No dia 15 de agosto, a Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM) completou 57 anos de fundação. Mais do que uma data comemorativa, o aniversário representa a consolidação de uma trajetória que acompanhou e impulsionou o crescimento de uma das raças mais importantes da equinocultura brasileira.
Desde a organização dos primeiros registros até a realização de grandes eventos, a ABQM desempenhou papel decisivo na preservação genética, na regulamentação esportiva e na valorização do Quarto de Milha. Ao longo de quase seis décadas, a entidade também contribuiu para transformar a raça em uma força econômica, esportiva e social presente em todas as regiões do país.
A chegada do Quarto de Milha ao Brasil
A história do Quarto de Milha em território brasileiro começou antes mesmo da criação da Associação. Em fevereiro de 1954, a Swift King Ranch trouxe dos Estados Unidos o garanhão Saltillo Jr. e seis éguas para a Fazenda Bartira, localizada no interior de São Paulo.
Vindos da matriz norte-americana King Ranch, no Texas, os animais inicialmente foram utilizados nos trabalhos com o gado. A força, a agilidade, a inteligência e a docilidade chamaram a atenção de pecuaristas e criadores brasileiros, que passaram a demonstrar interesse pela nova raça.
A expansão do plantel criou a necessidade de organizar a criação, definir critérios técnicos e estabelecer um sistema confiável de identificação e controle genealógico. Foi nesse cenário que surgiu a ABQM.
Fundação marcou o início de uma nova etapa
A Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha foi oficialmente fundada em 15 de agosto de 1969, durante um encontro realizado no Parque da Água Branca, em São Paulo.
A entidade já funcionava informalmente havia alguns meses e possuía estatuto e Regulamento do Registro Genealógico preparados. José Eugênio de Rezende Barbosa assumiu como o primeiro presidente, liderando a etapa inicial de estruturação da Associação.

Por concessão do Ministério da Agricultura e Pecuária, a ABQM passou a executar em todo o território nacional o Serviço de Registro Genealógico do Cavalo Quarto de Milha. A missão estabeleceu as bases para assegurar a origem, a identidade e a propriedade dos animais.
Na primeira gestão, entre agosto de 1969 e abril de 1971, foram registrados 184 animais puros. O primeiro deles foi Caracolito, que recebeu o número P000001 em 19 de março de 1970.
Nascido em 10 de março de 1957, o alazão tostado pertencente à Swift King Ranch tornou-se um dos grandes símbolos da fase pioneira do Quarto de Milha no Brasil.

De 184 registros para um dos maiores plantéis do mundo
O crescimento registrado nas décadas seguintes demonstra a dimensão alcançada pelo trabalho iniciado pelos fundadores. Em 2022, a ABQM já havia ultrapassado a marca de 656 mil animais registrados. No ano seguinte, a entidade informava reunir mais de 200 mil criadores e proprietários cadastrados.
Os números refletem a disseminação do Quarto de Milha pelo Brasil. A raça passou a ocupar espaço tanto nas propriedades rurais quanto nas pistas de competição, destacando-se pela versatilidade para o trabalho, o esporte, o lazer e a reprodução.
O desenvolvimento do plantel também foi acompanhado pela profissionalização de diferentes setores. Veterinários, treinadores, apresentadores, ferradores, transportadores, tratadores, nutricionistas, técnicos, organizadores de eventos e empresas especializadas passaram a integrar uma cadeia produtiva ampla, que gera negócios, empregos e renda.
Competições ajudaram a escrever a história da raça
A atuação esportiva tornou-se um dos pilares da ABQM. Ao longo dos anos, a entidade estruturou regulamentos, formou e credenciou jurados, implantou sistemas de pontuação e ampliou o calendário de provas oficiais e oficializadas.
O Campeonato Nacional, o Congresso Brasileiro, o Potro do Futuro, a Copa dos Campeões, o Derby e os Grandes Prêmios de Corrida estão entre os eventos que se transformaram em referências para os quartistas.

Atualmente, a ABQM reconhece 22 modalidades esportivas, contemplando diferentes habilidades do cavalo e perfis de competidores. As disputas envolvem provas de velocidade, trabalho, laço, manejo do gado, conformação e desempenho técnico.
O Campeonato Nacional tornou-se uma das maiores vitrines do Quarto de Milha. Em 2025, sua 48ª edição reuniu aproximadamente 11,4 mil inscrições, 1,9 mil competidores e 3,4 mil animais, com mais de R$ 4 milhões em premiações. Em 2026, o evento chegou à 49ª edição, mantendo Araçatuba, no interior paulista, como um dos principais centros da raça no país.
Inclusão e formação de novas gerações
A história da ABQM também passou a ser construída para além dos resultados esportivos. Projetos voltados às crianças, aos jovens e às pessoas com deficiência ampliaram o alcance social da Associação.
A criação da ABQM Jovem abriu espaço para a formação de novas lideranças e para uma participação mais ativa das novas gerações. A iniciativa aproxima crianças e adolescentes da entidade, incentiva o conhecimento sobre a raça e ajuda a preparar os futuros responsáveis pela continuidade do segmento.
Outro marco foi o desenvolvimento do Paratambor, modalidade que completou dez anos em 2026. Ao reunir competidores com deficiência nas provas de Três Tambores, o projeto mostrou a capacidade do cavalo de promover autonomia, confiança, integração e qualidade de vida.

Em sua trajetória, o Paratambor cresceu em participação e relevância. Durante o Campeonato Nacional de 2026, a modalidade alcançou cerca de 320 inscrições, consolidando-se como uma das principais ações de inclusão no esporte equestre brasileiro.
Reconhecimento a quem construiu esse legado
Preservar a memória da raça também se tornou parte da missão institucional. Criado em 2011, o Hall da Fama da ABQM homenageia personalidades e animais que contribuíram de maneira permanente para o desenvolvimento do Quarto de Milha.
Pioneiros, criadores, competidores, treinadores, dirigentes e exemplares que deixaram marcas importantes passaram a ter suas histórias eternizadas pela entidade. Entre os primeiros homenageados estiveram a King Ranch, responsável pela introdução da raça no Brasil, José Eugênio de Rezende Barbosa, Euclydes Aranha Netto e Heraldo de Araújo Pessoa Sobrinho.
O ABQM Awards, conhecido como o “Oscar do Quarto de Milha”, reconhece anualmente os melhores animais, competidores, criadores, proprietários, reprodutores e reprodutoras da temporada. As duas iniciativas aproximam passado e presente, valorizando aqueles que ajudaram a construir a força atual da raça.
Brasil ganha projeção internacional
O avanço técnico da criação brasileira também levou o Quarto de Milha nacional a ocupar posições de destaque fora do país. Animais nascidos e criados no Brasil, assim como treinadores, cavaleiros e amazonas brasileiros, passaram a conquistar resultados importantes em competições internacionais.
A aproximação com a American Quarter Horse Association (AQHA), entidade responsável pela raça nos Estados Unidos, fortaleceu o intercâmbio técnico e institucional. Em 2026, a retomada dos registros junto à associação norte-americana representou mais um passo na integração entre os dois países.

No mesmo ano, a juventude quartista brasileira alcançou o lugar mais alto do pódio no AQHYA World Championship Show, reforçando a qualidade técnica dos competidores e o trabalho de formação realizado no país.
Uma trajetória que continua sendo construída
Aos 57 anos, a ABQM reúne uma história marcada pelo pioneirismo, pela organização do registro genealógico, pela evolução das competições e pelo fortalecimento do Quarto de Milha como agente econômico e social.
O desafio agora é preservar esse patrimônio e, ao mesmo tempo, acompanhar as transformações da equinocultura. Tecnologia, bem-estar animal, sustentabilidade, formação profissional, inclusão e aproximação com os associados estão entre os temas que devem orientar os próximos capítulos.
Do primeiro registro de Caracolito aos milhares de animais que hoje movimentam pistas, propriedades e negócios em todo o Brasil, a trajetória da ABQM mostra que a história da entidade se confunde com a própria evolução do Quarto de Milha no país.
São 57 anos construídos por criadores, proprietários, competidores, profissionais, dirigentes e famílias que encontraram na raça mais do que uma atividade. Encontraram uma paixão transmitida entre gerações.
Por Heloisa Alves/Portal Cavalus
Fotos: Reprodução/Internet
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