Cavalo Campeiro: o Marchador das Araucárias e a história de uma raça construída pela lida, pela família e pela preservação

Da formação no Planalto Serrano ao fortalecimento das provas funcionais, a raça carrega rusticidade, marcha, identidade cultural e uma história marcada por criadores que defenderam seu valor

O Cavalo Campeiro é uma das raças mais singulares do Brasil. Conhecido como o “Marchador das Araucárias”, nasceu e se consolidou no ambiente do Planalto Serrano, especialmente em regiões de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e áreas ligadas aos antigos caminhos tropeiros. É um cavalo formado pela lida, pela seleção natural, pela resistência ao clima, pelo trabalho no campo e pela convivência direta com famílias que preservaram, por gerações, um tipo de animal funcional, marchador, rústico e adaptado.

Sua origem remonta aos animais trazidos nas expedições espanholas ainda no período colonial. Com o passar do tempo, esses cavalos se espalharam pelas regiões de campos e pinheirais, cruzaram-se livremente e foram sendo selecionados pela necessidade do homem do campo. O que tinha resistência, comodidade, docilidade e capacidade de deslocamento em longas distâncias permanecia.

Foi assim que o Cavalo Campeiro se formou: não apenas em cabanhas ou registros, mas na realidade da vida rural.

A marcha é uma de suas principais marcas. Esse andamento cômodo, regular e funcional sempre foi um diferencial para quem precisava percorrer grandes distâncias, trabalhar com gado, enfrentar terrenos variados e passar muitas horas montado. Por isso, o Campeiro não é apenas um cavalo de beleza ou tradição. É um cavalo de uso, nascido para servir ao homem do campo.

A organização da raça só foi possível graças à visão de criadores que perceberam que aquele patrimônio genético precisava ser preservado. Entre os nomes ligados a esse movimento estão Ivens Arruda Ortigari, Osni Coninck, Ivadi de Almeida e outros criadores que entenderam a importância de defender o Cavalo Campeiro como raça própria, com identidade, padrão e valor histórico.

A iniciativa resultou na criação da Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Campeiro, em 1976. Posteriormente, com apoio técnico e institucional, a raça foi reconhecida pelo Ministério da Agricultura, em 1985, com a instituição de seu Livro de Registro Genealógico Oficial. Entre os nomes ligados a esse processo de homologação está Henrique Brinckmann, médico veterinário que teve papel importante na consolidação técnica da raça junto aos órgãos oficiais.

Esse reconhecimento representou mais do que um ato burocrático. Foi a confirmação de que o Cavalo Campeiro não era apenas um tipo regional de cavalo marchador, mas uma raça brasileira com história, função, padrão e importância cultural.

Com o passar dos anos, a preservação do Cavalo Campeiro deixou de ser apenas uma missão concentrada em Santa Catarina e passou a ganhar força também em outros estados do Sul. No Paraná, um dos nomes de destaque é Elizandro Pellin, advogado, criador pioneiro e vice-presidente da ABRACCC. À frente da criação Passo da São José, em Pranchita, na divisa com a Argentina, Pellin mantém um trabalho voltado à preservação e valorização do Cavalo Campeiro no território paranaense. Sua atuação também ganhou relevância no reconhecimento da importância histórica e cultural da raça no Paraná.

No Rio Grande do Sul, criatórios como o Haras Água Dura, da família Taddeucci, e o Haras Verde Alvorada, de Cassiano Ricardo Boff, em Caxias do Sul, também contribuíram para ampliar a presença e a qualidade da raça. O Água Dura é reconhecido como um criatório pioneiro no Estado, com trabalho iniciado ainda no fim da década de 1980 e presença constante em exposições e julgamentos. Já o Verde Alvorada, conduzido pelo médico veterinário Cassiano Boff, desenvolve um trabalho de seleção que valoriza a rusticidade, a marcha, a funcionalidade e a aptidão do Campeiro para a lida e para longas distâncias.

Esses criadores mostram que o Cavalo Campeiro segue vivo, em expansão e em constante aprimoramento. A raça preserva suas raízes históricas no Planalto Serrano, mas hoje também se fortalece por meio de criatórios que trabalham pela seleção genética, pela divulgação, pela participação em exposições e pela valorização de suas qualidades funcionais.

A relação da família Ortigari com o Cavalo Campeiro também atravessa gerações. Antes mesmo da formalização da raça, José Maria Arruda Filho, tio-avô de Ivens Arruda Ortigari, já estava entre os nomes que reconheciam e valorizavam os antigos cavalos marchadores do Planalto Serrano, destacando sua comodidade, resistência e utilidade no campo.

Décadas depois, essa ligação familiar teve continuidade por meio de Ivens Arruda Ortigari, que esteve entre os nomes ligados ao movimento de organização e preservação do Cavalo Campeiro. Ao lado de outros criadores e entusiastas, ele contribuiu para que a raça deixasse de ser apenas uma tradição regional e passasse a caminhar em direção ao reconhecimento institucional, com associação, registro e identidade própria.

Essa herança seguiu para seu filho, Ivens Ortigari Junior, que manteve viva a ligação da família com o cavalo, o meio rural e a valorização da raça. Na geração seguinte, essa história chegou a Ivens Ortigari Neto, que cresceu ouvindo, vendo e vivendo essa relação com os cavalos.

Mais tarde, após construir uma trajetória própria no universo dos cavalos de alta performance, especialmente no Cavalo Crioulo e nas provas funcionais, Ivens Ortigari Neto retornou ao Cavalo Campeiro com uma nova missão: unir a tradição herdada da família com técnicas modernas de preparo, condução, condicionamento e apresentação em pista.

Antes de se dedicar mais intensamente ao Campeiro, Ivens viveu a rotina exigente das provas funcionais do Freio de Ouro, trabalhando com profissionais como Guto Freire e Cláudio Fagundes. Essa experiência lhe deu uma visão mais técnica sobre preparo, rotina, condução, condicionamento e apresentação de cavalos atletas.

Ao retornar ao universo do Cavalo Campeiro, passou a aplicar parte desse conhecimento na preparação dos animais da raça. Sua proposta não era modificar a essência do Campeiro, mas elevar o nível de preparo, apresentação e competitividade, respeitando suas características próprias: marcha, rusticidade, docilidade, resistência e funcionalidade.

Com o tempo, sua atuação ajudou a fortalecer uma percepção importante: o Cavalo Campeiro pode e deve ser preparado como um atleta completo. A marcha não depende apenas da genética. Ela também é influenciada por condução, equilíbrio, sensibilidade de boca, condicionamento físico, rotina de manejo e qualidade da apresentação em pista.

Essa visão prática contribuiu para o avanço das provas funcionais e para uma nova leitura sobre o potencial da raça. Ivens Ortigari Neto participou de debates, construção de provas, ajustes de regulamentos e iniciativas voltadas à melhoria do julgamento e da apresentação dos animais. Em 2019, auxiliou Jorge Lucena em um curso voltado a técnicos e jurados, contribuindo para a discussão sobre critérios, avaliação e funcionalidade. Em 2022, durante a Exposição Nacional do Cavalo Campeiro, ministrou palestra sobre preparo e apresentação de animais em pista, reforçando a importância de elevar o padrão técnico sem descaracterizar a raça.

Esse tipo de contribuição é fundamental para raças em desenvolvimento. Quando uma raça amadurece, não basta preservar sua história; é preciso também organizar sua forma de competir, avaliar seus animais com critérios claros e preparar seus exemplares para expressarem melhor aquilo que têm de natural.

O Campeiro tem muito a oferecer. É um cavalo de sela, de marcha, de campo e de família. Reúne rusticidade, inteligência, docilidade, resistência e comodidade. Sua marcha é uma das marcas mais valorizadas, mas seu potencial vai além dela. É um animal que pode se destacar em cavalgadas, lida rural, provas funcionais, lazer, seleção morfológica e atividades que exigem equilíbrio entre conforto e utilidade.

Seu valor também está na cultura. O Cavalo Campeiro representa a memória dos tropeiros, dos campos de altitude, das fazendas serranas e das famílias que mantiveram seus plantéis mesmo quando a raça ainda não tinha o reconhecimento merecido. Cada animal carrega um pedaço dessa história.

Hoje, o desafio é unir preservação e evolução. Preservar o que torna o Campeiro único: sua origem, sua marcha, sua rusticidade e sua identidade. Evoluir no que fortalece a raça: critérios técnicos, preparo dos animais, profissionalização das provas, divulgação, registro, seleção funcional e valorização dos criadores.

O Cavalo Campeiro não é apenas o Marchador das Araucárias. É um patrimônio vivo do campo brasileiro. Um cavalo que nasceu da necessidade, resistiu pelo valor prático, foi preservado pela paixão de criadores e agora busca ocupar, com mais força, o lugar que merece entre as grandes raças nacionais.

Sua história continua sendo escrita. E, como toda raça verdadeira, ela se escreve com genética, memória, trabalho, pista, campo e gente comprometida com o futuro.

Por: Ivens Neto
Fotos: Arquivo Pessoal

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