Evitar a ocorrência, diminuir a gravidade e acelerar a recuperação dos diversos tipos de claudicações dos equinos depende de uma abordagem criteriosa e multidisciplinar

A pergunta acima é uma das dúvidas mais frequente que proprietários de cavalos de todos os tipos fazem aos veterinários. O interessante é que a pergunta vem assim mesmo, sem nenhuma informação que possa ajudar a chegar a algum diagnóstico.

Quando falamos das claudicações (manqueiras) dos cavalos, é preciso considerar alguns aspectos anatômicos. O aparelho locomotor do cavalo é composto de ossos, unidos pelas articulações (juntas), que são constituídas por ligamentos, cápsulas articulares e líquido sinovial.

Os tendões conectam ossos e músculos, e é a contração destes últimos que gera o movimento. Quando um cavalo manca, uma ou várias destas estruturas podem estar comprometidas. Para responder à pergunta ‘por que o meu cavalo está mancando?’ devemos tentar chegar à origem física e, portanto, à causa da dor que ele está sentindo.

Podemos classificar as manqueira como agudas ou crônicas. As agudas são aquelas que surgem repentinamente e/ou existem há pouco tempo, às vezes relacionadas a um acidente recente. As crônicas são aquelas que existem há semanas, meses ou anos, em geral piorando aos poucos ou passando por fases de melhora relativa seguida de nova piora. Esta diferenciação é importar para escolher o tratamento mais indicado.

Existem condições do aparelho locomotor que não causam manqueira direta, mas são motivo de incômodo estético, além de poderem piorar a amplitude ou a força do movimento do cavalo. Um exemplo são as chamadas ‘ovas’, aumentos de volume da cápsula articular comuns em animais que trabalham intensamente.

Em geral, as claudicações se originam em causas diversas, as quais aliadas entre si resultam os sintomas apresentados pelo animal. Alguns fatores a considerar:

  • Idade do cavalo – Animais jovens costumam mancar quando são forçados cedo demais. Cavalos adultos podem sofrer pela utilização intensa em esporte e trabalho; enquanto os animais idosos já têm o aparelho locomotor desgastado por uma vida de esforços.
  • Tipo físico e aprumos – Os cavalos pesados, gordos ou muito musculosos, sobrecarregam a parte estrutural do aparelho locomotor, enquanto os magros demais compensam a falta de musculatura através de movimentos forçados, de alto impacto. Problemas de aprumos, tais como cascos mal angulados, jarretes fechados, joelhos curvos ou transcurvos, etc, agravam estas condições.
  • Tipo de trabalho e tipo de piso – Quanto mais pesado e/ou rápido o exercício, maior o impacto sobre o aparelho locomotor. Trabalho prolongado leva à fadiga, com perda de eficiência da contração muscular, o que aumenta o risco de claudicação. Quanto mais duro o piso, maior o impacto, o que agrava problemas ósseos e articulares. Já o trabalho em piso fundo e macio, ou encharcado, tende a sobrecarregar os tendões.
  • Ferrageamento – Todos os problemas descritos se agravam quando o cavalo é ferrado ou casqueado por um profissional pouco competente; esta é uma causa muito comum das manqueiras crônicas dos cavalos, que pode levar à sua inutilização. O bom ferrageamento preserva o locomotor saudável, ou pode ser ortopédico, melhorando alterações existentes.
  • Manejo e utilização – Confinamento e falta de rotina de treinamento são veneno para o aparelho locomotor dos cavalos, especialmente para os potros. O trabalho precisa ser constante, progressivo e regrado, de acordo com as possibilidades e características do cavalo, independente das ambições do cavaleiro. Grande parte das manqueiras é causada por trabalho esporádico (cavaleiros de fim-de-semana), sem respeitar o nível de condicionamento físico do cavalo. Outro problema comum é o excesso de trabalho de explosão e velocidade, em cavalos que não recebem os benefícios de um programa de condicionamento físico com muito trabalho ‘longo e lento’ (passo, trote, flexionamentos, etc) que deveriam ser a base de todo cavalo funcional, os de trabalho e lazer tanto quanto os de esporte.
  • Fatores predisponentes diversos como manejo e genética são importantes causadores de claudicações, especialmente nos potros.
  • Manqueiras podem ser sintomas também de deficiências técnicas do cavaleiro (por exemplo, pessoa que ao montar ‘soca no rim do cavalo’, levando a alterações de movimentação que se refletem nos membros), ou ainda de equipamentos mal ajustados, tais como selas inadequadas causando dor, prejudicando a cadência dos andamentos.

A prevenção da claudicação dos equinos passa por todos os itens mencionados acima; ou seja, é preciso identificar a causa e eliminá-la, ou diminui-la ao máximo. Já o tratamento das claudicações pode ser dividido em dois aspectos:

1 – Sintomático – É o tratamento do primeiro momento, destinado a dar mais conforto ao animal, enquanto não se chega ao diagnóstico da causa da manqueira. Pode ser comparado a tomar analgésicos quando uma pessoa está com dor de dente – a causa da dor não é curada, mas a pessoa se sente melhor até a consulta com o dentista. No entanto, se o uso dos analgésicos continuar sem critério, o quadro vai piorar, podendo até resultar na perda do dente.

2 – Específico – É o tratamento da causa da manqueira, até a cura da mesma ou até a melhora máxima que pode ser obtida, dependendo da condição. Ele depende de um diagnóstico, que deve ser feito por um médico veterinário especializado em equinos.

Muitas vezes é necessário o uso de recursos diagnósticos complementares, tais como radiografias. O tratamento sintomático, focado no controle da dor, é bastante genérico, enquanto o para o tratamento específico existem tantos protocolos quanto há causas para manqueira. Vejam alguns exemplos de patologias diagnosticáveis:

a) Ossos – fraturas, fissuras, osteítes, sobreossos;

b) Articulações – ovas, entorses, luxações, osteófitos, calcificações, artroses, artrites;

c) Tendões e ligamentos – Tendinites, tenossinovites, rupturas e hiperextensões;

d) Cascos – infecções por bactérias ou fungos, traumas, laminite, brocas, abscessos;

e) Músculos – miosites, rupturas, disfunções metabólicas.

Cada um exige um tratamento diferente, e por isto o acompanhamento veterinário é tão importante. Os protocolos costumam aliar diversas abordagens terapêuticas, para maximizar as probabilidades de sucesso e a rapidez da recuperação, tais como:

  • Analgésicos;
  • Anti-inflamatórios;
  • Medicamentos complementares, tais como condroprotetores e estimulantes da circulação;
  • Ferrageamento ortopédico;
  • Manejo – repouso total (em cocheira ou piquete) ou parcial (apenastrabalho a passo, por exemplo);
  • Tratamentos no local da lesão (por exemplo, infiltrações peri ou intra-articulares);
  • Produtos e terapiastópicos(massagem, ligas de descanso, aplicação de frio ou de calor);
  • Terapias complementares, tais como fisioterapia, ultrassom ou laser terapêuticos;
  • Cirurgias em casos mais graves.

Cabe ao médico veterinário definir o melhor curso de tratamento, avaliando e readequando o mesmo conforme a evolução do caso. Dependendo do caso, pode levar meses ou anos até o cavalo voltar à ativa – por exemplo, seis meses a um ano em uma tendinite, e um a dois anos em uma laminite leve. A paciência e a colaboração do proprietário são essenciais para o sucesso.

O tratamento sintomático ou analgésico quase sempre alia produtos tópicos a analgésicos ou antiinflamatórios de uso oral ou parenteral (injetável). O uso prolongado destes últimos pode causar efeitos colaterais graves, incluindo gastrites e cólicas, além de piorar o problema original, já que ao sentir menos dor o animal estará fazendo mais força no membro afetado.

Práticas como massagens, aplicação de ligas de descanso com produtos tópicos, uso de duchas frias, caneleiras de gelo, ou compressas quentes são recursos complementares valiosos. Em geral, lesões agudas (recentes) respondem melhor à aplicação de frio, enquanto problemas crônicos (antigos) podem se beneficiar do calor, aí incluindo produtos termogênicos (que provocam sensação de calor na pele).

Exemplo de tratamento para uma claudicação aguda:

  • Histórico: No dia anterior, o cavalo estava galopando pelo campo em trabalho de laço e pisou num buraco. Sentiu dor na hora, e amanheceu pior no dia de hoje. Apoia os quatro membros, porém manca ao passo;
  • Possível diagnóstico: Torção do boleto com hiperextensão do ligamento suspensor do boleto;
  • Sugestão de protocolo de tratamento, duração máxima de cinco dias:

– Comunicar-se com o veterinário responsável – Iniciar terapia com gelo no membro afetado, 15 minutos por vez, 3 a 4 vezes por dia, durante cinco dias (por exemplo: cortar uma câmera de pneu de caminhão fazendo um ‘tubo’ que possa ser vestido na perna do cavalo. Amarrar embaixo, encher com cubos de gelo, e amarrar em cima. Deixar agir durante 15 minutos, com o cavalo imóvel.)

– À noite, aplicar camada grossa de barro medicinal (produto do tipo Ice-Flex ou Antiphlokin) na região afetada. Remover com jato de água na manhã seguinte, durante cinco dias.

– Manter o animal em repouso, em cocheira ou sozinho em piquete pequeno.

– Utilizar analgésico por um período máximo de cinco dias.

– Se não houver melhora significativa ao fim deste período, ou se o animal piorar durante estes cinco dias, é sinal de que se trata de um problema mais grave, e que o veterinário precisa fazer um diagnóstico exato, para estabelecer o tratamento adequado.

Exemplo de tratamento para uma claudicação crônica:

  • Histórico: Cavalo de tambor de oito anos que às vezes apresenta manqueira ligeira, que tende a melhorar ou desaparecer depois do animal estar aquecido. Os sintomas têm se agravado de algumas semanas para cá;
  • Possível diagnóstico: Síndrome do navicular (artrose e osteíte do osso navicular e/ou da terceira falange);
  • Confirmação de diagnóstico: Atendimento veterinário, com testes de flexão, bloqueio anestésico, e/ou radiografias do membro afetado;
  • Possível tratamento:

– Condroprotetores.

– Ferrageamento ortopédico.

– Antiinflamatórios e analgésicos a critério do médico veterinário.

– Infiltrações articulares, a critério do médico veterinário.

– Indicação cirúrgica, dependendo da evolução.

  • Prognóstico:

– Utilização atlética: favorável a reservado a curto e médio prazo, dependendo do grau de evolução do problema quando do início do tratamento. Reservado a desfavorável a médio e longo prazo, especialmente para trabalho intenso.

– Passeios e reprodução: favorável.

Por Claudia Leschonski, Médica Veterinária
Fonte: Editora Passos
Foto: stifleinjuriesinhorses

Escreva um comentário