Jumentos brasileiros mobilizam ciência e criadores para evitar risco de extinção

Queda acelerada da população acende alerta no país e impulsiona pesquisas que buscam alternativas ao abate e novas formas de preservação da espécie

O jumento, animal historicamente ligado ao desenvolvimento rural brasileiro, especialmente no Nordeste, passou a ocupar o centro de um debate científico e ambiental urgente. Pesquisadores, universidades, entidades de proteção animal e produtores têm se mobilizado para evitar que a espécie desapareça do país após uma queda populacional considerada alarmante nas últimas décadas.

Dados recentes indicam que o Brasil já perdeu cerca de 94% da sua população de jumentos, resultado de mudanças socioeconômicas e, principalmente, da crescente demanda internacional pela pele do animal, utilizada na produção do ejiao, um composto à base de colágeno amplamente consumido na medicina tradicional chinesa.

Da força de trabalho ao risco de desaparecimento

Introduzido no Brasil ainda no período colonial, o jumento foi essencial para o transporte e o trabalho agrícola em regiões semiáridas, graças à sua resistência e adaptação ao clima seco. Com o avanço da mecanização e a substituição por motocicletas e veículos motorizados, o uso tradicional do animal diminuiu drasticamente, contribuindo para o abandono e redução dos rebanhos.

Nos últimos anos, porém, o principal fator de pressão passou a ser o mercado internacional. A indústria do ejiao movimenta bilhões de dólares e exige milhões de peles anualmente para atender à demanda global, o que intensificou o abate em diversos países, incluindo o Brasil.

Entre 2018 e 2023, centenas de milhares de animais foram abatidos, em um ritmo considerado insustentável por especialistas, já que os jumentos possuem reprodução lenta e não são criados em larga escala comercial.

Ciência busca alternativas ao abate

Diante do cenário crítico, pesquisadores brasileiros passaram a desenvolver soluções tecnológicas capazes de reduzir a pressão sobre a espécie. Um dos projetos em estudo propõe produzir, em laboratório, compostos semelhantes ao colágeno extraído da pele dos jumentos, utilizando métodos já aplicados em alimentos e proteínas alternativas.

A expectativa é que, caso a tecnologia avance, produtos derivados possam ser fabricados sem a necessidade do sacrifício animal, criando uma alternativa economicamente viável e ambientalmente sustentável.

Impacto ambiental e social

Especialistas alertam que o desaparecimento do jumento não representa apenas uma perda cultural. O animal desempenha papel relevante no equilíbrio ecológico do semiárido e ainda é importante para pequenos produtores rurais, especialmente em áreas de difícil acesso.

Além disso, o jumento nordestino possui características genéticas únicas, adaptadas às condições extremas da região — patrimônio biológico que pode ser perdido definitivamente caso a tendência atual continue.

Mobilização internacional e futuro da espécie

A preocupação não é exclusiva do Brasil. Países africanos já adotaram medidas severas, como moratórias ao abate, após registrarem reduções drásticas em suas populações. O movimento reforça a necessidade de políticas públicas, incentivo à conservação e criação de novas cadeias produtivas sustentáveis.

Para pesquisadores e entidades envolvidas, o momento é decisivo: sem ações coordenadas entre ciência, legislação e mercado, o jumento — símbolo histórico da vida rural brasileira — pode desaparecer nas próximas décadas.

Fonte: Agro Estadão
Fotos: Reprodução/Pexels

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