Quarta parte da série sobre o tema ‘Método Científico visita o Quarto de Milha’ – Dr Marcio Tolentino

Uma das perguntas mais frequentes que se ouve entre os quartistas é: “Qual o melhor garanhão para minha égua ou qual melhor égua para o meu garanhão?”

Como responder a essa questão? Pergunta muito difícil de responder, porque envolve toda a genética e a morfologia dos dois (garanhão e égua). Aliás, genética e morfologia são inseparáveis. Geralmente quem vai fazer o cruzamento tem a esperança de que seu produto some a virtude do pai e da mãe. E se ele somar os defeitos?… E se o cruzamento for arriscado para o aparecimento de novos defeitos?

Nessa coluna, vamos falar alguma coisa sobre escolha de cruzamentos. A matéria é bem difícil e serão muitos os termos técnicos.

Pretendo tratar particularmente da genética. Mas é muito importante dizer que a genética é responsável por apenas um terço do sucesso atlético de um cavalo.

Você deve estar se perguntando, só um terço? Pois ouvimos muito mais falar-se da genética do que dos outros fatores. Então quais são eles?

Pois é, eu também. Já ouvi muito: “eu acho que a genética é o mais importante.” A ciência não comporta ‘achismos’. O que está provado não se discute.

Está escrito em trabalhos sérios e publicados: “A qualidade dos componentes genéticos responde pela codificação de seu coração, pulmões, músculos, ossos, tendões e, finalmente, temperamento. O resto, entretanto, não tem a ver diretamente com a genética: tem a ver com terra, alimentação e treinamento.”

Já vi incontáveis mães desnutridas (principalmente as receptoras de transferência de embriões), alimentando potros de genética especial. O que esperar destes produtos? Vamos voltar à genética.

Os cavalos e todos os seres vivos têm uma ‘química’ que forma seu corpo. São milhares de pedacinhos que se juntam. É como se fossem os tijolos de uma casa: são as unidades químicas que compõe o ser vivo.

Para garantir que não haja falhas na construção do corpo dos cavalos (e de todos os seres vivos) – o Criador fez um sistema de reprodução de dois gens para cada unidade de sua ‘química’, (dois moldes para cada tijolo): um vem do pai e outro da mãe!

Os cavalos têm de 20 a 30 mil gens, metade do pai e outra metade da mãe (a contribuição da mãe é maior, mas em outra coluna já falamos sobre isso).

São dois gens porque se um dos moldes não for capaz de fazer um tijolo perfeito, o outro, seu par compensa.

Ao construir uma casa você pode fazer uma lista detalhada de tudo o que é necessário. Lista completa, os mínimos detalhes. Esta lista chama-se genoma. O genoma do cavalo foi completamente identificado em 2006 numa égua PSI. O segundo animal totalmente identificado foi em 2012, uma égua QM americana chamada Sugar.

Conhecemos a completa composição desses dois animais, gen por gen, todo seu genoma, todos os moldes usados em sua fabricação, inclusive seus gens defeituosos!

Já disse acima que ao planejar um cruzamento, você pretende somar as qualidades do pai e da mãe. Esse planejamento chama-se seleção do que é melhor. A seleção dos melhores cavalos está sendo feita pelo ser humano faz séculos e isso foi e é feito por um processo chamado endogamia.

Quais as consequências mais comuns da Endogamia? Vou citar duas consequências que não relacionamos. A primeira, baixa fertilidade dos garanhões e matrizes. A segunda, durabilidade: a falta de lubrificação das articulações ósseas, o que causa a pouca durabilidade do cavalo atleta, e isto é perda para o criador, já que manter um animal de alta performance tem um custo alto.

Nas minhas seleções de cruzamentos adoto dois critérios de descarte, o primeiro é a fertilidade, só seguro matrizes que tenham grande potencial fértil. O segundo é a durabilidade em pista, ou seja, só coloco na reprodução, matrizes que tenham um bom tempo em competição, como exemplo, ST Tapioca, ST Analeo.

Acontece que quando você faz um cruzamento consanguíneo o risco é muito alto de um gen defeituoso encontrar outro igual. Os cavalos cruzados sendo da mesma família, a chance de ter dois gens iguais é muito mais alta. Se os dois forem defeituosos aparece uma doença ou limitação.

Lembre-se que há dois moldes para cada tijolo. Se os dois produzirem tijolos ruins, um não compensará o outro. É verdade que podem somar as virtudes, mas há um risco grande de somar-se a limitação. O Quarto de Milha já é muito consanguíneo e por isso temos que tomar cuidado.

Fazer cruzamentos consanguíneos é uma opção para seleção, mas tem risco maiores.

Quando o cruzamento dá certo, o produto pode ser excepcional. Há exemplos de consanguinidade que geraram produtos muito acima da média, grandes chefes da nossa raça. Quem fez o cruzamento correu riscos. E como é possível avaliar a consanguinidade?

Vou dar um exemplo de um índice chamado IC, índice de consanguinidade e mostrar a tabela abaixo.

IC: INDICES DE CONSANGUINIDADE
Acasalamento

Todo cruzamento com índice maior que cinco é arriscado. Há várias fórmulas matemáticas que avaliam isso, mas são complicadas. O mais fácil é você pegar o pedigree ou genealogia do cavalo e ver a porcentagem de gens de cada geração.

Evite que a soma da porcentagem dos parentes comuns (entre pai e mãe) seja muito alta. Some as porcentagens, divida por dois. Evite que esse número seja maior que 6,25% das porcentagens.

Vou dar alguns exemplos: Primeiro um cruzamento consanguíneo que deu certo (mas quem fez teve enorme risco): o grande LEO. Um grande chefe de raça americano, um dos maiores QMs de todos os tempos e que está presente em praticamente todos os pedigrees de campeões, mesmo os mais modernos.

O Leo é muito consanguíneo: resultado do cruzamento de dois filhos do PSI Joe Reed. Cruzamento entre dois meio irmãos, com IC de 12,5%.

O segundo exemplo é o do meu Shady Leo. Comprei esse garanhão aos oito meses do Dr. Heraldo Pessoa, um dos maiores conhecedores do QM no Brasil. Buscava um cruzamento entre descendente do Sugar Bar em égua Leo. Pensei em importar, mas encontrei aqui mesmo!

Seu pai o Shady Apolo Bars foi um imbreeding do Sugar Bar (tio com sobrinha) que deu certo e sua mãe uma excepcional descendente do Leo com Waskada, um cavalo de corrida. É o que queria e achei no Brasil.

Finalmente o terceiro exemplo: um cruzamento super correto, que mistura linhagens sem consanguinidade importante: a grande recordista mundial Rollin in The Fame. Pedigree escolhido pelo meu grande amigo Diogo Zopone, grande estudioso e conhecedor das modernas linhagens.

Tenho um frequente dialogo com o Diogo, estudando cruzamentos estudando linhagens. Enriquecedor! Veja o pedigree desse fenômeno:

Lembre-se, porém, que a Rollin foi bem nutrida e teve treinamento exemplar.

O conteúdo desse estudo está sendo publicado originalmente na Revista Tambor & Baliza. O Dr. Marcio Tolentino é Médico Gastroenterologista, Criador de Cavalos Quarto de Milha há mais de 40 anos e estudioso na área de cruzamento.

Foto de chamada: Rollin in The Fame/Beto Negrão

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