Três Tambores & Seis Balizas

Especial Dia das Mães: conheça Andréa Real, mãe da paratleta Veri Real

Na última reportagem da série especial em comemoração ao Dia das Mães, o portal Cavalus traz uma história de fé inabalável e conexão perfeita com os cavalos

“Mães de joelhos, filhos de pés”. Essa frase nunca fez tanto sentido quanto na vida de Andréa Tranjan Real e sua filha caçula Veridiana. Afinal, foi a partir da fé inabalável desta mãe que, mesmo após ser apresentada por uma série de diagnósticos difíceis após o nascimento de Veri – entre eles, que ela não andaria nem falaria e até que não chegaria aos 15 anos – , Andréa conseguiu ajudar a filha a escrever um novo rumo para vida.

E é como dizem, a oração de uma mãe move, de fato, montanhas. Dessa forma, a fé de Andréa foi capaz de transformar todos os “não” que eram apresentados a Veri em “sim”. Além da fé, os cavalos também tiveram papel determinante para mudar a trajetória da menina, que de “desacreditada” pela medicina se tornou paratleta dos Três Tambores, percursora da categoria dentro da modalidade e, ainda, motivo de inspiração para tantos.

Com inúmeros seguidores nas redes sociais, a persistência, garra e força de Veri Real já é bem conhecida por todos. Mas em comemoração ao Dia das Mães – celebrado neste domingo (10) – o portal Cavalus resolveu contar um pouco da história daquela que foi a grande responsável por ajudar Veri a chegar até aqui e se tornar um exemplo de fé.

Antes de mais  nada vale ressaltar que foi Andréa a grande responsável pelo casamento perfeito entre Veri e os cavalos. Como sempre montou e fez cursos de doma e rédeas, ela pode passar toda a sua técnica como equitadora para a Veri. Somente depois, a partir de 2016, quando a jovem quis começar a correr os Três Tambores que ela passou a fazer treinamentos com outros profissionais.

Mas para saber todos os detalhes desta história você confere abaixo a entrevista completa com a Andréa Real. Confira!

Andréa cresceu no meio dos cavalos

Primeiro contato com os cavalos

“Meu primeiro contato com cavalo aconteceu quando eu devia ter uns três anos de idade, em Águas da Prata. Meu tio-avô criava cavalo Puro Sangue Inglês, em Bauru ou Bebedouro, não me lembro, foi antes de eu nascer.

Daí a minha avó já tinha contato com animais, minha mãe montava muito e apresentou os cavalos para gente quando eu tinha mais ou menos três anos. Eu me apaixonei por eles. Eu sempre fui uma pessoa muito ligada aos animais e aos cavalos principalmente.

Desde pequena eu gostava de ver os filmes de cowboys, faroeste. Então, eu cresci amando os cavalos de uma maneira muito marcante. Eu não sabia o que os cavalos iam representar um dia na minha vida. Mas eu sabia que eu podia contar com a amizade deles para sempre.

O primeiro esporte que pratiquei por muitos e muitos anos foi o hipismo. Primeiro na hípica de Santos, que a gente morava lá, depois eu virei uma amazona da ABHIR.

Sempre montei cavalos, mas quando vim para o interior comecei a administrar a fazenda da família – comercializava leite e trabalhava com café – comecei a me dedicar mais. Fui fazendo vários cursos de Doma e Rédeas até me tornar uma equitadora.”

Andréa, Fernanda e Veri

Maternidade

“Eu sou mãe de duas meninas. A minha primeira menina nasceu eu tinha 20 anos, ela chama Fernanda, é uma médica e fisioterapeuta, apaixonante e maravilhosa, em todos os aspectos. Linda por dentro e por fora. É uma gatinha até hoje.

E a Veridiana, minha caçula, foi uma gravidez muito desejada também, principalmente pelo pai dela. Quando nos casamos a Veri foi uma prioridade em nossas vidas.

A maternidade é uma coisa muito gostosa, muitos desafios para você criar e estruturar uma criança até a fase adulta. Mas é uma tarefa muito boa. Eu sempre criei as minhas filhas de uma certa maneira sozinha, não tive muito apoio não, mas foi uma coisa muito gratificante para mim.”

Desde neném, Veri sempre sorridente

Nascimento da Veri

“Quando a Veri nasceu, ela nasceu a termo, numa cesária muito tranquila, mas eu tinha certeza que tinha alguma coisa diferente. Eu não sabia explicar o quê, mas eu levava ela em médico e todo mundo falava para eu relaxar, ficar tranquila.

Mas eu tinha certeza que tinha alguma coisa diferente. Até que eu pedi uma ressonância magnética na Veri, ela era bem neném, mas eu quis fazer. Daí deu que ela tinha tido essa anoxia cerebral que ocasionou uma tetraparesia espástica. E aí depois vieram uma sucessão de exames, de diagnósticos.

Chegaram a suspeitar que a Veri tinham miastenia grave, que ela não chegaria aos 15 anos. Você não imagina a minha cabeça, era uma notícia ruim em cima da outra.

Sobretudo, nós pais estamos sempre preparamos para pensar assim ‘nossa, minha filha vai nascer é eu quero que ela seja uma médica, engenheira, química, física’. E a gente nunca está preparado para o outro lado.

No começo a notícia cai como uma bomba, mas eu garanto para você uma coisa, eu nunca reclamei. Nunca perguntei porque comigo, porque com ela, e sempre levei a Veri numa boa. Nunca encarei a Veri como uma pessoa especial no sentido de deficiência.

É claro que eu tenho a consciência e ela também, mas para mim a Veri é uma pessoa normal, igual a todas as outras. Mas com algumas limitações que não a impedem de viver a sua vida.”

Além da fé, os cavalos viriam a ser determinantes para a vida de Veri

Fé inabalável

“A gente lê os diagnósticos, cada vez iam aparecendo mais comprometimentos, essa área que foi lesado do cérebro da Veri, a F7, localizado do lado esquerdo, é a área da fala, da memória, da coordenação.

Além de tudo isso, a Veri não tem o movimento dos olhos é um movimento de Bell, ela tem ptose bilateral, quer dizer, os olhos dela fecham, mas ela tem muita dificuldade de abrir os olhos. E ela ainda tinha ausência da vista esquerda.

Tudo isso estava escrito para mim, eu não tinha como mudar isso. Me apresentaram ela com esse começo e eu não podia mudar esse começo. Mas eu falei e pensei, conversei com Deus para me ajudar a dar um novo fim para a Veri.

Um novo fim no sentido de mudar as perspectivas que me foram apresentadas. Eu acreditei sim, aceitei, mas é muito diferente aceitar, me conformar e ficar parada. 

Para mim poderia ter sido mais fácil deixar a Veri numa cadeira de rodas, indo para a escola já que o cognitivo dela não foi lesado. Mas me conformar eu não me conformei.

Se eu fosse uma pessoa conformada eu deixaria a Veri quietinha em casa, na sombra e água fresca, mas eu falei, isso não vai ficar assim. Nós vamos mudar a vida da Veri e a partir desse momento eu passei a viver a minha vida só para a Veri.

Eu sou uma pessoa que acredita piamente em Deus e em milagres. A minha fé é tão grande que é difícil passar para as outras pessoas o que eu tenho de fé na minha vida. E eu acho que o maior exemplo disso é a Veri. Todos os não que a vida apresentava para ela a gente conseguiu transformar esses não em sim, pela nossa fé.”

Veri começou a se tratar no cavalo desde 1 ano e meio

Cavalos na vida da Veri

“Os cavalos começaram a fazer parte da vida da Veri desde sempre, porque a gente tinha fazenda em Águas da Prata. Então, desde neném, com seis meses, ela já andava a cavalo, mas essa vida de se tratar no cavalo foi desde 1 ano e meio.

Quando todos os diagnósticos foram fechados, eu pensei comigo mesmo, ou eu vou ficar em São Paulo e essa menina vai ficar a vida inteira dentro de uma clínica ou eu vou inventar uma vida para ela.

E como eu tenho muita fé e sei que foi Deus que me guiou para esse caminho, nos mudamos para a nossa fazenda em 1997. E eu coloquei ela no cavalo com 1 ano e meio e nunca mais ela desceu do cavalo.

Ela aprendeu desde cedo que os cavalos seriam as pernas dela. Além de tudo, a Veri para desenvolver a coordenação ela escovava os cavalos, dava banho, a vontade que a Veri tinha de correr e andar, os cavalos davam para ela.

Teve um dia muito marcante na minha vida que eu estava galopando a minha égua e a Veri estava atrás no cavalo velhinho dela. Daí quando eu fui subir o morro eu escutei o cavalo da Veri galopar e eu fiquei com muito medo, pensando que ela podia cair.

Aí ela falou bem alto “meu Deus, o vento tá batendo no meu rosto. Obrigada”. Ela agradeceu a Deus, como tudo na vida ela agradece a Deus. Esse dia ela quase matou o cavalo de tanto que ela galopou, foi um dia muito marcante para a gente.”

Veri costuma dizer que renasceu em cima do cavalo

Renascimento 

“A Veri fala que ela nasceu no hospital, mas renasceu em cima do cavalo com um ano e meio. Mas foi passando um tempo e a gente fazendo muitos tratamentos para fazer a Veri tentar andar, ela tinha muita dificuldade de equilíbrio até que tivemos que fazer a primeira cirurgia corretiva dela.

Ela ficou alguns meses engessada. Mesmo assim ela andava a cavalo todos os dias, puxada. Daí depois que tirou o gesso eu levei ela para hípica e ela começou a fazer a reabilitação. Depois, nos voltamos para fazenda e eu continuei a puxar a Veri no cavalo, ela era puxada de 3 a 5 horas por dia.

Daí um dia desses eu desci a Veri do cavalo e coloquei no chão, e ela andou devagarinho, mas andou. Esse dia foi um dos mais emocionantes da minha vida, porque o milagre tinha começado a aparecer. Então eu descrevo esse dia mesmo como renascimento que ela tanto fala.”

Veri era e ainda é só felicidade quando está em cima de um cavalo

Lição de vida

“Eu me considero uma pessoa feliz, de bem com a vida, eu não fiquei batendo na minha cabeça ‘ó vida, ó dor, ó azar’. Eu vejo a vida muito linda e eu acho que a tarefa de cada um tem que ser cumprida da melhor maneira possível e da maneira mais alegre que a gente consegue ser.

A Veri sempre foi uma alergia para mim. Desde pequeninha ela teve que enfrentar muitos obstáculos, mas nunca foi revoltada. Eu explicava para ela que a vida teria que ser de uma maneira diferente, que ela nunca deveria ter vergonha, abaixar a cabeça para ninguém, que ela teria que ir sempre para luta mostrando força e alegria em todas as coisas que ela tivesse que fazer na vida dela.

Com isso tudo ela aprendeu que a vida é sempre o lado positivo, a Veri nunca enxerga o lado negativo. Ela poderia ter desistido, ela podia ser uma pessoa depressiva, complexada, ser uma pessoas retraída, mas ela não é nada disso e ela prova que a vida é linda é bela.  Não importa a maneira como você viva e como você venha, importa a maneira como você enxerga a vida.

Ser mãe das minhas duas filhas é um presente, mas ser mãe da Veridiana é uma coisa diferente. Porque a gente aprende uma forma diferente de amor, a gente aprende que tudo vale a pena, a gente aprende que a vida pode ser todos os dias felizes, a gente aprende que a união faz realmente a força, a gente aprende a rir de coisas bobas que talvez se a gente não passasse por tudo isso a gente não encarasse a vida desse jeito.

A Veri é uma lição de vida. A Veri é um amor de pessoa, ela consegue me inspirar todos os dias com o seu jeitinho, com a maneira de encarar vida que tem. Ela é uma menina muito doce e meiga, é um presente ser mãe da Veri”

Andréa vê a filha como inspiração para muitos

Sonho de mãe

“O meu maior sonho é que eles inventem alguma medicação, algum tratamento, que possa devolver o equilíbrio para a Veri para que ela consiga andar sozinha, ser mais livre. Gostaria que inventassem algo para que ela voltasse ter a vista dela, eu gostaria muito.

O que a gente quer para o filhos, queremos ver os filhos felizes. Minha filha mais velha tem uma família, muito amor e paz. O futuro eu vou falar uma frase que a Veridiana fala que eu acho muito legal para a gente encerrar a nossa reportagem “O impossível só existe para quem não sonha”. E eu sonho com o futuro lindo para as duas.

O sonho da Veri que eu gostaria de realizar é dar um trailer para correr provas. Para ficar melhor instalada e dar palestras por aí a fora. E eu também tenho esse sonho para contar as pessoas não desistirem de nada, é só você lutar.”

Por Natália de Oliveira
Crédito das fotos: Arquivo Pessoal/Andréa Real

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