Vaquejada Técnica: novo formato em estudo divide opiniões no meio equestre

Projeto desenvolvido com participação da ABVAQ, ABQM e profissionais da modalidade pretende avaliar todo o desempenho do cavalo durante a apresentação, mas proposta ainda passará por eventos experimentais

A criação de um novo formato de competição movimentou as redes sociais nos últimos dias e abriu um amplo debate entre competidores, treinadores, criadores e profissionais ligados à vaquejada. Chamada de Vaquejada Técnica, a proposta pretende avaliar não apenas o resultado obtido na faixa, mas todo o desempenho apresentado pelo conjunto durante a corrida.

Ainda em fase de desenvolvimento, o projeto está sendo construído com a participação da Associação Brasileira de Vaquejada (ABVAQ), da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM), além de treinadores, juízes e outros representantes da modalidade.

Segundo o presidente da ABVAQ, Pauluca Moura, a iniciativa deverá passar por eventos experimentais antes de uma eventual implantação definitiva.

“É um trabalho que está sendo desenvolvido em conjunto. ABVAQ, ABQM, vários treinadores e juízes estão criando um regulamento. A intenção é realizar alguns eventos e testes para analisar a viabilidade e a possibilidade de colocar o projeto em prática”, explicou.

Como funcionaria a Vaquejada Técnica?

Pelo modelo que está sendo discutido, cada apresentação receberia uma pontuação baseada em diferentes momentos da corrida. Entre os critérios estariam o desempenho do cavalo na saída da cancela, durante o percurso e na faixa.

A classificação, portanto, não dependeria exclusivamente do resultado final da puxada. Os juízes analisariam a apresentação como um todo, atribuindo notas conforme critérios técnicos previamente estabelecidos no regulamento.

Na fase classificatória, cada animal teria direito a três apresentações. A maior nota alcançada entre elas seria considerada para definir os classificados à final. Na decisão, os conjuntos voltariam a ser avaliados pelos mesmos critérios relacionados à cancela, à corrida e à faixa.

A proposta busca valorizar características como controle, precisão, posicionamento, condução e desempenho funcional do cavalo ao longo de toda a apresentação.

Modalidade seria realizada paralelamente

Um dos principais esclarecimentos feitos por Pauluca Moura é que o projeto não pretende substituir ou alterar o formato tradicional da vaquejada.

“O mais importante é ressaltar que será uma modalidade paralela. Ela não tem nada a ver com a vaquejada atual e não mexe na vaquejada atual. É uma nova modalidade que está sendo criada”, afirmou.

O presidente da ABVAQ comparou a iniciativa ao que já acontece em outras provas equestres que contam com versões baseadas no cronômetro e formatos nos quais a apresentação recebe notas técnicas.

“A gente estuda a possibilidade de criar uma nova modalidade. Ela não mexe absolutamente em nada no que já existe”, reforçou.

Proposta divide opiniões nas redes sociais

Desde que as primeiras informações foram divulgadas, profissionais ligados à vaquejada passaram a publicar vídeos e comentários favoráveis e contrários à criação do formato.

Entre os defensores, um dos argumentos é que a nova prova poderá reconhecer de forma mais ampla o treinamento e a qualidade funcional dos animais. Para esse grupo, avaliar diferentes etapas da corrida permitiria valorizar cavalos que demonstram controle, equilíbrio, precisão e regularidade, mesmo quando uma apresentação não termina com o resultado esperado na faixa.

Edvaldo Gonçalves, conhecido como Valreine, foi um dos profissionais que apresentou publicamente como o formato poderia funcionar. O treinador Steve Bezerra também aparece entre os nomes envolvidos na estruturação da proposta.

Outros participantes do debate entendem que uma competição baseada em notas poderia ampliar as possibilidades da vaquejada, criar um novo mercado e oferecer outro caminho para a avaliação de cavalos e competidores.

Por outro lado, parte dos profissionais demonstrou preocupação com a subjetividade do julgamento. Diferentemente do modelo tradicional, no qual o resultado é determinado pelo cumprimento das regras na faixa, a Vaquejada Técnica dependeria da análise e da pontuação concedida pelos juízes.

Entre os questionamentos também estão a definição dos critérios, a preparação dos árbitros, a padronização das notas e o risco de que diferentes interpretações influenciem o resultado.

O próprio nome escolhido para o projeto entrou na discussão. Alguns críticos consideram que a expressão “Vaquejada Técnica” pode transmitir a ideia de que a vaquejada praticada atualmente não exige técnica. Para esses profissionais, o formato tradicional já demanda treinamento, habilidade, posicionamento e entrosamento entre cavalo e vaqueiro.

Também existe o receio de que, mesmo apresentada como uma modalidade independente, a nova proposta possa futuramente exercer influência sobre as regras e os métodos de julgamento da vaquejada tradicional.

Regulamento ainda está em construção

Apesar da grande repercussão, a Vaquejada Técnica ainda não possui um formato definitivo. Os critérios de avaliação, a composição das notas, o número de classificados e outras regras permanecem em desenvolvimento.

Os eventos experimentais deverão ajudar os responsáveis a identificar ajustes necessários e avaliar se o modelo apresenta condições de ser implantado oficialmente. A experiência prática também será importante para verificar se os critérios podem ser aplicados de maneira clara, uniforme e compreensível para competidores, juízes e público.

Enquanto o regulamento é elaborado, o debate segue aberto. De um lado, estão aqueles que enxergam a proposta como uma oportunidade para valorizar ainda mais a preparação técnica dos animais. Do outro, profissionais que defendem cautela diante da subjetividade das notas e da possibilidade de impactos sobre a identidade da vaquejada.

Por enquanto, o ponto central destacado pelas entidades é que se trata de um projeto experimental e paralelo. A vaquejada realizada atualmente permanece com suas regras e sistema de disputa inalterados.

Por Heloisa Alves/Portal Cavalus
Fotos: Divulgação/Anderson Cavalcanti

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