Rédeas

Uma história de quando a inspiração vem de filho para pai

“Uma relação muito mais do que pai e filho, somos Cavaleiros da Paz, fizemos cavalgadas pelo mundo juntos em vários países, e agora partilhamos a paixão pela Rédeas”

Quando a temporada 2017/2018 do Campeonato Gaúcho VTR de Rédeas terminou, pai e filho tinham muito mais motivos para comemorar. Há seis anos, Antônio Brocker Junqueira, 19 anos, foi campeão da Amador Principiante N1, categoria que agora seu pai, Mauricio Junqueira, 46 anos, ganhou esse ano. Eles também festejaram mais um título para Antônio, campeão gaúcho na Amador N4, N3 e N2.

Por trás dessa festa tem uma história linda que começou com Maurício acompanhando seu pai, um veterinário de Estrela/RS. “Nasci em Estrela e fui criado em Guaporé, na serra gaúcha. Quando pequeno, adorava acompanhar meu pai nos atendimentos que fazia a pequenos agricultores pelo interior, na expectativa de haver algum cavalo pelas voltas da casa para poder andar”, relembra Maurício.

Ao mudar-se para Porto Alegre aos 15 anos para estudar, ele perdeu o contato com o campo. Até que em 2006 a família fez um passeio na fazenda do Recanto Borghetti, na Barra do Ribeiro, ele e os filhos Valentina, com nove anos, e Antônio, com sete na época. Esse passeio despertou o amor pelos cavalos nas crianças, Maurício decidiu por comprar seu primeiro cavalo e passou a participar das Cavalgadas da Lua Cheia, junto com outros amigos.

Cavaleiros da Paz – Cavalgada África do Sul

A parceria de Valentina e Antônio com o pai e os cavalos só crescia. Eles conheceram os Cavaleiros da Paz, grupo de cavalarianos criado pelo folclorista Antônio Augusto Fagundes, que desde 1990 refaz os caminhos de guerra pelo mundo, em nome da paz. “Preocupado com a segurança dos meus filhos, procurei um local em que eles pudessem praticar equitação. Foi o primeiro contato deles com a Rédeas”.

A primeira grande cavalgada com os Cavaleiros da Paz foi de Dom Pedrito a Livramento, em homenagem ao Tio Flor Magalhães. “Um pouco contrariado, tive que levar o pequeno Antônio, a convite dos demais cavaleiros. Como ele precisou faltar aula na semana, recebeu a missão de registrar suas experiências para contar aos seus colegas. No final da cavalgada, havia um diário que chamou a atenção de todos”. Inclusive, esse diário fez tanto sucesso que virou um livro lançado na Feira do Livro de 2008 – ‘Diário de uma Cavalgada’.

Destinado mesmo a viver sempre ao lado dos cavalos, este feito levou o Antônio a ser palestrante em diversas escolas e na I ExpoCavalo em São Paulo. “No ano seguinte, em 2010, fomos convidados novamente pelos cavaleiros para a Cavalgada do Fim do Mundo, na Argentina, fronteira com o Chile, na região da patagônia. No último dia, na beira do Canal de Beagle, eu, o Antônio e mais cinco cavaleiros fomos ‘armados’ por Antônio Augusto Fagundes com o título oficial de Cavaleiros da Paz, sendo o Antônio o mais novo membro entre os cavaleiros”.

Maurício foi esse ano ao National Alpine Park – Cavalgada da Austrália – com o Cavaleiros da Paz

E a lista de passeios estonteantes aumentou. Em 2011, Cavalgada dos Extremos, no norte do Canadá; em 2013, Cavalgada da África do Sul, junto a girafas e rinocerontes, em homenagem a Nelson Mandela; em 2014, Cavalgada na Mongólia, entre os nômades; em 2016, Cavalgada da revolução Mexicana e Rota do Prata, no México. Incluindo, em 2013, serem nomeados Embaixadores da Cultura e do Folclore do Rio Grande do Sul.

A Rédeas chegou para a família entre 2010 e 2011, com conquistas logo no primeiro ano por Antônio, que estava com 13. Sua primeira grande prova, a antiga Copa Querência, com o cavalo Marau da Bianca, um crioulo filho do campeão Ganadeiro da Harmonia, e a primeira vitória na Principiante Amador. No mesmo ano conquistou o título de campeão Gaúcho na mesma categoria. O mestre do até então jovem cavaleiro é até hoje Maximiliano Conceição. “A prioridade passou a ser o esporte e acabei ficando sem cavalo para minhas cavalgadas por um tempo. Entramos de cabeça na Rédeas, incluindo planos de criação”.

Antônio Brocker Junqueira, campeão gaúcho de Rédeas 2011/2012

O envolvimento de pai e filho com a modalidade não ficou só na pista. Em 2014, Maurício assumiu a presidência da Associação Rio Grandense do Cavalo de Rédeas, tendo Antônio como vice-presidente de Marketing. “Meu maior legado, acredito que seja ter ajudado a preparar uma juventude capacitada para dar continuidade e o resultado tem sido campeonatos fortes e muito competitivos, com recorde de participantes. Hoje a associação segue em alto nível sob o comando da Joana Azevedo em uma diretoria que ainda faço parte como vice-presidente”.

Com o passar dos anos e o crescimento técnico na criação de cavalos dos Junqueira, sempre sob o treinamento atento do Max, um dos cavalos mais velhos apareceu como oportunidade para Maurício retornar às cavalgadas. “Mas o talento desse cavalo me despertou o desafio de treinar também. Em oito anos que convivia com a Rédeas ainda não tinha me aventurado. Absorvi muita técnica, acompanhando o tricampeonato brasileiro do Max e os títulos do Antônio, mas a prática ainda não tinha”.

Antonio Junqueira e Encomendero do Recanto Gaúcho na atual temporada

Era um desafio de superação pessoal. Maurício pensou em melhorar sua equitação e colocar em prática essa teoria toda que já conhecia tanto. Dos treinos ele foi para a pista. Primeiro campeonato, algumas boas apresentações, tendo inclusive classificado para o Campeonato Nacional da ANCR. Ao começar a atual temporada, ele fez um terceiro lugar na Amador Principiante e o Antônio não foi muito bem na primeira etapa na Amador. “Mas o modelo do campeonato com três etapas, sem descarte e a última valendo quase o dobro da pontuação, torna a competição emocionante até o fim, sem que nada esteja definido até a última etapa”.

Ciente do alto nível da Rédeas hoje, ele sabia que era preciso muita dedicação, esforço e treinamento. Mas estava animado em continuar. Logo na segunda etapa, venceu, empatado, a sua categoria. Antônio se recuperou e reservou os demais níveis do Amador. Eles, como fazem desde o começo, lado a lado. “Nessa etapa aconteceu um fato inusitado, um susto na hora da premiação. O cavalo que o Antônio montava se assustou com o barulhos e disparou no meio do público, correndo pista afora. Enquanto o Antônio se livrava da premiação e sem estribos e nem rédeas, se defendia buscando retomar o controle do cavalo. Uma cena inesperada para um animal muito manso. Fiquei imóvel e não tive reação. Por sorte, ele conseguiu parar o cavalo, ninguém se machucou e tudo não passou de um susto. A maior consequência foi o cavalo ter ficado muito assustado, dificultando sua apresentação na última etapa”.

Maurício Junqueira e Data Venia Flete durante o campeonato gaúcho 2017/2018

Muitos conjuntos se habilitavam ao título, mas eles estavam confiantes, treinando muito e torcendo. A prova dos Amadores N2, N3 e N4 acontece antes do N1 e Antônio foi o primeiro a entrar em pista na final do 15° Campeonato Gaúcho, que aconteceu dia 9 de junho, no Centro Querência, em Porto Alegre. Montando Encomendero do Recanto Gaúcho, foi co-campeão da terceira etapa e ficou com o título gaúcho. Mesmo tranquilo, começou aí o frio na barriga para Maurício, era a sua vez de buscar o título.

Data Venia Flete foi sua montaria e lhe passou total confiança. Haviam treinado bastante. Fizeram uma prova correta, ficando com o segundo lugar na etapa e o primeiro no geral. “Meu filho foi a primeira pessoa que vi ao sair da pista e foi ele que me deu a notícia. Eu e ele campeões da Amador, ele nos três níveis acima e eu no nível 1, o principiante. Não preciso comentar mais nada. Que sensação! Em nenhum momento fizemos esta previsão!”

Depois de comemorar com a família e o treinador Max, responsável também por ajudá-los nessa conquista, passando seus valores, a pergunta que não queria calar ecoava: ‘Qual o significado da vitória de pai e filho em todas as categorias do amador?’. Para Maurício, passava um filme na cabeça, revivendo tudo que fizeram e até onde essa paixão os levou. “Mas posso afirmar que, muito mais que a vitória, foi o resultado de uma filosofia! Acompanhei quando o Antônio ganhou seu primeiro título, treinando de madrugada. Vi ele vencer, fazendo um manual de apresentação do cavalo que competiria em São Paulo, depois de assistir mais de 30 vezes a mesma prova do cavalo e seu treinador. Ele lia seu manual diversas vezes durante o dia como forma de criar seu plano mental de apresentação, já que não teria como treinar no cavalo que estava competindo na categoria profissional. Ou seja, descobri com meu filho e seu treinador o preço de cada vitória e posso afirmar: ‘O esforço e o trabalho sempre compensam!’. Não importa o resultado, se você conseguiu colocar em prática seu aprendizado, tudo terá sido valido. A verdadeira vitória está em você vencer seus próprios limites!”

E eles puderam saborear juntos o que aprendemos um com o outro! “Que o cavalo siga nos dando novos ensinamentos e muitas alegrias.”

Por Luciana Omena
Fotos: Arquivo Pessoal