Dr. Márcio Matheus Tolentino nos passa um pouco de seu conhecimento científico aplicado na criação, em especial na escolha de um potro

É verdade que você tem feito alguns estudos científicos sobre o Quarto de Milha, especificamente em cavalos de Três Tambores? Esse mundo científico pode interessar aos quartistas?

Dr. Márcio: É verdade. E a resposta à sua pergunta pode ser dividida em duas outras partes.

1 – Começo pelo interesse que estudos desse tipo possam despertar em nosso meio (e em seus leitores). Na minha convivência com os apaixonados pelo Quarto de Milha, encontro muita gente inteligente. São pessoas simples, mas com lances de sabedoria que me enriquecem muito. Sabedoria é diferente de erudição e conhecimento. Se tiver que escolher, fico com a sabedoria. Porque não oferecer a elas um pouco da visão científica… do método científico? Essas pessoas vão entender, sim, não podemos desvalorizá-las.

2 – A segunda parte da minha resposta é pessoal. Dizem que o ‘uso do cachimbo entorta a boca do fumante’. A vida toda trabalhei com a ciência, exercendo a medicina, dando aulas ou publicando artigos e livros. Não sei ver o mundo de maneira diferente, a não ser com os olhos da análise científica dos fatos. Minha boca é torta pelo uso desse cachimbo. Não pense que há orgulho nisso tudo: sou muito limitado em inúmeras outras áreas das atividades humanas.

E o que é o tal de método científico de ver as coisas?

Dr. Márcio: Respondo com mais história. Os velhos contam muitas histórias e não fujo à regra.

A humanidade conheceu três verdadeiras revoluções: A cognitiva (entre 70 a 30 mil anos atrás). Segundo os cientistas arqueólogos, neste período o ser humano passou a ter consciência do próprio eu e a construir a ‘realidade imaginária’. Os leões por exemplo deixaram de ser apenas bichos perigosos e passaram a ser imaginados como ‘espíritos’ da floresta. Os trovões passaram a ser vistos como entidades sobrenaturais. Até hoje os pensamentos mágicos habitam nossa mente.

A segunda revolução ocorreu mais ou menos há 15 mil anos. É a revolução agrícola. Com ela deixamos de caçar e catar frutos na floresta e passamos a cultivar alimentos, domesticar animais e vivermos em comunidade, dividindo o trabalho. Começamos a construir cidades. (O nome civilização, cidadão etc. vêm daí).

A terceira verdadeira revolução tem apenas 500 anos e marca o fim da idade média. É a revolução científica. As revoluções industriais, são crias dela. As revoluções políticas são crias da revolução agrícola. E as revoluções ou conflitos religiosos são crias da realidade imaginária.

Depois de divagarmos, vamos ao método científico. Seu primeiro princípio se baseia na dúvida. A revolução científica não foi uma revolução do conhecimento, foi acima de tudo uma revolução da ignorância. A grande descoberta que deu início à esta revolução foi a de descoberta de que os humanos não têm as respostas para suas perguntas mais importantes. É um método humilde ao aceitar ‘não sei responder isso ou aquilo’. Vou fazer um protocolo (ou desenhar estudo) e depois analisá-lo matematicamente.

Esta visão já foi utilizada em algum estudo? Houve alguma conclusão interessante?

Dr. Márcio: O primeiro estudo que fiz com base neste método foi para responder uma dúvida que me intrigava. Diziam alguns: ‘este potro é muito bom só que é tardio. Pode investir nele que vai virar’. Dizia eu: ‘Será? Tenho dúvidas’. Com que base posso prever o futuro no qual o potro será bom? Não seria só uma realidade imaginária, um desejo?

Pois bem, junto com um grupo de professores de estatística da USP, construímos um protocolo para tentar responder esta questão. Este grupo que já trabalhou comigo durante 30 anos na área médica, aceitou ajudar-me agora. Publicamente agradeço ao seu trabalho, feito com total desprendimento econômico.

AQUI VAI O TRABALHO:

Objetivo: estudar os finalistas do Potro do Futuro da ABQM na prova de Três Tambores e verificar se sua classificação é previsível.

Material: foram levantados os nomes e registros dos finalistas do PF ABQM dos últimos três anos e foram pesquisadas suas campanhas nas atas de provas dos eventos oficiais, desde sua estreia até sua classificação para a final do PF.

Tabulados os dados, foram excluídos os resultados de Test Horse, Jackpots e Tira-teimas, computando assim apenas os resultados oficiais, que contam pontos para o Registro de Mérito (RMT).

Resultados: estatisticamente é significativo que seis meses antes do PF, 83% dos finalistas correram provas oficiais em tempo inferior a 17s599. Ou seja: a análise matemática mostrou que o tempo para avaliação de um potro deve ser em torno de seis meses antes do PF e que até este período ele deve estar correndo provas oficiais de Três Tambores com uma marca de 17s599 ou menos, para ter 83% de chance de ser finalista.

Comentários: por definição, e como parte do próprio método estatístico, há exceções. Mas são exceções. Em apenas 17% não pudemos prever que seriam finalistas. Expressiva maioria já mostra resultados seis meses antes do evento final: Potro do Futuro da ABQM. Este estudo responde à pergunta proposta: Há cavalos tardios? Sim, mas são exceções.

Há outros trabalhos já concluídos ou em andamento?

Dr. Márcio: Sim. Avaliação da doma racional no desempenho do potro; Análise de cruzamentos; A verdade das qualidades e defeitos que muitos atribuem a determinados garanhões ou matrizes.

O que há de verdade nisso tudo? Recentemente mostrei alguns resultados ao nosso presidente da ABQM, o Cicinho, e a outros membros da diretoria, que muito interessados, estão estudando um formato para que nossa Associação acolha oficialmente um núcleo de estudos científicos. Que bom se a ideia frutificar.

Agradeço à SGP Sistema (obrigado, Marli) e ao Departamento de Esportes da ABQM pelo apoio que recebi na coleta dos dados. Obrigado também a Revista Tambor & Baliza (obrigado, Adriane), que permitiram em primeira mão a publicação de alguns dados.

Entrevista originalmente publicada na Tambor & Baliza – Julho/2018
Fonte: Editora Passos

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