Há mais ou menos 450 a.C. os gregos acreditavam que temperatura corporal estava relacionada com a vida
Para explicar a termografia como método de diagnóstico na medica equina, precisamos entender que mesmo com a evolução do pensamento do homem, demorou-se muito a correlacionar doença com temperatura. Ou seja, não se acreditava que a temperatura do corpo humano pudesse indicar algum problema orgânico.
Dos séculos 17 a 19, cientistas renomados tentaram explicar aos médicos que algumas doenças causavam aumento da temperatura corporal. Enquanto isso, a termodinâmica (parte da física que estuda os fenômenos entre matéria e temperatura) evoluía. Já se conheciam escalas de temperaturas como Celsius, Fahrenheit e Joule.
Pois bem, com a evolução da medicina, o médico e pesquisador francês Claude Bernard, correlacionou algumas áreas do cérebro com controle da temperatura corporal. Assim como alguns tumores de pele a processos inflamatórios. Observou-se que na superfície desses tumores eram mais quentes em relação a outras partes consideradas normais.
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Com isso a medicina no século 18 começou a engatinhar no campo da correlação entre doença e temperatura. Ou seja, havia certo limite entre o ‘normal’ e a ‘doença’. Em 1857, Spurgin construiu um aparelho denominado termoscópio. Capaz de diagnosticar tumores de mama, onde a temperatura no local do tumor era muito superior ao tecido periférico normal.
O referido aparelho, pelo seu sucesso, foi indicado também para diagnosticar doenças articulares. E isso, continuou por mais de um século. No início do século 20 um engenheiro, Palmer, desenvolveu um aparelho com as mesmas características. Capaz também de diagnosticar pontos de calor na coluna vertebral.
Início
E foi assim, mesmo que arcaicamente, que se deu início o registro de aumento de temperatura local e doença. Ou seja, os locais onde havia aumento da temperatura eram considerados com problemas. E esse aparelho foi o registrador e captador de onda de calor (radiação infravermelha) emitida pelo local do corpo com anormalidade.
Na Segunda Guerra Mundial, o exército americano usou em seus aviões de reconhecimento uma termocâmera, com a finalidade de localizar e bombardear tropas alemãs. Com a evolução dos aparelhos e tecnologia da informação, hoje temos a mais alta tecnologia à disposição para uso na medicina veterinária.
A finalidade é achar pontos de calor na superfície corporal do cavalo, pontos esses que podem nos ajudar a diagnosticar, antes mesmo do problema ou dor aparecer, e tratar. De uma forma não muito convencional, como crioterapia (uso do gelo), quiropraxia (manipulação dos ossos e colocação no seu devido posicionamento), fisioterapia, acupuntura e assim por diante.
Mas aí vem a pergunta: por que eu usaria isso se meu cavalo está normal e sem dor? Vamos imaginar um cavalo de Tambor, onde em uma fração de aproximadamente 17 segundos ele faz uma curva para a direita, em uma pista de terra, uma curva para esquerda, arranca com sua máxima capacidade e tudo isso não causa nenhuma dor e ou local de dor quer seja em membro ou coluna vertebral?
Fazendo um paralelo no atleta velocista humano de alto rendimento, que tem, na sua equipe de treinamento, um quiroprático, um massagista e um fisioterapeuta, com a finalidade de manter seu conjunto músculo esquelético e articular o mais próximo do normal possível, porque o mesmo, diferentemente de nós, usa seu corpo na sua máxima capacidade física diariamente. Agora transfira esse pensamento para o nosso atleta equino. Algumas imagens podem ajudar a entender melhor.

Figura 1
A cor branca na região da cernelha mostra áreas de dor crônica, decorrentes de um problema no casco posterior esquerdo. E essa região o cavalo mantém contraída como mecanismo defesa contra dor no casco esquerdo.
Além disso, imaginem a pergunta: será que o meu cavalo está corretamente casqueado e ou ferrado? Como poderia saber? A resposta é bem simples: a termografia nos mostra pontos de calor, aplicando-se isso ao casco, colocaremos o cavalo ao trote ou galope. Depois, examinaremos com o auxílio da câmera térmica a sua sola, ferrado ou não.
Essa, por sua vez, nos vai mostrar a distribuição do calor (cor vermelha) pelo seu contorno. Se a distribuição for por todo o casco, significa que está usando todo o casco para seu movimento. Enquanto que se for em apenas alguns pontos, ai teremos que reavaliar o ferrageamento e/ou casqueamento.
Existem infinitas aplicações, inclusive usadas em exames de compra de cavalos destinados para atividade atlética. Podemos detectar processos inflamatórios que os exames tradicionais como radiografia e ultrassonografia são incapazes de detectar precocemente.

Figura 2
A coloração da coroa do casco normal no exame termográfico é vermelha. Nesse caso apresenta-se branca indicando o início da chamada laminite. Processo inflamatório grave nas lâminas do casco e do osso podal.
O intuito básico da termografia visa achar pontos de dor e ou calor, na superfície corporal do nosso atleta equino, com a finalidade preventiva. Trabalhar esse ponto de calor de tal forma que não evolua para um processo inflamatório crônico. A partir dai seguir para o diagnóstico de um problema que poderia ser evitado anteriormente. Muitas vezes temos tratar e reavaliar, para posteriormente retornar ao treinamento e condicionamento físico. Ou seja, um desgaste para cavalo, cavaleiro, treinador e proprietário.
Não podemos nos esquecer de que, dentre as melhores equipes olímpicas do mundo, está a Australiana, que sempre está no pódio, trabalhando preventivamente nos cavalos destinados a competição de tal forma a se evitar ou abolir o mais precocemente dor e suas consequências.

Figura 3
Esta ilustração mostra pela cor vermelha no membro posterior esquerdo, na região do boleto, que especificamente nessa área existe um ponto de dor e/ou um processo inflamatório. Poderá ser investigado por outras técnicas de diagnóstico para se elucidar o problema.

Figura 4
Nesse outro caso, a região dos tendões flexores do membro anterior esquerdo apresenta uma cor branca. Que nos leva a interpretar uma provável tendinite crônica. Esse animal é usado em provas de Três Tambores.
Ao mesmo tempo, se compararmos a cor da cora do casco dessa figura (normal) com a cor da coroa do casco da figura 2, notaremos que essa possui cor vermelha e a da outra figura a cor branca (no caso da fig. 2. laminite).

Figura 3.1
A cor branca mostra pontos de calor por toda a coluna, evidenciando dor e/ou processo inflamatório. É um cavalo usado no Hipismo.
Por Dr. Luiz Alberto S. Vasconcellos, Médico Veterinário
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Fonte: Editora Passos
Fotos: Cedidas