Mangalarga Marchador

Top Marchador: a aurora da história da raça

Confira a terceira reportagem especial da Revista Top Marchador em parceria com o portal Cavalus sobre a história do surgimento do Mangalarga Marchador

Antes de mais nada, o Marchador, antes de se transformar em Mangalarga, era um desbravador dos sertões. E assim foi desde o início da sua história. Afinal, começou no ciclo do ouro, do sangue e das lutas armadas pela posse das riquezas escondidas no solo de Minas Gerais.

Na Guerra dos Emboabas, quando paulistas e portugueses cruzaram armas pelo domínio das minas no interior, um bom cavalo Marchador valia uma libra de ouro apurado. Tal valor era pago em função do conforto no andamento, velocidade de galope e confiança no animal.

Depois do barulho da guerra, a terra disputada começou a devolver, com riquezas outras, a quem nela trabalhasse, sem que lhe adubasse com sangue. Com a força do café, arroz, milho, feijão, cana-de-açúcar, bovinos e equinos, Minas, sobretudo, começou a crescer.

Assim, o cavalo Marchador tornou-se ainda mais indispensável na abertura dessas terras montanhosas, sem estradas, pontes, ferrovias. Haja vista, ainda, que não havia nenhum rio navegável para ligar a nova província ao litoral.

Companheiro inseparável

Inegavelmente, o Marchador era o companheiro inseparável do fazendeiro no trabalho no campo e nas viagens pelo interior. Isso, principalmente, quando tinha negócios a tratar no mercado da comarca, em Ouro Preto, antiga Vila Rica, no porto, ou na corte do Príncipe Regente, na cidade do Rio de Janeiro. Nesta época, início do século XIX, começou no Sul de Minas a seleção da raça.

Pela segurança do andamento, o Marchador era, certamente, o cavalo predileto na fazenda para a lida do gado e nos pastos altos das serras que sempre caracterizam Minas Gerais. Nos dias santos, com sela, cabeçada e rédeas de níquel ou prata, era o cavalo escolhido para acompanhar a procissão em homenagem à padroeira da cidade.

Aos domingos, os parentes e os amigos reuniam-se cedo no terreiro, com o Mangalarga Marchador e o farejador paulista, para mais uma caçada ao veado campeiro. Aliás, esporte preferido por essa gente das Geraes.

Achado o rastro, avistada a caça, começava o tropel pelas chapadas, cruzando encostas das grotas, cortando cristas das serras, pelas veredas dos vales, através dos capões das matas, saltando pau, pedra e riacho. Mangalarga Marchador e veado campeiro – num duelo de agilidade, velocidade e resistência animal.

Vencida a caça, voltavam os cavaleiros, de rédeas frouxas e marchas suaves, os longos quilômetros percorridos a galope. Mal sabiam eles, cavalos e cavaleiros perdidos no longínquo sertão mineiro, a revolução que o andamento marchado iria causar.

Breve História do Cavalo Mangalarga Marchador

A principio, os primeiros cavalos que chegaram em terras do Sul de Minas não eram, certamente, marchadores. Quando a região foi desbravada para a agricultura e a pecuária, no século 18, depois da dramática fase da mineração, o homem das Geraes não estava à procura de um cavalo cômodo de sela.

Dessa forma, passado o ‘polígono do ouro e do sangue’ o faiscador, cansado de esperar pelo acaso, guardou a bateia e entregou-se ao cultivo da terra. E precisava, para esta nova empreitada, de um companheiro de trabalho dócil, forte e, sobretudo, disposto a carregar o fardo da abertura de um ‘novo mundo’ para a lavoura e o pasto.

Assim, acumulou-se na região uma cavalhada rústica de serviço. Os machos eram utilizados para o trabalho e as fêmeas para produzir burros. Inevitavelmente, em razão da sua origem ibérica, havia entre eles, como numa bateia de cascalho aurífero, alguns granetes de ouro, um ou outro animal marchador.

E a Capitania das Minas Gerais, fechada em suas montanhas, foi prosperando. Como produtora agropecuária, tornou-se, certamente, uma das bases da economia rural brasileira.

Conheça a história do surgimento do cavalo Mangalarga Marchador – Foto: Divulgação/Top Marchador

Único meio de transporte viável

Mas, apesar da sua crescente opulência, o povo sul-mineiro era isolado, sem vias naturais de acesso. Não havia rio navegável para servir de ligação entre o interior e as cidades do litoral. Nenhuma ferrovia que o ligasse à capital, na época Ouro Preto, ou à sede do governo imperial, o Rio de Janeiro.

O único meio de transporte viável, capaz de vencer as precárias estradas das serras, surradas pelas chuvas e desfiguradas pelos deslizamentos, era a tropa de burros e cavalos. É neste contexto histórico que podemos começar a vislumbrar a preferência dos habitantes destas terras por um cavalo forte, ágil e marchador.

Imagine o sucesso de um bom cavalo de marcha para o ‘novo’ homem das Geraes que, naquele momento, fazendeiro abastado, dependia exclusivamente do cavalo para se locomover dentro e fora da região serrana. 

Só dispondo do lombo do burro ou do cavalo como meio de transporte, não é difícil imaginar o fazendeiro rico investindo uma fortuna por um bom cavalo marchador. Portanto, a preocupação era conseguir cavalos prontos. Acima de tudo, bons de sela, cômodos e ligeiros.

Nesta época, José Frausino adquiriu um potro, chamado Fortuna, em alusão ao alto preço pago por ele. Há versões que nos contam que o preço pago pelo cavalo teria sido de 150$000. Outros informam que havia uma troca por 40 novilhas (R. Bortoni). Ao preço de 10 mil dólares, em 1828, não é por acaso o primeiro marchador a ser mencionado na história da raça chamar-se Fortuna.

O Mangalarga Marchador surgiu no Sul de Minas como uma necessidade do patrão. Formou-se, como raça, pela mão dos patriarcas de uma sociedade essencialmente equestre. Informação importante para a compreensão do sucesso do cavalo que se tornou a primeira raça brasileira verdadeiramente nacional.

O Cavalo Alter Real

Não se faz raça sem raça. Emílio Solanet atribuiu a origem do Mangalarga Marchador ao Andaluz. Já, D.B. Ribeiro, A. Cabrera e Guilherme Hermsdorff apresentam o cavalo Alter Real como básico na formação da raça.

Entretanto, estas posições não são hipologicamente conflitantes, pois o Alter Real é de origem Andaluza. Em minhas pesquisas étnicas realizadas na Coudelaria Real em Alter do Chão foi possível comprovar a ascendência genética do MM com o Alter Real, como divulguei no livro Os Cavalos da Vila Quixote.

No início do século 19, o Mangalarga Marchador era feio se comparado às raças tradicionais do Velho Mundo – Andaluz, Lusitano, Puro Sangue Inglês e Árabe.

De cabeça um tanto pesada, com resquício de subconvexidade, pescoço curto e de inserção baixa, garupa um tanto inclinada (R. Bortoni).

E o Mangalarga Marchador, feio mas útil, como o sapo nos contos de fadas, ficou a esperar o seu príncipe encantado para completar a sua metamorfose e transformar-se num belo cavalo de raça.

O príncipe chegou, um dia, melhor do que a encomenda, na forma do Imperador D. Pedro I. Conta a tradição que um prestigiado fazendeiro do Sul de Minas, Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, recebeu do Imperador do Brasil um garanhão da raça Alter Real.

O cruzamento deste cavalo com éguas selecionadas em sua Fazenda Campo Alegre, deu início à raça Mangalarga Marchador (A História do Cavalo Mangalarga Marchador, ABCCMM).

A história de que D. Pedro presenteara o Barão de Alfenas com um garanhão Alter Real contém uma semente da verdade: a fusão dos primeiros animais marchadores com sangue Alter, por meio da Coudelaria Cachoeira do Campo, fundada por D. João VI, na Comarca de Cachoeira do Campo em Minas Gerais, realmente aconteceu.

História oficial

Vejamos o que diz a história oficial: ‘Por carta régia de 29 de julho de 1819, manda-se criar em Cachoeira do Campo, próximo a Ouro Preto, nos pastos do antigo quartel do Regimento de Dragões; o ‘Estabelecimento das Manadas Reais da Capitania de Minas’ – a Coudelaria Real de Cachoeira do Campo, destinada à seleção e melhoramento das raças cavalares.

Dos cruzamentos das raças importadas valem-se muito os criadores mineiros. Sobretudo com aqueles estabelecidos na Comarca do Rio das Mortes, centro criador de alto nível desta colônia.

A iniciativa de constituição de um campo de experimentação e melhoramento do cavalo encontra, em Minas Gerais, na primeira metade do século 19, fortes adeptos entre os criadores e proprietários sul-mineiros. A experiência da Coudelaria Cachoeira do Campo é reveladora e de grande expressão na história do Mangalarga Marchador.

É natural que D. João VI tenha se preocupado em fundar uma coudelaria para o melhoramento de cavalos no Brasil. Luccock, viajante inglês, descreve com horror a escolta que, de início, acompanhava em seus passeios a traquitana de D. João, que era composta de soldados montados em cavalos sem ferraduras, muitos mancos, cegos de um olho ou chaguentos.

Afinal, a Casa Ducal de Bragança, agora sediada no Rio de Janeiro, era a única corte europeia nas Américas e precisava de cavalos de qualidade para se fazer representar com dignidade ao povo e aos embaixadores e emissários estrangeiros que visitavam o Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves.

Origem da marcha

Mas a raça Alter Real não trouxe a marcha para o Mangalarga Marchador, nem a sua fusão com as éguas nativas resultou na marcha. O cavalo marchador existia na Europa à época da descoberta das Américas e chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses.

No Sul de Minas já era objetivo de seleção dos fazendeiros, antes da chegada de D. João VI ao Brasil. O sangue Alter contribuiu, com as suas notáveis qualidades de conformação: o diagrama próximo do Andaluz, cabeça refinada com olhos bem separados, pescoço levemente arqueado, espádua longa, grande profundidade torácica, garupa musculosa e pernas particularmente fortes e de boa ossatura, além de uma inteligência e vivacidade características dos grandes cavalos de sela.

O Alter Real representou a melhora da conformação necessária para a transformação do cavalo mestiço em cavalo de raça. A raça Alter Real deu ao Mangalarga Marchador moderno o toque de nobreza para que a raça fosse digna do dignitário e abriu-lhe a porta para a corte imperial do Rio de Janeiro.

Alter Real – Foto: Divulgação/Top Marchador

A Coudelaria Real de Alter do Chão

A seleção do cavalo Alter Real em Portugal foi iniciada em 1748, por ordem régia de D. João V, em Vila Portel, na província portuguesa do Alentejo. O criatório foi transferido para Alter do Chão, em Porto Alegre, no ano de 1756. 

Dessa forma, a criação foi iniciada com 300 éguas Andaluzes, selecionadas em Jerez de La Frontera, o centro de reprodução equina mais importante da Espanha.

A Coudelaria Real de Alter do Chão se tornou tão bem-sucedida que passou a fornecer seus animais para o Manège Real de Lisboa, para apresentações de Alta Escola, semelhantes às da Escola Espanhola de Viena.

A raça foi também incorporada à corte inglesa. Assim, o Alter Real é hoje uma das raças utilizadas pela rainha Elizabeth II, nas cerimônias oficiais da Grã-Bretanha. Como indica o nome, o Alter Real foi desenvolvido para oferecer à realeza, numa moldura heroica e em espírito nobre e elegante, o cavalo perfeito para a refinada arte da equitação clássica.

Mas, no início do século 19, houve um desastre no glorioso percurso da raça. Na crise de 1807, que terminou com a invasão de Portugal por Napoleão, a Coudelaria Real de Alter do Chão foi saqueada pelas tropas de Napoleão e muitos dos animais foram roubados ou desapareceram.

Chegada de reprodutores ao Brasil

Mas o Príncipe Real, D. João VI, ao prover a segurança e a preservação da Família Real, como definiu o Marquês de Pombal, mandou vir para o Brasil, entre os seus mais valiosos tesouros, suas alfaias, baixelas, quadros, joias e biblioteca, alguns exemplares dos principais reprodutores e reprodutrizes da raça.

Bom cavaleiro e entusiasmado caçador, é certo que o príncipe não entregou de mão beijada ao ‘Corso’ todos os seus preciosos animais. A exemplo da raça Lipizzaner, que se refugiou na Hungria em 1805, D. João VI colocou a salvo, no Brasil, a sua família, a sua honra e alguns dos seus magníficos cavalos e éguas Alter Real.

Em 1834, a Coudelaria Real de Alter do Chão acabou sendo desativada. Mas, no final do século, a rainha Maria Pia reorganizou o criatório, introduzindo sangue inglês, normando, hanoveriano e, principalmente, árabe. Essas fusões foram malsucedidas e a raça praticamente arruinada. Foram preservados desta degradação genética os animais vindos para o Brasil, com a transferência da corte para o Rio de Janeiro em 1808.

Em 1932, o Ministério da Economia do regime republicano de Portugal, reativou a Coudelaria e reintroduziu o sangue Andaluz original. O resultado foi o ressurgimento do cavalo Alter Real de alta qualidade e hoje mundialmente prestigiado como um atleta particularmente vocacionado para as performances equestres. Quando visitei a Coudelaria, em 1998, durante os festejos de seus 250 anos, o governo português havia feito grandes investimentos na área zootécnica e na recuperação do centenário estabelecimento.

Alter Real – ficha zootécnica

Altura: entre 1,50m e 1,60m; pelagem: predominantemente castanha; conformação: a impressão geral é a do cavalo Andaluz. A cabeça é nobre e refinada, com olhos espaçados, perfil reto ou ligeiramente convexo; o pescoço arqueado, boa angulação de espádua, o corpo curto e o tórax profundo, a garupa musculosa e forte, cauda e crina abundante, pernas sólidas e com boa ossatura e tendões fortes. A raça é muito inteligente, corajosa e de grande agilidade. O temperamento é vivaz, a índole boa. São animais ótimos para qualquer disciplina equestre, mas são especialmente conhecidos como cavalos de Alta Escola.

Mangalarga Marchador no século 19

MM no Século 19 – o Apogeu

Estamos chegando à última década do século 19, o apogeu do cavalo e da cultura equestre em todo o mundo civilizado. O general L’Hotte, o melhor equitador da França, é écuyer-en-chef, mestre equitador, da Escola de Cavalaria de Saumur; o capitão Caprilli, o principal modernizador da equitação clássica, desenvolve o ‘assento adiantado’, na escola de Cavalaria de Pinnerollo, na Itália; o ‘venerável’ imperador Franz Joseph promove reprises equestres inesquecíveis na Escola Espanhola de Viena.

A Inglaterra, com a morte da rainha Vitória e a ascensão de Eduardo VII, entra numa roda-viva de pompa e circunstância equestre, com grandes desfiles de cavalaria nas cerimônias de coroação do seu monarca.

E, enquanto isso, na nova República do Brasil, o generalíssimo Manuel Deodoro da Fonseca governa. O cavalo marchador, já conhecido com o nome Mangalarga, tem grande prestígio, principalmente, no eixo econômico Rio/Minas.

Período efervescente este, do final do século. A política café-com-leite domina o cenário político nacional; Antônio Conselheiro prega nos sertões; Machado de Assis escreve um dos seus grandes contos, Quincas Borba, e assume como o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

Ruy Barbosa redige a 1ª Constituição da República; o genial Santos Dumont experimenta, em Paris, o seu ‘mais pesado do que o ar’, o Dumont 1 (precursor do famoso “14 Bis”) e cai de uma altura de 400 metros, mas sobrevive; Vital Brasil inventa um soro contra o veneno de cobra; Floriano Peixoto assume o governo, sufoca a Revolta da Armada, salva a Nova República e ganha do povo o cognome Marechal de Ferro.

Nestes dias também nasce na Fazenda Campo Lindo e chega na Fazenda Angahy, no Sul de Minas, dois reprodutores que representam a belle époque da raça Mangalarga Marchador: Bellini JB e Caxias I. E o cavalo Mangalarga Marchador é o Learjet do jet set da época, sendo muito admirado por onde passa, com sua postura altiva e seu andamento ‘aveludado’.

Fim de uma era

Mas, ainda na aurora do novo século, a lavoura e a pecuária começam a não ser mais a fonte de preocupações maiores do Estado, como já havia deixado de ser a mineração do ouro e das pedras preciosas no início do século anterior.

Quando Ruy Barbosa chama Juiz de Fora entusiasticamente de ‘Manchester Brasileira’, está decretado o fim de uma era. As estradas de ferro estão finalmente cruzando as Geraes. A nova capital do agora Estado de Minas, chamada de Belo Horizonte, está diretamente ligada ao Rio de Janeiro por via férrea.

Minas Gerais ingressa na era industrial e, com a fuga do capital e dos recursos humanos do interior para os grandes centros urbanos do Estado, começa o empobrecimento da sua economia rural.

Depois de algumas dezenas de anos do novo século, só restaram, como testemunhos do vigoroso ciclo agropecuário mineiro e fluminense, os solares e as casas-grandes decadentes, os terreiros e as tulhas de café em escombros e as palmeiras imperiais respeitosamente guardando as entradas das fazendas, últimos vestígios dos barões e dignitários extintos como os dinossauros da face da terra.

Sobreviveu, porém, nas montanhas do Sul do Estado, uma testemunha viva: o Mangalarga Marchador. Patrimônio genético que teria ainda, um dia, mais um importante papel a exercer no renascimento da economia rural do Estado de Minas Gerais, cinquenta anos depois.

Museu do Mangalarga Marchador Foto: Divulgação/Eugenio Sávio

Alfenas, o Barão

Desde o início do século 18, existem notícias esporádicas de cavalos marchadores em Minas Gerais. Mas de acordo com a história da raça, o Mangalarga Marchador só começa a ganhar nomes, datas e endereços no final daquele século.

A principio, o primeiro nome a aparecer foi o de Gabriel Francisco Junqueira. A primeira data foi a de seu nascimento, em 1782, e o primeiro endereço foi o da Fazenda Campo Alegre, distrito da Encruzilhada, hoje município de Cruzília, no Sul de Minas, onde Gabriel nasceu.

Gabriel Francisco Junqueira (1782-1868) é filho de João Francisco Junqueira (O Patriarca) que, vindo de Portugal, se instala como fazendeiro na Fazenda Campo Alegre, na Encruzilhada, então freguesia de Carrancas, região da Comarca do Rio das Mortes.

Em 1769, por concessão do governador da Capitania de Minas, João Francisco recebe carta de sesmaria da Fazenda Campo Alegre, fazenda que, pelas mãos do seu filho Gabriel, foi o centro de formação do Mangalarga Marchador.

A vida de Gabriel foi dedicada à fazenda, à política e ao Mangalarga Marchador. Na política, Gabriel foi comendador, vereador na Câmara Municipal da Villa de Santa Maria de Baependi e deputado por Minas Gerais. Liderou em 1842, aos 60 anos de idade, uma rebelião de liberais para livrar o regime da coação da oligarquia conservadora, a qual atraiçoava, em seu interesse, o país e o trono.

Coluna Junqueira

Na província de Minas, o movimento conquistou adeptos que acabaram formando a ‘coluna Junqueira’, com a participação de mais de mil homens, entre eles, grandes fazendeiros e comerciantes. Apesar das vitórias obtidas, o avanço do movimento é comprometido pelos erros e vacilações dos liberais.

Num processo inconsequente de marchas e contramarchas, os insurgentes terminam por ver desgastados seus recursos, cedendo, por fim, à reação governista. Ou seja, a ‘coluna Junqueira’ se rende na Villa de Baependi, é desbaratada e seus líderes presos.

Mas Gabriel, numa demonstração de grande habilidade política, dote natural de seus conterrâneos mineiros, é anistiado e, ainda, agraciado com o título de Barão de Alfenas, em 1866, seis anos depois.

Como criador de cavalos, o Barão de Alfenas se utilizou grandemente dos reprodutores cedidos pela Coudelaria Cachoeira do Campo. Tinha prestígio político junto à corte e isso lhe garantia acesso ao que de melhor havia no centro de melhoramento equino de Cachoeira do Campo. Em contrapartida, cedia animais para o centro, como o cavalo de nome Junqueira, que lá serviu de 1826 a 1831.

Cavalo mais importante da Fazenda Campo Alegre

Por isso o cavalo mais importante da Fazenda Campo Alegre não tem nome certo – é Sublime, talvez – e não era Mangalarga Marchador – era, aliás, um reprodutor Alter Real, proveniente da Coudelaria de Alter do Chão, do Alentejo, Portugal.

Acima de tudo, é o cavalo que o Barão de Alfenas recebeu, segundo a tradição, das mãos do imperador Dom Pedro I e muito provavelmente o pai do garanhão Junqueira, que serviu em Cachoeira do Campo. E, nesse sentido, com este reprodutor depurou o seu criatório de cavalos marchadores.

Além disso, a realidade mais provável deste fato é a de que o Barão de Alfenas utilizou-se dos reprodutores da Coudelaria Cachoeira do Campo, como comprova a utilização do garanhão Junqueira naquela Coudelaria. E o povo da Encruzilhada, vendo o belo garanhão Alter da Coudelaria na Fazenda Campo Alegre, admirava-se e comentava: “Ocês viram o cavalão que o sinhô Junqueira ganhô do imperadô? Não? Então vão vê que formosura!”

Por fim, o Barão de Alfenas morreu em 1868 e deixou para o Brasil a preciosa raça Mangalarga Marchador e para a sua filha Chiquinha um cavalo de estimação chamado Mangalarguinho.

Fonte: Top Marchador
Crédito da foto: Divulgação/Top Marchador

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