Saúde Animal

Ionóforos e equinos: uma combinação fatal

As rações contendo ionóforos são muito perigosas para os equinos por conta de sua sensibilidade

Os ionóforos são antibióticos algumas vezes adicionados a rações de bovinos e aves, melhorando a eficiência alimentar e a taxa de crescimento. Atualmente aprovados para uso são seguros quando usados em doses adequadas para as espécies indicadas. Rações contendo ionóforos são muito perigosas para os equinos, espécie mais sensível à intoxicação que as outras, podendo ocorrer morte súbita.

Acima de tudo, são antibióticos carboxílicos poliéteres, usados originalmente como agentes coccidiostáticos. Adicionados, portanto, à ração de frangos de corte e posteriormente empregados na melhoria da eficiência alimentar em ruminantes. Os efeitos benéficos nesse segundo caso são: aumento da performance reprodutiva, ganho de peso e melhor utilização de proteínas da dieta, prevenção de pneumonia intersticial atípica, efeitos anticetogênicos, prevenção de acidose ruminal, redução na produção de metano e uso terapêutico e profilático das coceidioses.

Produtos obtidos principalmente da fermentação de diversas espécies de Streptomyces e conhecidos aproximadamente 76 tipos de ionóforos, destacando-se, sobretudo, a monensina, o lasalocid, a salinomicina e a nasarina. Eles são ácidos orgânicos pouco solúveis em água, mas solúveis em solventes orgânicos e altamente lipofílicos.

Apesar dos seus efeitos benéficos, os ionóforos são tóxicos quando doses altas são fornecidas. Sendo encontradas na literatura descrições de intoxicações em cavalos, muares, bovinos, ovinos, cães, camelos, perus e frangos. A intoxicação pode ocorrer com maior facilidade nos equinos, pois os ionóforos são muito tóxicos para esta espécie. Mesmo nas doses recomendadas para bovinos, ela é letal quando ingerida pelos equídeos.

Sinais clínicos

A apresentação clínica depende diretamente da dose ingerida e apresenta algumas variações individuais. Nos equinos podem acarretar desde discreta anorexia e desconforto abdominal até morte repentina, dependendo da quantidade ingerida.

Os achados clínicos podem incluir anorexia, depressão, dor abdominal, sudorese profusa intermitente, ataxia e fraqueza de membros posteriores, caracterizados por um andar rígido ou relutância em movimentar-se. Nos casos agudos e subagudos, a morte pode ocorrer de 24h a 48h, provavelmente como resultado de choque hipovolêmico pelas perdas dos eletrólitos.

As animais acometidos caem e levantam repetidamente, antes de evoluírem para o decúbito permanente. Outros apresentam decúbito estemal, progridem para o lateral e ficam incapacitados de permanecer em estação. Profunda dificuldade respiratória pode ocorrer nos estágios terminais. Cavalos acometidos podem apresentar evidência de arritmia cardíaca, taquicardia, hiperventilação, dispneia e intolerância ao exercício.

Surtos de intoxicação por monensina em equinos têm sido relatados com apresentação clínica de taquicardia e arritmia cardíaca, incoordenação, sudorese, mucosas cianóticas, decúbito, dificuldade respiratória e movimentos de pedalagem antes do óbito.

Se sobreviverem, os animais podem apresentar anormalidades à auscultação, anormalidades eletrocardiográficas devidas à fibrose miocardial e aumento das frequências cardíacas e respiratória. Esses equinos podem morrer subitamente durante o exercício mesmo semanas ou anos após a intoxicação. 

Ionóforos e equinos: uma combinação fatal As rações contendo ionóforos são muito perigosas para os equinos por conta de sua sensibilidade

Diagnóstico

O diagnóstico da intoxicação por ionóforos em equinos é baseado no histórico, sinais clínicos, anormalidades laboratoriais e lesões descritas na macro e microscopia. Sendo melhor confirmada pela análise dos níveis de ionóforos em rações suspeitas. Essa associação de informações é essencial, pois não existem sinais clínicos ou lesões patognomônicas, mas achados macro e microscópicos individuais podem ser encontrados em outros processos.

Deve-se suspeitar de intoxicação por ionóforos quando forem observados sinais de anorexia, decúbito, morte súbita e cardiomiopatias degenerativas. As lesões provocadas por ionóforos devem ser diferenciadas de outras condições importantes de miopatias em equinos, como a rabdomiólise de esforço, a miopatia nutricional (vitamina E/selênio), a cardiomiopatia neurogênica e a necrose isquêmica miocardial devida a trombose, a cantaridíase, a intoxicação por plantas cardiotóxicas como Nerium oleander e Cassia occidentalis e a intoxicação por Senna occidentalis

Tratamento

Não existe tratamento específico para as intoxicações por ionóforos. A retirada da fonte de exposição deve ser a primeira atitude a ser tomada. Protocolos de tratamento de suporte devem ser estabelecidos baseados em fluidoterapia agressiva com soluções isotônicas e poliônicas, principalmente nos casos agudos, com monitoramento constante de parâmetros sanguíneos, como hemoconcentração e calemia.

A administração concomitante de selênio e vitamina E antes da administração de monensina tem demonstrado efeito protetor contra o desenvolvimento de necrose esquelética e cardíaca em suínos. O uso de carvão ativado e catárticos salinos estão indicados, visando a diminuir a absorção da droga. Nos casos crônicos, o uso de digitálicos é contra-indicado, pois a monensina e o digitálico agem sinergicamente, promovendo dano irreversível aos cardiomiócitos.

Durante o tratamento, deve ser observado repouso absoluto, já que o exercício pode acarretar piora no quadro clínico ou mesmo provocar sintomatologia em animais assintomáticos. Em virtude da não existência de tratamentos específicos para os casos de intoxicação por ionóforos, a principal medida preventiva é reduzir os riscos de ingestão de rações que contenham ionóforos em sua composição, seja pela aquisição de rações de boa qualidade seja tomando medidas que evitem seu consumo acidental pelos equinos.

Colaboração: Alexandre Secorun Borges, Daniel Pessoa Gomes da Silva, Roberto Calderon Gonçalves, Márcio Rubens Graaf Kuchembuck, Simone Biagio Chiacchio, Luiz Cláudio Nogueira Mendes e Ênio Pedone Bandarra | Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – UNESP | Departamento de Clínica Veterinária
Crédito da foto de chamada: Divulgação/Pixabay

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