Mangalarga Marchador

Top Marchador: a caçada ao veado que virou revolução

Confira mais uma reportagem especial da Revista Top Marchador em parceria com o portal Cavalus sobre a história do surgimento do Mangalarga Marchador

Atualmente, fala-se muito da funcionalidade do nosso Mangalarga Marchador. Tanto que procura-se, aliás, um meio para inserção de provas funcionais nas exposições e muitos comentam sobre essa necessidade como se a característica fosse novidade dentro da raça.

No entanto, é bom lembrar que nosso cavalo teve como fator primordial de seleção funcional a caçada ao veado. Atividade muito mais efetiva para isso, inclusive, do que longas viagens sobre o lombo do animal ou do que seu uso na lida com o gado.

Portanto, os grandes raçadores eram escolhidos entre os melhores cavalos de caçada. A cada ano, o melhor animal, o mais resistente, cômodo e equilibrado, lapidado para aguentar até uma semana de caçada sem demonstrar cansaço e, principalmente, sem cansar o cavaleiro, era o escolhido para ser o reprodutor da temporada.

A Caçada ao Veado foi responsável pelo início da seleção da raça – Foto: Reprodução/Top Marchador

Surgimento das caçadas

A Caçada ao Veado surgiu em Cruzília e região, basicamente por dois fatores principais. Um deles foi a influência de faiscadores ingleses, que, desde o século XVII, se radicaram na região, na então Comarca do Rio das Mortes, à procura de ouro e pedras preciosas.

Da cultura inglesa, eles trouxeram o hábito da caçada feita a cavalo e descobriram o veado catingueiro. Ou seja, um animal que proporcionava uma caçada muito mais emocionante do que a caçada à fox (raposa) de seu país de origem.

Outro ponto que merece destaque e que fez com que as caçadas ganhassem importância e adeptos no Sul de Minas foi o fato de muitos filhos dos fazendeiros mais abastados, na sua maioria Junqueiras, terem ido estudar na Europa. Assim, trouxeram de lá apetrechos utilizados na atividade, como selas inglesas e buzinas de metal, além de alguns cães da raça Fox Hound puros. Animais que vieram melhorar a cachorrada de origem nacional.

Dessa forma, os praticantes das caçadas nutriam verdadeira paixão pelos melhores cachorros e cavalos. Muitas das atividades eram registradas em diários e atas, contanto os pormenores dos passeios. Alguns faziam até uma classificação dos melhores cachorros e cavalos em cada aventura.

Para se ter uma ideia da verdadeira fixação que os criadores do Sul de Minas tinham pela caçada, João Dinis Junqueira, caçador assíduo, na abertura do 2º volume do Livro de Caçadas de sua família, diz o seguinte:

2º Livro de Caçadas para o ano de 1914 e seguintes, passará para o 3º certamente meus netos, se forem inclinados a caçadas como o avô.”

Caçadas transportadas de 1880 a 1913, conforme consta o primeiro livro: veados 1.154, onças 19, lobos 20, jaguatiricas 2. Total 1.195”

Caçada ao Veado – Foto: Reprodução/Top Marchador

Caçador nato

O Mangalarga Marchador original é um cavalo atleta, um caçador nato. Sendo assim, a funcionalidade foi quesito fundamental em sua seleção. Tanto que no Sul de Minas isso não é novidade.

Até bem pouco tempo, a seleção dos reprodutores ainda se dava desta forma. Muitas linhagens foram construídas em torno da função e da caçada ao veado. Como, por exemplo, posso citar a Favacho, Traituba, Angaí, J.F. (Capitão), Bela Cruz, Lobos, P.R., Morro Grande, Cabeça Branca, Bananal, EDU, Engenho de Serra e outras.

Criatórios que se destacaram, assim, em produzir os melhores cavalos caçadores da região. Animais com um temperamento de sela ímpar, justamente por causa do tipo de seleção.

Com o surgimento das leis de proteção ambiental, esta seleção ficou prejudicada. Afinal, com o aumento da fiscalização, a caçada ao veado em nossa região diminuiu, desde os anos 80.

Antes de mais nada vale frisar que a caçada ao veado é barulhenta. São cerca de 30 ou 40 cachorros urrando, uns 10 a 15 cavaleiros tocando buzina e gritando “cerca o veado”, além do tropel dos cavalos a galope.

Portanto, é impossível passar despercebido pela Polícia Florestal. Sendo assim, os caçadores da região começaram a evitar caçar nas redondezas e sempre aceitavam convites de amigos para a prática em outras áreas.

Pai e Floriano – Foto: Reprodução/Top Marchador

Caçada na cidade de São Romão

Nesta época, um grande fazendeiro do Norte de Minas, da região próxima à cidade de São Romão, organizou uma grande caçada e convidou vários amigos de todo o Brasil. Entre eles o saudoso “Capitão” – Geraldo Junqueira de Andrade e seus filhos que residiam e ainda residem em São José do Rio Pardo, interior do Estado de São Paulo.

De Cruzília, foram: Rubens Junqueira Filho – o “Rubinho do Favacho”, José Gabriel Aguiar Junqueira – o memorável “Bié do Favacho”, Edmundo Arantes Junqueira – o saudoso “Dimundinho”, Lúcio Antônio Calheiros – e “Dunga”, seu fiel escudeiro, e de Carrancas foi o Lúcio Mário Andrade.

A tropa foi de caminhão. A do “Capitão” partiu de São Paulo e, de Cruzília, “Bié e Rubinho” foram em uma camionete D10, levando a cachorrada. “Dimundinho” e “Dunga” viajaram em uma camionete Pampa, levando a tralha.

Ficou combinado que, chegando ao Norte de Minas, em São Romão, após passarem por uma balsa no Rio São Francisco, todos se encontrariam e seguiriam para a fazenda onde iriam acampar. Ao chegarem na região, notaram um ar estranho na população local.

Caçada ao veado no Sul de Minas- Foto: Reprodução/Top Marchador

Caçada agitada

Todos estavam agitados, mães correndo, colocando os meninos para dentro de casa, uns olhavam pelas frestas da janela, outros fechavam as portas das casas. Três aviões transportaram os convidados mais distantes, muitos foram de camionete e vários caminhões transportaram os quase 200 cavalos e mais de 100 cachorros. O lugarejo nunca tinha experimentado tanta movimentação.

Chegando na beira do São Francisco, tiveram que esperar pelo retorno da balsa que havia acabado de levar um caminhão carregado de cavalos para o outro lado do rio. Quando a balsa atracou, notaram que o balseiro estava também com cara de espanto, meio ressabiado…

Combinaram o preço da travessia e colocaram as camionetes com os cachorros e as tralhas na balsa. Enquanto atravessavam o Rio São Francisco, Dimundinho e Dunga desceram da camionete e começaram a conversar:

 – “Dunga, será que todo mundo já chegou?” – perguntou Dimundinho.

– “É, deve estar todo mundo aí!” – respondeu Dunga.

– “Vamos ter que esperar o Capitão pra gente começar…” – Dimundinho retrucou.

Ouvindo o diálogo, o balseiro chegou perto de Dunga e Dimundinho e disse:

– “É, seus moço, agora tá cunfirmado! Passô tanto caminhão cheio de cavalo, tanto home e tanto cachorro hoje nessa balsa … e agora ceis falano de Capitão… vou só deixa oceis do outro lado e corrê pra casa, pois, pelo jeito, vai cumeçá memo a REVOLUÇÃO…”

Por fim, presto uma homenagem a todos os caçadores do Sul de Minas, que agora galopam seus Mangalargas Marchadores nos campos celestiais. Especialmente aos amigos Geraldo Junqueira de Andrade – “Capitão”, Edmundo Arantes Junqueira – “Dimundinho” e José Gabriel Aguiar Junqueira – “Bié do Favacho”.

Por Domingos Lollobrigida Jr./Top Marchador
Crédito das fotos: Reprodução/Top Marchador

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