O vice-presidente da associação dos árbitros da raça e diretor da Escola Nacional de Árbitros, Carlos Augusto Cunha Sacchi, é quem conta todos os detalhes

Quem vê um cavalo Mangalarga Marchador em pista durante um prova de marcha, sem dúvidas, fica admirado por toda a beleza e imponência da raça. E, embora a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM) seja uma das principais entidades de equinos do país, ainda há aqueles que não entendem como funciona os concursos de marcha.

Por conta disso, o portal Cavalus resolveu ir atrás de quem entende, muito bem, do assunto para que você fique por dentro de todos os detalhes das provas de marcha do Mangalarga Marchador. Trata-se do vice-presidente da Associação dos Árbitros do MM e diretor da Escola Nacional de Árbitros, Carlos Augusto Cunha Sacchi.

Além destes cargos, antes de mais nada vale ressaltar que o Carlos Sacchi é médico veterinário, criador da raça desde 1987 e, acima de tudo, atuou como árbitro da ABCCMM por quase 20 anos, de 1998 a 2016. 

Carlos Sacchi atualmente é presidente do Conselho Deliberativo Técnico da ABCCMM

Neste período, ele também chegou a ser instrutor de cursos da raça, em 2010. Depois, assumiu a função como técnico de registro do Mangalarga Marchador e, atualmente, também é presidente do Conselho Deliberativo Técnico.

Após você conferir o currículo completo de Carlos Sacchi, certamente, já deu para perceber que ele entende muito bem quando o assunto é marcha do Mangalarga Marchador. Se você quer ficar por dentro de todos os detalhes também, confira a seguir a entrevista, na íntegra, que fizemos com ele.

Etapas das provas de marcha

“A prova de marcha do Mangalarga Marchador é dividida em três etapas, basicamente. Tem a fase seletiva, a fase classificatória e a fase final. A prova inicia a passo, a mão esquerda, no sentido anti-horário. Daí os apresentadores já começam a soltar a marcha reunida, que é mais curta. Depois, eles já fazem o que a gente chama de marcha livre, que é o animal sem o contato, praticamente, da embocadura.

A partir dai retorna a marcha reunida e inverte o sentido. Dai os árbitros começam a montar. Os árbitros montam em todos os animais. Em Caxambu, por exemplo, foram três árbitros, na Nacional já são cinco. Os árbitros montam em todos os animais no sentido horário e anti-horário. 

Na sequência, os apresentadores fazem de novo a marcha livre para fazer a classificação final e terminar a prova. Apenas os sete primeiros colocados que são comentados sempre comparando o sétimo com o sexto, o sexto com o quinto, e assim, sucessivamente, até o primeiro.”

O que é avaliado pelos árbitros

“Seis itens que são avaliados em uma prova de marcha. Pela ordem de importância são: o gesto de marcha, a comodidade, o adestramento, o estilo, o rendimento e a regularidade. Então, cada item desse tem vários outros subitens, não é uma coisa fixa.

Carlos atuou por quase 20 anos como árbitro da ABCCMM

O gesto de marcha é a razão de ser da raça, ou seja, a qualidade da marcha é o principal ponto. E a comodidade é o segundo, porque ela está diretamente relacionada com a qualidade da marcha. Um animal que marcha bem, dificilmente não será comodo. Então, uma coisa está atrelada a outra.

Terceiro, o adestramento, é muito importante na qualidade da marcha que o animal seja bem adestrado seguido de estilo, na nobreza que esse animal se desloca, como ele se desloca, se tem boa atitude, se é visualmente bonito de ver.

O rendimento que é o tamanho da passada, quanto menos passada ele der para percorrer aquela distancia, menos energia ele vai gastar. Então, é ideal que ele tenha elasticidade, uma passada ampla.

Por fim, a regularidade, que tem que começar e terminar a prova da mesma forma. O que o árbitro faz, ele pondera esses itens aí, nessa ordem de importância. Mas, como eu falei, o árbitro vai pesando os pros e contras de cada animal para chegar no resultado mais justo.”

Evolução da marcha

“No tempo que eu estou na raça, que tem quase 40 anos, tivemos varias fases. Mas no ano de 1997, que foi o difusor de água do Marchador, porque o sistema de julgamento mudou e mudou de uma forma radical. Ou seja, a marcha passou a ser avaliada num concurso de marcha, todo animal acima de 3 anos passou a obrigatoriamente ter que participar de um concurso de marcha para ele ser avaliado.

CBM Caxambu 2019
ABCCMM tem como objetivo fomentar cada vez mais a raça

Até 1997 não era assim. Antes quem participava do concurso de marcha era quem escrevia o seu animal, não era obrigatório, ela facultativo. A partir do momento que para ter acesso a morfologia você vai ter que passar por um concurso de marcha, a marcha passou a ser valorizada, e isso mudou a raça no sentido de valorização, no fomento da raça e na entrada de novos sócios.

A partir dai o Marchador passou a valorizar a marcha com muito mais força e chegamos atualmente a mais de 18 mil sócios.”

Perfil do marchador

“Apesar do Mangalarga Marchador ser uma raça ainda em formação – tem cerca de 200 anos, muito nova em relação as demais -, hoje já temos um padrão muito próximo como o ideal, ele é muito bem descrito. Já conhecemos todas as características necessárias para que ele seja um bom animal de raça.

Contudo, a morfologia está diretamente ligada a função. O Mangalarga Marchador só consegue fazer uma boa marcha se tiver proporções e angulações ideias, não adianta ter a angulação de uma raça de trote que ele não consegue fazer a marcha. Então, uma coisa está ligada a outra. Nós estamos a cada dia mais indo em direção a ‘morfofunção’, ou seja, uma boa morfologia levanta uma boa função.”

Futuro da raça

“O Mangarlaga Marchador tem uma preocupação de popularizar ainda mais os eventos, apesar de já ser uma raça popular. A gente não quer que os eventos sejam elitizados, ou seja, fiquem só para quem tem mais poder aquisitivo.

Então temos feito várias ações no sentido de popularizar as cavalgadas e os esportes. Embora a gente não seja uma raça específica para o esporte, a gente tem o nosso departamento de esporte. Atualmente, a gente tem lá todas as provas, como Team Penning, Tambor, Baliza, Apartação, etc.

Nós estamos fomentando também as cavalgadas. Por isso, fizemos a cavalgada dos recordes em Caxambu, com 1.600 cavalos. A intenção era bater o recorde do Guinness, mas faltou 30 e poucos animais para essa bater essa marca. Mas vamos fazer de novo ainda. Então, o futuro da raça é popularizar ela ainda mais do que é hoje”.

Por Natália de Oliveira
Colaboração: Adriana Moura
Crédito das fotos: Arquivo Pessoal/Carlos Sacchi

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