvolvimento da humanidade em suas expansões territoriais e na sociedade de uma maneira geral.

Comportamento Social (Imprinting e Tipo de Hierarquia)

O Equus caballus tem suas características comportamentais resultantes da adaptação evolutiva ao seu ambiente, de forma a aperfeiçoar a sobrevivência em um nicho de determinada comunidade. Para tanto seus sentidos são agudos, suas reações rápidas, e desempenham uma forte coesão social.

A estrutura social do grupo é determinada pelo tipo e qualidade das relações entre os indivíduos, sendo estas definidas por si mesmas na natureza das interações. Tais interações entre os membros ou comportamentos de um indivíduo sugerem que estes possuem, no grupo, funções específicas, sendo a hierarquia parte de sua formação naturalmente respeitada.

Animais mais velhos e maiores são normalmente encontrados na ordem de dominância. Um garanhão dominante do grupo desempenha a função de conduzir o movimento do rebanho pela área de pastagem, além de manter um papel de vigilância em geral. Este animal pode ser descrito como um coordenador de ações, liderando e encorajando o grupo a se manter unido.

Foto: thespruce.com

O garanhão maduro, embora muitas vezes retratado como agressivo e dominador, vive relativamente em silêncio. E não usa todo seu tempo brigando, mas sim demarcando territórios pelo cheiro de marcação de suas pilhas de esterco e urina (defesa intra e interespecífica de território).

Tal função é de suma importância, uma vez que, determinado indivíduo que inicia uma atividade não é seguido pelos membros do grupo, a menos que o indivíduo controlador junte-se ao movimento. Uma égua mais velha é considerada líder do grupo uma vez que possui maior conhecimento da área que se encontra e de seus perigos potenciais, em relação aos outros animais do grupo.

Os cavalos possuem uma zona de perigo, um determinado espaço ao redor destes, no qual ocorre uma ordem de hierarquia secundária, onde o equino subordinado respeita o dominante e mantém-se a uma distância segura. Tal dominância social é principalmente exibida quando se possui um lugar restrito para a alimentação, forçando-os a entrar na zona de perigo dos outros animais, tal situação quase não ocorre na natureza, pois a competição por alimento é menor.

O processo de imprinting ocorre dentro da primeira hora após o nascimento do potro. É um período crítico, onde o animal aprende a conhecer sua mãe. É muito utilizado por criadores para acostumar desde cedo a relação do homem com o cavalo.

Comportamento Ingestivo

A seleção da dieta por herbívoros em pastagem é definida como a escolha do alimento entre diferentes componentes, quando há oportunidade de livre escolha. Esta seleção é influenciada por muitos fatores, tais como: demanda nutricional, compostos tóxicos nas plantas, disponibilidade da forragem, interação social e risco de predadores. Durante o pastejo, os equinos frequentemente se defrontam com heterogeneidade espacial e temporal disponível ao pastejo e devem tomar decisões instantâneas de quando e onde pastejar.

Estas decisões podem ser consideradas como uma troca entre os custos e benefícios que a forragem pode oferecer e tem efeito de curta ou longa duração no bem-estar animal.

Estudos a respeito do comportamento ingestivo dos e equinos mostraram que os animais podem identificar inúmeras características estruturais das plantas, como a altura, a densidade, presença de folhas e colmos etc. E executar diferentes estratégias para a seleção e colheita da forragem.

O comportamento dos equinos em pastejo e a seleção da dieta são de fundamental importância na avaliação do sistema alimentar na criação de cavalos, porque determinam a quantidade e a qualidade dos nutrientes ingeridos.

Foto: Bktl

Comportamento Reprodutivo

Na natureza, os garanhões apresentam dois comportamentos principais: Mantém seu harém junto e protegido e identificação de éguas em estro, corte e acasalamento.

No harém, a égua mais velha vai a frente e o garanhão segue atrás conduzindo o grupo e garantindo que nenhuma égua escape do grupo, levadas por outros garanhões.

Eles seguem conduzindo trotando ou galopando atrás do grupo ou ladeando os indivíduos desgarrados do grupo, mostrando sua irritação abaixando e levantando a cabeça e murchando as orelhas para junto da nuca.

Apenas ocasionalmente ocorrem lutas. Antes, o garanhão sinaliza, se exibindo e provocando seu adversário, sapateando e ameaçando. Pois a agressão envolve riscos de ferimentos mesmo que seja o vencedor da disputa. Desta forma, os indivíduos que conseguem desenvolver alternativas aos conflitos físicos são superiores e conseguem se reproduzir e desta forma perpetuar sem gen.

Isso inclui marcar bem seu território e saber ler o adversário, ter noção da sua condição física, saber se impor e sobretudo saber quando se retirar da disputa. Tudo isso pode durar muito tempo enquanto o embate físico dura segundos.

Na vida selvagem é normal encontrarmos grupos de garanhões solteiros. Esses também brigam e podem se matar na ocasião das disputas por haréns. Mas isso não ocorre com frequência e da mesma forma que com os garanhões que protege seus haréns, os solteiros avaliam os riscos e a escala de ameaças também é utilizada.

Quando um garanhão percebe que uma das éguas de seu harém está próxima ao estro, este começa a prestar mais atenção e a fazer investidas, mordiscando sua traseira. Até entrar em estro ela não permite este comportamento e se esquiva ou escoiceia, repelindo a atitude.

Porém, ao entrar em estro em resposta a investida do garanhão ela para, permitindo que ele mordisque seu corpo até o pescoço. Seguindo para a região perineal onde cheira e em resposta a qualquer eliminação de líquidos corporais ele faz o flehmen. O garanhão também saltita e empurra a égua, aumentando gradativamente a intensidade.

Em resposta, a égua em estro everte o clitóris, lateraliza a cauda e urina. O garanhão ‘testa’ a égua expondo o pênis e montando algumas vezes, inicialmente pela lateral do seu corpo. Após as invertidas exploratórias o garanhão terá a certeza de sua aceitação pela égua, ele faz a exposição do pênis em ereção e efetua a monta com penetração.

Na cópula que é rápida o garanhão pode morder a crina e/ou pescoço da égua e a ejaculação pode ser presumida pelos movimentos de abaixar e levantar da cauda, abaixa a cabeça e relaxa os músculos da face. Na vida selvagem o garanhão estará disposto a cobrir outra égua em dez minutos.

Principais Desafios do Bem-Estar Animal para o Sistema criatório corrente

É preciso saber avaliar o grau de bem-estar animal para melhorarmos a qualidade de vida dos cavalos e, consequentemente, a relação entre humanos e cavalos.

Atualmente, tem-se estudado formas diretas e indiretas de avaliação do bem-estar de diferentes espécies por meio de indicadores físico-comportamentais (diretos) e ambientais (indiretos). Esses indicadores específicos estão sendo mais valorizados por pesquisadores e proprietários, por considerarem além das necessidades básicas do animal para uma vida regular.

Para realizar uma avaliação do bem-estar animal é muito importante entender que alguns pré-conceitos sejam abandonados, mesmo aqueles enraizados nas tradições da criação de equinos. Ao abandonar os pré-conceitos, é possível avaliar, analisar e modificar práticas, procedimentos e instalações com o objetivo de promover e manter elevado o grau de bem-estar dos cavalos.

Antes de qualquer análise sobre bem-estar, um estudo dos comportamentos normais de uma espécie é essencial para a identificação de qualquer tipo de problema. As características físicas e os comportamentos naturais dos cavalos devem servir de base para as escolhas com relação às instalações e práticas de manejo a serem desenvolvidas.

Na Equídeocultura, que compreende a criação de equinos, asininos e muares, também se tem buscado adequar a criação destes animais às leis de bem-estar e aos princípios da ambiência. Grandes criadores de equídeos do mundo têm pesquisado soluções para a criação adequada de seus animais.

No Brasil, isso não é diferente, mesmo que ainda timidamente, grandes haras nacionais têm investido em climatização de ambientes, rações e água de altíssima qualidade. Tudo isso para ter animais mais fortes, mais bem adaptados e em condições de conforto nas regiões onde são criados, seja para finalidade de trabalho ou lazer.

É importante frisar também que estes cuidados com os animais deverão se estender aos esportes equestres, uma vez que esses animais podem chegar a valores muito elevados.

Medidas ambientais simples deverão ser tomadas sempre que possível em prol da ambiência dos animais, tais como, propiciar sombra nos piquetes de pastejo ou piquetes maternidade para evitar possíveis danos à saúde das éguas e potros.

Se não houver disponibilidade de sombra natural, recomenda-se providenciar estruturas de sombreamento artificial (tela sombrite) para os animais. Além de sombra, deve-se proteger o local de arraçoamento; investir em cercas fortes e que protejam, principalmente, os potros curiosos; destinar às éguas recém-paridas um piquete exclusivo.

Aos garanhões, destinar piquetes amplos ou baias amplas e arejadas. Se os animais forem colocados em baias, permitir um confinamento adequado com baias bem dimensionadas e com boa entrada de luz e ventilação, com cama sempre limpa e com alturas corretas de cochos de água e comida e, sempre que possível, colocar alguma distração (enriquecimento ambiental) dentro das baias para evitar vícios comportamentais, tais como a aerofagia (vicio de engolir ar).

Com relação ao bem-estar de animais confinados, recomenda-se ainda destinar um período do dia, de preferência o de temperatura mais amena (manhã), para execução de exercícios físicos, onde será possível evitar problemas de estresse térmico e traumas. Atualmente percebe-se uma mudança nos criadores de animais que competem em modalidades olímpicas, no quesito ambiência e bem-estar para que os animais tenham um ótimo desempenho nas provas disputadas.

No Brasil, a equídeocultura avança rápido e na mesma velocidade tem-se também a expansão dos estudos de ambiência e bem-estar animal voltados a esse importante setor.

Conclusão

Conceito amplamente difundido na atualidade, o bem-estar animal deixou de ser apenas uma opção. No que se refere aos cavalos, em qualquer atividade a qual esses animais sejam submetidos, a atenção à sua boa disposição, satisfação, conforto e segurança é indispensável.

Por Roger Clark
Médico Veterinário, Juiz e Inspetor Zootécnico ABQM e ABCPaint, Consultor em Comportamento e Bem-Estar Animal
Fotos: Cedidas

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