Sempre fico fascinada com histórias de famílias que vivem do cavalo e passam sua cultura e valores adiante.

A experiência de cada um é de valor inestimável e é preciso estarmos abertos para aprender, absorver tudo que for possível.

Uma época eu estava empenhada em aprender a domar e treinar potros e lia tudo e assistia tudo da Sarah Dawson, uma profissional que admiro muito há alguns anos. Sarah é filha de Richard Winters, famoso por suas clínicas de horsemanship, e também treinador de Working Cow Horse. Além de ter tido um grande mentor desde muito cedo na sua vida, Sarah trabalhou com grandes profissionais do cow horse como Jon Roeser, Sandy Collier, Doug Williamson, Carol Rose e Bill Smith.

Nesse período, ela teve a chance de se aprimorar como apresentadora e, principalmente, de consolidar sua sólida reputação de iniciar potros. Como todos sabem, Sarah acabou de ganhar o Mundial da AQHA Jr com uma nota recorde. (Veja a prova)

Uma de suas entrevistas me marcou muito, em que ela disse: “É tão gratificante para mim ver o progresso de um cavalo desde um imaturo potro de dois anos até ele competir no Snafle Bit Futurity 18 meses depois. Envolve tanta coisa para treinar esses cavalos, mas eu acredito firmemente que O QUE ELES APRENDEM PRIMEIRO, ELES APRENDEM MELHOR, então dar aos meus cavalos uma base sólida é muito importante para mim.” (Confira entrevista). Isso grudou na minha cabeça, e não tem um dia que eu monto e não penso nisso.

Posso não ter o dom da doma, mas eu indiscutivelmente amo os meus cavalos, e todos os cavalos aos quais meu pai se dedica todos os dias em treinar. Adoro observar, dar palpite, mesmo que eu mesma ainda não consiga fazer sozinha.

Reflito muito sobre as relações que envolvem treinar um cavalo: com seus funcionários, com seus fornecedores, com seus clientes, com seus colegas de profissão. Resquício de quem já viveu nas entranhas de um ambiente corporativo de altíssima exigência e pressão.

O cavalo é um hobby, e um hobby caro. Caro não só para quem consome o serviço, mas que tem poder aquisitivo considerável, mas caro também para o prestador de serviço, que mesmo sem ter o mesmo poder aquisitivo, precisa investir muito para oferecer estrutura e qualidade de serviço à altura.

Agora caro mesmo, é ter firmeza na hora de precificar serviços de treinamento. É claro que existem muitas circunstâncias que cada treinador vai levar em consideração na hora de dar seu preço: o quanto ele quer certo cavalo ou certo cliente, o quanto ele está disposto a deixar de ganhar para baixar o preço, o quanto ele está disposto a perder por não baixar o preço.

Fato é que treinar cavalo, antes de mais nada, é o quanto vale a sua hora de sela. Assim como quanto vale a hora de um advogado, a hora de uma consulta médica, a hora de uma aula de inglês. Os custos de manutenção são os mesmos, mas variam de acordo com a qualidade dos produtos e da estrutura: da ração, do feno, da alfafa, da higiene das cocheiras, da organização da equipe, das condições da pista, do bem estar oferecido ao animal e seu proprietário.

Cavalo não é atacado. Quanto mais cavalos, maior o custo, pois cavalo precisa de mão de obra para manusear, para escovar, selar, ligar, rodar, domar, dar banho, curar e, principalmente, MONTAR, que é pressuposto do treinamento.

E assim, volto na filosofia da Sarah. Os cavalos aprendem melhor o que eles aprendem primeiro. Essa é a essência de um bom treinamento. Começar no tempo certo, para não pular etapas, para ensinar certo desde o começo, para ensinar bem. E com a sequência de trabalho, consistente, ininterrupto ao longo de quase dois anos, teremos um cavalo sólido, bem treinado. Ainda que não seja um craque, será obediente e treinado. E como é lindo de ver o resultado disso. Como é, realmente, gratificante, como disse a Sarah. E aí você para e pensa: saiu barato.

Agora caro mesmo são as horas de sela necessárias para colocar no eixo um cavalo que não teve uma base bem feita. E essa hora de sela, além de ser sofrida, é mais demorada ainda, pois é preciso, na maioria das vezes, ser feita na metade do tempo que o treinamento regular demanda. Risco de acidente do cavalo e cavaleiro, risco de lesão, desgaste físico e emocional, entre outros inúmeros obstáculos.

Tenho 30 anos, nasci e cresci nesse meio, e ainda não vi tudo, certeza que nunca verei. Mas tive a sorte de ter já ter visto o que vi, de ter convivido com pessoas que admiro, de ter passado pelos lugares que passei. Tudo isso graças ao cavalo, às horas de sela que meu pai honradamente colocou nos últimos 30 anos em todos os cavalos que ele treinou.

Mas se vale alguma coisa, para quem pretende ter seu cavalo em treinamento, lembre-se de que é MUITO importante fazê-lo no tempo certo, com consciência dos resultados que você terá (ou deixará de ter) por essa escolha. E para quem presta esse serviço, valorize seu trabalho, acima de tudo. A sua hora de sela é fruto da sua experiência e será sempre a sua bagagem, e é dela que vem o sustento da sua vida e o respeito que você conquista no mercado e junto às pessoas com quem você se relaciona.

Por Karoline Rodrigues
www.plusoneandahalf.com

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