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Susana Reinhardt fala da importância do cavalo em sua vida

Zootecnista, Superintendente da ABCCBretão, Técnica de registro e Juíza das raças Bretão e Percheron, Susana é ainda Cours Designer e juíza de provas de Atrelagem pela CBH

Susana Reinhardt, 53, é natural de Salvador/BA, porém fixou residência em Amparo/SP. Atua hoje no meio com Assessoria Equestre a entidades, criadores e eventos. Seus cavalos ficam alojados em Centro Hípico. Ela nao tem um haras próprio, mas nunca deixou de criar.

Sempre manteve seus animais, com destaque para Parati HSJE, Baronne HSJE, Une de Mai, Esperance Von Gold, Desirée Von Gold, Sultan Von Gold, Maximus Von Gold . E agora, a mais novinha depois de oito anos sem ter potros, Blume Von Gold. 

De 1997 a 2017, Suasana foi 17 vezes para França a fim de importar animais para o Brasil. Em sua conta, o número chegou a cerca de 50, entre Bretões e Percherons, a pedido de sete criadores.

Zootecnista, Susana é formada desde 1988, tendo cursado a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ-USP). Superintendente do Serviço de Registro da ABCCBretão, ela ainda atua como Técnica de registro e Juíza das raças Bretão e Percheron, Cours Designer e juíza de Provas de Atrelagem pela CBH.

Conversamos com ela, confira!

Susana Reinhardt fala da importância do cavalo em sua vida Zootecnista , Superintendente da ABCCBretão, Técnica de registro e juíza das raças Bretão e Percheron
Primeira potra, Blume von Gold, nome dado pelo avô alemão. Siginifica Flor de Ouro, filha de Papillon x Bacarat (Hannoverian). Von Gold acabou virando o sufixo de seu criatório

Como tudo começou

“Minha relação com cavalos é um caso raro, pois na minha infância e adolescência morava em apartamento. Nas férias escolares ia para praia, não tinha contato nenhum com campo e cavalos. Mas eu tinha uma paixão por animais e natureza desde pequena. Nos passeios e viagens que fazia com meus pais, mesmo não tendo animais ou parentes com fazendas/sítios, só tive um canário antes dos 15 anos. Depois uma cadela cocker spaniel que ganhei de presente de 15 anos, de tanto que chorei implorando para os meus pais.

No final da adolescência comecei a  frequentar a Expande, no recinto da Água Funda, em São Paulo, e lá conheci de perto os cavalos. Várias espécies e um cavalo me marcou, com suas longas crinas negras. Muito forte, pêlo brilhando e depois vim a saber que era o renomado Campolina Frevo de Sans Souci, que não saiu de meus pensamentos.

E, ao ter que escolher no vestibular o que faria como profissão, que englobasse os cavalos, cachorros e coelhos, espécies que mais gostava, decidi optar pela Zootecnia. Visto que, acertando no manejo e nos cuidados preventivos poderia evitar de ficarem doentes ou morrerem por acidentes”.

Susana Reinhardt fala da importância do cavalo em sua vida Zootecnista , Superintendente da ABCCBretão, Técnica de registro e juíza das raças Bretão e Percheron
Papillon, primeira égua PSI

Profissão

“Aos 17 anos entrei na Zootecnia da USP, em Pirassununga/SP, hoje FZEA. Morei por quatro anos no alojamento dos estudantes e o campus ficava em um fazenda de mil alqueires, ia e voltava de bike para as aulas. Lá tive a certeza que havia feito a escolha certa, desde o primeiro dia só queria saber dos cavalos. Uma vez que eu não sabia nada, não podia perder tempo, e fui logo conhecer o Departamento de Equideocultura.

Como não tinha dinheiro para voltar todo fim de semana para casa dos meus pais, aproveitava para fazer trabalhos no setor. Dessa forma, limpava cocheira, escovava, colocava capim/ração, dava banho nos cavalos que ficavam nas baias, limpava os cascos. Depois de um tempo já domava potros no cabresto e fui me apaixonando cada vez mais através do contato diário com eles. Realizei lá mesmo estágios e monitorias remuneradas”.

Blume aos 3 anos e meio

Bretão

“Na faculdade foi também onde conheci uma raça especial, paixão à primeira vista, e que marcaria para sempre minha vida, a raça Bretã. Havia um garanhão castanho, muito forte e alto, de nome Flamengo. Também tinham várias éguas mestiças filhas dele e um cavalo castrado 15/16 bretão/pampa, que trabalhavam na carroça e na sela.

O cavalo castrado chamava-se Biro-Biro e trabalhava incansavelmente o dia inteiro na carroça levando alimento para todas espécies. Sempre disposto e em um estado físico de dar inveja, comendo rolão e napier. Então, pensei: ‘Como essa raça não é conhecida? Nem tão utilizada em um país que precisa de animais de trabalho e rústicos em sua alimentação e lida?’. Para mim reunia tudo: docilidade, vontade, energia, rusticidade e força, além de uma fidelidade extrema ao condutor ou cavaleiro.

Fui direcionando os estágios e estudos onde tivessem as raças de tração. Não foi fácil, por ser mulher, e não terem muitos lugares, mas sempre fui muito aplicada nos estudos e nos meus estágios e monitorias. Com isso, antes de me formar, já tinha convite para trabalhar com as raças que queria, em um projeto novo, a Associação Brasileira de Criadores do Cavalo de Tração.

Na época morei sozinha com minhas cachorras, em Colina/SP, e tinha uma potra que me acompanhava. Onde eu ia, arrumava um lugar próximo para deixá-la. Era uma mestiça Hannoveriano e PSI, minha primeira cria, que nasceu na faculdade. A batizei Blume Von Gold e ficou 19 anos comigo”.

Blume aos 18 meses, em Colina/SP (1989)

Carreira

“Eu estava feliz ao lado de meus animais e trabalhando com o que gostava. Infelizmente essa Associação não conseguiu a homologação do Ministério da Agricultura na época. No final de 1990 teve que fechar. Então fui trabalhar em São Paulo na Associação do Appaloosa, que fiquei até 1992. Como ia me casar e mudar para o interior, acabei saindo. Mas minha outra realização foi quando consegui ser credenciada como inspetora na ABCCBretão em 1990.

Na época, a ABCCBretão tinha sede em Curitiba. Também me credenciei como inspetora no Percheron, pelo Herd Book Collares, de Pelotas/RS, em 1994. Sendo inspetora iria ver e acompanhar potros e adultos destas raças apaixonantes e admiráveis. Meu sonho concretizando-se! Hoje sou também Gerente Administrativa da ABCCB, juíza e Superintendente do Stud Book do Bretão, e juíza do Percheron”.

Seleção de animais na França para importação

Momentos marcantes

“Outros momentos marcantes, além do nascimento dos meus filhos Camilla (1995) e Léo (1999) foram quando a ABCCB veio para São Paulo, em 1995. A Associação funcionava na minha casa. Logo depois,  quando fui pela primeira vez à França (1997), percebi que ainda faltava melhorar muito a raça aqui no Brasil, principalmente em termos de homogeneidade do padrão.

A viagem teve a finalidade de ajudar na seleção de animais para um criador e eu voltei maravilhada e mais apaixonada ainda pelo Bretão. Vi a qualidade dos animais lá. Voltei em outra oportunidade, quando fiquei três semanas na região da Bretagne (1998), conhecendo todas utilizações da raça na prática. Consegui informações importantes até hoje e que facilitaram e facilitam outras importações.

Tenho alegria em falar que fiz parte de todas,  no selecionamento e escolha dos animais para os criadores que importaram, de 1997 a 2017. E espero poder ajudar mais criadores a trazer muito bons exemplares para o Brasil”.

Trabalho com a raça Percheron

Mercado Nacional

“Constatei que depois de altos e baixos na equideocultura nacional, crises no país e no exterior, câmbios dispararam, inviabilizando as importações praticamente. Vi que precisávamos investir mais no plantel nacional e termos novas alternativas de funcionalidade e lazer.

O que começou a aparecer quando das importações de sêmen congelado de garanhões comprovados na França. Para mostrar mais a funcionalidade do Bretão, a ideia era proporcionar provas para que os criadores. Além de ter criar, que começassem a se divertir em competições.

Acompanhando provas na França desde 1998, quando ajudei a escolher e importar a primeira parelha de bretões domada de Atrelagem (2007). Sabia que poderia ser fácil implantar no Brasil a modalidade esportiva, ao assistir uma final do concurso completo de Atrelagem pela Federação de Hipismo Francesa para raças de Tração Pesada.

O problema maior seriam os carros de algumas competições que não existiam ainda no Brasil. Mas já tínhamos criatórios de Lusitano, Árabe,  e o de Bretão que haviam importado carros, carruagens mais modernas. já com freios a disco. Utilizavam seus animais para desfiles, apresentações, além dos carros habituais brasileiros (charretes , troles, etc. )”.

Atrelagem

Atrelagem

“Voltei em 2007 para o Brasil com uma das provas de Atrelagem na cabeça, a de maneabilidade com cones. Seria mais fácil de implantar por aqui por ter material simples. Após o falecimento de uma grande criadora da raça Bretã, que amava Atrelagem, tirei a ideia da cabeça e coloquei no papel. Desenvolvi as regras e adaptei, dando o nome da prova de Copa Marilu de Atrelagem, em nome a essa criadora.

Convidei, com organização pela ABCCBretão, além dos criatórios de Bretão, os de Lusitano, Árabe, Mangalarga. Exemplares de pessoas que sabia que usavam para Atrelagem em charrete, trole ou carros importados da Alemanha, Polônia, França ou fabricados no Brasil. O importante era começar e nos divertir. Eu, que fui atleta por mais de oito anos, queria ganhar. Mas, o mais importante era participar, competir e fazer amizades com os adversários. E, principalmente, se divertir!

Nessa prova de maneabilidade, de 2007, tivemos 42 conjuntos participando. E todos se divertiram tanto que pediram um campeonato em 2008. Conseguimos realizar três provas em cidades diferentes. Em seguida, em 2009 também. Mas como era difícil fazer as provas pelos custos altos, já estávamos resolvendo fazer a última etapa, quando veio o convite de pessoas ligadas ao Hipismo, a CBH e FPH, para conseguirmos oficializar a modalidade.

Ao lado de criadores, em 1997

CBH

A CBH reconheceu a Atrelagem como esporte e assim participei também da tradução dos regulamentos da FEI e de federações de Portugal e França. Fizemos, portanto, adaptações as normas e equipamentos no Brasil. Em 2010 a CBH reconheceu a modalidade e começamos as provas oficiais. Acabei fazendo vários cursos de juiza da modalidade e também o de Cours Designer, visto que já montava as pistas e percursos nas provas do Bretão. E também ajudava a julgar a de maneabilidade.

Vieram as provas de adestramento e a de maratona, que formavam o CCA – Concurso Completo de Atrelagem, cujas provas se desenrolam todos anos desde então. Temos o ranking CBH e, paralelamente, ainda realizamos provas no Bretão, como tipo gincana também e mais nas Exposições Nacionais”.

Susana Reinhardt fala da importância do cavalo em sua vida Zootecnista , Superintendente da ABCCBretão, Técnica de registro e juíza das raças Bretão e Percheron
Congresso Mundial do Percheron 2001 – Haras du Pin – Normandie/França

Gratidão

“Hoje me considero profissional do cavalo, mas em constante aprendizado. Sou apaixonada pela raça Bretã, uma paixão que virou amor incondicional. Acabo sacrificando muitas coisas pessoais para poder manter a raça sempre sendo divulgada e fomentada. E com profissionalismo e seriedade, orientando e trabalhando para os criadores.

Mas, acima de tudo, sou apaixonada por cavalos e o que cada raça representa e é importante na vida de cada pessoa que se dedica a criar cavalos. Isso me fascina e me dá prazer em continuar a trabalhar com eles e por eles.

A cada dia surgem coisas novas a relatar, a estudar, aperfeiçoar. Só sei que a paixão por eles nos leva a trabalhar com prazer e a lutar por eles para terem donos que os respeitem e os criem de acordo. E que estes o façam por prazer, não por vaidade e nem por esperar retorno financeiro.

O sucesso de uma criação de cavalos, sobretudo, está  na paixão que o criador tem pela raça escolhida e em sua dedicação em dar o melhor em qualidade, e o suficiente para seu cavalo, o resto será consequência disso.”

Por Luciana Omena
Crédito das fotos: Arquivo Pessoal
Na foto de chamada: Susana com produtos de sua criação na fase atual, entre elas, Blume II Von Gold,potrinha Bretã que nasceu no final de 2019 – Crédito da foto: Camilla  Reinhardt Cintra

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