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A equitação para o desenvolvimento social

Luciano Rodrigues estudou a respeito da relação dos cavalos, da equitação, e o desenvolvimento da humanidade. Confira nesse artigo!

A equitação proporcionou uma aceleração dos tempos e espaços – a Dinâmica Equestre. Entre a domesticação do fogo e a invenção do arco e flecha levou cerca de 450 mil anos. Mas, desde o desenvolvimento da equitação, apenas seis mil anos transcorreram até o desembarque do homem na lua.

Os equinos impulsionaram a cultura, o comércio, o desbravamento de novas terras. De acordo com Bjarke Rink, tudo começou com as crianças e suas brincadeiras de aproximar e tentar parar sobre as éguas que habitavam junto aos nômades. De tanto montar e cair a éguas foram se acostumando com a ideia de uma criança sobre o lombo. Rink as chama de criança-cavalo por terem sido elas as primeiras a entrar na Era Equestre.

Dessa forma, a equitação se tornou uma experiência espiritual que acompanharia o cavaleiro por toda a vida. E revolucionaria os seus hábitos e expectativa de vida.

Era Equestre

A Era Equestre expõe a dependência do humano com o cavalo. De fato, uma simbiose para quase todas as atividades do cotidiano. Podendo ser utilizadas para o comércio, estreitando os laços comerciais entre a Ásia e a Europa. Assim como animal de tração, puxando carroças e arados nas plantações.

Acima de tudo, o de maior choque cultural, usado como ferramenta de guerra. Todavia, dando destaque para os impérios formados no lombo dos cavalos. Desde os Sumérios, Citas, Mongóis, até a ocupação e transformação cultural e social da Europa.

Tamanho foi o caos dos europeus quando avistaram perplexos os humanos montados em seus cavalos. Dispunham de tamanha destreza e violência que fez surgir o mito do Centauro: metade humano, com sua inteligência e raciocínio, metade animal, com sua força física e velocidade. Ninguém poderia parar um centauro.

Desse modo, desde o simples camponês até os imperadores estavam utilizando os cavalos em suas vidas. Os cavalos eram fundamentais para desbravar e conquistar novas terras.O cavalo se tornou o animal de campanha, uma máquina de guerra, um elo fundamental para o sucesso das batalhas e guerras. Tal importância fundou a base da equitação clássica.

Estudiosos

Xenofonte, um dos pioneiros na teorização da equitação do cavalo para a guerra, baseou-se nas batalhas. Principalmente no exército Persa, para desenvolver seus estudos sobre a arte da equitação – Horsemanship.

Antes de Xenofonte temos Kikkuli, mestre no treinamento de cavalos do povo Hurrita, região da Mitani (Mesopotâmia). Ao passo que escreveu seu método há ≅1400 a.C., quase mil anos antes de Xenofonte.

Seu texto hieroglífico descreve o método adotado para o treinamento e condicionamento físico dos cavalos em sete meses. Nesse meio tempo, os Hurritas foram absorvidos pelos Hititas, excelente na arte dos carros de guerra, na qual eram preparados os cavalos de Kikkuli.

O texto detalhava um regime de treinamento de sete meses. Os dias de descanso foram agendados, mas os treinos às vezes chegavam a três por dia. O treinamento intervalado de Kikkuli continha três etapas.

Assim sendo, as duas primeiras para desenvolver pernas fortes e um sistema cardio-muscular forte. Por fim, a terceira para aumentar o condicionamento neuromuscular. Seus treinos incluíram breves recuperações para diminuir a frequência cardíaca. A natação também foi incluída em intervalos de três a cinco sessões, com períodos de descanso após cada sessão.

Equitação Grega

Ressalta-se que o método de Kikkuli era destinado, principalmente, para o preparo físico de cavalos de bigas. Desde Kikkuli temos várias modificações e preocupações com os cavalos. Assim sendo, os resultados da guerra confirmam a necessidade de aprimorar a equitação.

Simão de Atenas, cinco séculos a.C., escritor grego, é considerado o primeiro autor sobre cavalos e equitação. Sobretudo, pouco se sabe sobre os escritos, grande parte do que se conhece é decorrente de Xenofonte (1893) em ‘The artofhorsemaship’.

Xenofonte se apropria dos estudos de Simão de Atenas e aprimora a teoria para cavalos de guerras. Ganha, portanto, destaque a morfologia, o temperamento e o treinamento dos cavalos de guerra.

Ele se torna uma referência para a equitação, inclusive na contemporaneidade. Com a queda dos gregos, o Império Romano se apropria da arte equestre dos gregos sem nenhuma modificação ou melhoria.

Equitação no Império Romano

Em Roma, o horsemanship não alcançou mais do que a tensão e as corridas, que entretinha as massas no Circus Maximums. Dessa forma, a arte de andar foi passada apenas como uma caricatura da arte grega. Praticada, antes de mais nada, em carnavais e circos em Alexandria e mais tarde no Império Romano do Oriente.

A vantagem que os cavalos proporcionavam nas batalhas, com ataque, agilidade e velocidade, fez com que, dentro dos exércitos seja peça essencial. Por exemplo, criando uma frente de cavalaria atuando junto ou dando apoio a infantaria.

A cavalaria adquire tanto destaque que passa a ser tratada como uma honraria. Dentro da estrutura social o cavaleiro tem uma educação pautada em valores e práticas a favor de um ideal, seja religiosa ou política.

Ninguém nascia cavaleiro, porque pertencer à cavalaria era uma honra que se adquiria e não o dom gratuito do berço.

A equitação para o desenvolvimento social

Renascimento de Xenofonte

Com a queda de Constantinopla, muito dos cavaleiros se refugiaram na Itália. Um dos principais foi Federico Grisone e sua obra ‘Gli Ordinidi Cavalcare’. Para muitos, Grisone quebrou a corrente de treinamento e doma de Xenofonte, que era baseada na suavidade.

Ele aplica métodos de medo e violência contra os cavalos, buscando ‘quebrar’ o espírito do animal, a fim de ter submissão através do medo.

Grisone, bem ou mau, fundou a Escola de Nápoles. E, em seguida, seus discípulos fundaram escolas na Alemanha, França e Inglaterra. Muitos de seus sucessores retomaram o treinamento suave de Xenofonte.

Como o caso do Georg Engelhardvon Löhneisen em sua obra ‘Neu-eröffneteHof-Kriegs- undReit-Schul’. Um fundamento para as escolas de equitação alemã.

O mérito de Grisone é que ele adotou o ensino de Xenofonte, seguindo os critérios gregos de carruagem de cavalo e assento de um piloto, mas dentro do limite das selas contemporâneas.

Enfatizou o trabalho de trote como um meio de fornecer o cavalo, que era desconhecido de Xenofonte, que só usou o trote por alguns passos durante a transição para o galope.

Assim também, enfatizou a necessidade de segurar o pescoço do cavalo na base (na frente dos ombros). No entanto, em um fator importante, nem Grisone nem nenhum de seus compatriotas (com exceção de Pluvinel) seguiram os ensinamentos de Xenofonte.

A saber, essa foi a harmonia psicológica entre cavalo e cavaleiro, que parece ter sido esquecido e foi frequentemente substituído por métodos brutais.

Cavaleiro como um título social

As escolas de equitação, seus métodos, estavam focadas nos saltos, nas marchas para combate e no movimento ‘terre-a-terre’. Além disso, na formação de conduta e esgrima.

Alunos da Escola de Nápoles, como o caso de Salomon de laBroue (1553-1610) – que foi mestre de equitação na corte de Henrique IV e Antoine de Pluvinel (1601-1642), professor de Luís XIII.

O cavaleiro, então, passa a ser um título dentro da estrutura social. Desse modo, se afastando dos campos de batalha para representarem através de movimentos artísticos – harmonia e estética – dentro de picadeiros.

A arte equestre deixa de ser natural para incorporar movimentos criados pelo humano a fim de encantar plateias.

Xenofonte é resgatado por Antoine de Pluvinel, não aceitando os métodos violentos de treinamento e doma. De tal sorte que retoma a suavidade buscando a naturalidade dos movimentos, cria movimentos como croupade, ballotade, capriole ecourbette.

Clássica e Western

É neste período que os cavalos ibéricos voltam a habitar as Américas. Levados pelos colonizadores para contribuir no cotidiano das capitanias no caso do Brasil e para a ocupação do México e Estados Unidos.

Cavalos ibéricos, misturados a outros sangues europeus e com a adaptação ao ambiente americano, moldando novas raças de cavalos. Não só o Mangalarga Marchador, bem como Crioulo, Quarto de Milha, Mustangues, Appaloosa, entre outros.

Junto com esses cavalos entram também estilos de equitação, que foram se modificando conforme a realidade vivenciada em cada território.

Neste período temos duas distinções claras de estilos de equitação: 1 – Equitação clássica: pautada nas escolas europeias, com movimentos típicos das batalhas e das marchas; 2 – Equitação western: pautadas no manejo com o gado, derivadas de escolas criadas nas américas, principalmente nos Estados Unidos da América.

Os movimentos da equitação western buscam a agilidade dos equinos tendo como fundamento o trabalho nas fazendas. Na equitação clássica, após Antoine de Pluvinel, surge com Duque de Newcastle, no século 17.

Uma escola inglesa de montaria, baseado em Pluvinel, porém, com adaptações, como o caso da exclusão do uso dos pilares. Além de aprimorar exercícios para o movimento de ‘forehand’, preparando o animal para o ‘shoulder-in’ e outros movimentos laterais.

Atualmente, grande parte das escolas de equitação voltadas para o estilo clássico pautam em François Robichon de laGuérinière, com um treinamento amigável, gentil e suave.

Herança de Guérinière

A principal conquista de Guérinière é que ele desenvolveu todos os aspectos do movimento de ombro. Com ele, passou-se a usar os meios para alcançar ‘légèreté’, ‘Durchlässigkeit’ (a disposição imediata do cavalo em responder aos auxílios do cavaleiro). E a obediência, sem a menor resistência.

Ele reconheceu que o trote era o ritmo de todo o trabalho de adestramento fundamental, embora ele não apreciasse o valor dos contra-movimentos, mais tarde explorados por G. Steinbrecht.

Guérinière repetidamente enfatizou a coordenação perfeita das ajudas como a pré-condição necessária para a realização do piaffe e da passagem e os movimentos do ensino médio acima do solo.

No século 18 outro estilo surge na Inglaterra. Como resultado das corridas de cavalo surge um novo método de montaria buscando a leveza do cavaleiro a fim de deixar o animal mais leve durante a corrida.

Muda-se por completo a selaria e a estética do cavaleiro sobre o animal, neste sentido, a técnica nas corridas não prioriza a arte da fidalguia, mas sim, a arte de baixar o tempo.

A equitação para o desenvolvimento social

O grande mestre

No século 20 surge Nuno Oliveira, mestre de equitação portuguesa, discípulo do mestre Joaquim Gonçalves de Miranda, autor do livro ‘Princípios clássicos da arte de treinar cavalos’.

Nuno, que é reconhecido em todo o mundo como o último grande Mestre da Equitação Clássica, defendia que a equitação deve ser baseada na leveza, liberdade, beleza e harmonia.

Em suas palavras: “o cavaleiro que constantemente segura o seu cavalo com um forte contacto não pode nunca progredir; só o cavaleiro que sabe como trabalhar o seu cavalo em liberdade descobrirá a arte de montar”.

Sua preocupação estava no passo, enquanto outros se dedicavam ao trote. O passo é a base para todos os outros movimentos, a realização do passo reunido permite outros movimentos reunidos nas diversas andaduras.

De acordo com ele, se ao passo o movimento não estiver constante e sólido, nas outras andaduras o movimento não encontrará sua eficiência. Aplica e se dedica a espádua-a-dentro para obter a flexibilização do cavalo.

Equitação Western

Por fim temos a equitação western. Que ganha impulso no século 20. Nomes como Bill Dorrance, Tom Dorrance, Ray Hunt, Pat Parelli, Monty Roberts, Buck Brannaman, Clinton Anderson, etc., aparecem com métodos de horsemanship nada convencionais para a segunda metade do século em questão.

Numa cultura, advinda das escolas clássicas de doma através da ‘quebra do espírito’ do animal, buscando uma submissão através do medo, terror e violência. A doma e o treinamento western passam por um movimento de aprimoramento pela doma racional, contrapondo a doma tradicional.

Entende-se que o horsemanship tem como primazia o bem-estar animal, utilizando a racionalidade humana para si colocar no lugar do animal – empatia – e, assim, compreender as necessidades biológicas, psicológicas (instintos e emoções) e sociais dos animais.

Referências

BIRKE, Lynda. Learning to speak horse: the culture of natural horsemanship.SocietyandAnimals, n. 15, p. 217-239, 2007.

CARVALHO, Joaquim. A educação do cavaleiro. Disponível em: http://www.joaquimdecarvalho.org/artigos/artigo/189-VII.-A-educacao-do-cavaleiro. Acessadoem: 13 jun 2019.

DENT, Anthony. Kikkuli, 1345 BCE: training the chariot horse. International Museum of the Horse.Disponível em: http://imh.org/exhibits/online/legacy-of-the-horse/kikkuli-1345-bce/. Acessadoem: 13 jun 2019.

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NYLAND, Ann. The Kikkuli method of horse training. Sydney: Maryannu Press, 2009.

RINK, Bjarke. Desvendando o enigma do Centauro: como a união homem-cavalo acelerou a história e transformou o mundo. São Paulo: Equus Brasil Editora, 2008.

RODRIGUES FILHO, Luciano Ferreira; ROSA, Eder Ribeiroda.Entre cavalos e humanos: sobre relacionamento interpessoal. Curitiba: Editora CRV, 2019.

ROLO, Jeffrey. The fatal flaw behind horse breaking.Disponível em: http://www.alphahorse.com/horse-breaking.html, Acessado em: 13 jun 2019.

Colaboração: Luciano Ferreira Rodrigues Filho
Cavaleiro e Pesquisador | 
Campeira Dom Herculano | lu_fr@yahoo.com.br
Crédito das fotos: Divulgação/Pixabay

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