Cavalo Lavradeiro entra em debate sobre lista de espécies invasoras em Roraima

Adaptada há mais de dois séculos às savanas do estado, população equina está no centro de uma discussão sobre possíveis impactos ambientais. A CNA questiona os critérios de avaliação, enquanto pesquisadores alertam para a redução do número de animais com as características do Lavradeiro

O cavalo Lavradeiro, que há gerações faz parte da paisagem e da lida rural de Roraima, entrou no debate sobre a lista federal de espécies exóticas invasoras. A possibilidade de enquadramento foi discutida em 23 de outubro pela Comissão Nacional de Equideocultura da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Na reunião, a entidade questionou os critérios considerados para incluir esses equinos na lista da Comissão Nacional da Biodiversidade (Conabio).

Até 5 de novembro, a apuração em fontes públicas não localizou uma decisão oficial que confirme a inclusão do Lavradeiro nem uma medida de controle destinada a esses animais. A Conabio instituiu em maio um grupo de trabalho sobre espécies exóticas invasoras presentes no Brasil. No caso de Roraima, ainda falta esclarecer publicamente quais populações de cavalos estão sendo avaliadas, em quais áreas e com base em quais impactos documentados.

Um cavalo moldado pelo Lavrado

O Lavradeiro descende de equinos introduzidos durante a colonização e está ligado à expansão da pecuária nos campos do Rio Branco. Por mais de dois séculos, bovinos e cavalos foram criados de forma extensiva nas pastagens nativas. Ao longo das gerações, os equinos desenvolveram características associadas à sobrevivência e ao trabalho nessas savanas, como o porte pequeno, a rusticidade e a resistência ao esforço prolongado.

Pesquisadores descrevem o Lavradeiro como um ecótipo, uma população com características próprias associadas à adaptação a um ambiente local. Em Roraima, esses cavalos são encontrados em fazendas e comunidades indígenas, sob criação extensiva, e também em grupos asselvajados. Essa diferença importa para o debate ambiental, porque as condições de criação e a presença de grupos em vida livre podem exigir avaliações distintas.

O que está em discussão na avaliação ambiental

A origem introduzida explica o uso do termo exótico. O enquadramento como invasor envolve outra questão, a ameaça que o estabelecimento ou a expansão de uma população pode representar para a biodiversidade. No caso do Lavradeiro, isso passa por identificar onde os cavalos circulam e quais efeitos sua presença tem sobre a vegetação, o solo e a fauna nativa.

Durante a reunião da CNA, a densidade estimada em determinadas áreas, de aproximadamente um cavalo para cada 400 hectares, foi citada para questionar a hipótese de impactos relevantes. A média ajuda a dimensionar a ocupação, mas deixa em aberto se os animais se concentram em pontos específicos e quais efeitos foram observados nesses locais. A apuração não localizou o parecer ambiental específico sobre o Lavradeiro. Sem esse documento, permanecem indefinidos o alcance da avaliação e os possíveis efeitos de uma eventual classificação sobre os animais em vida livre e os mantidos em propriedades ou comunidades.

De onde vem a estimativa de 2.895 animais

O número de 2.895 exemplares vem de um trabalho dos pesquisadores Ramayana Menezes Braga e Fernanda Carlini Cunha dos Santos. Eles partiram de uma estimativa de 14.473 equinos criados extensivamente em pastagem nativa em 2020 e calcularam que, no máximo, 20% atenderiam ao padrão proposto para identificar o Lavradeiro. Trata-se de uma projeção baseada nas características dos animais, sem uma contagem atualizada dos exemplares em vida livre.

O estudo aponta pressões que já afetam a conservação do ecótipo. A substituição de áreas de pecuária extensiva por lavouras reduz o espaço onde o Lavradeiro foi tradicionalmente criado. Ao mesmo tempo, a diminuição do número de criadores e os cruzamentos com outras raças tornam mais difícil manter uma população com as características descritas pelos pesquisadores. Entre as possibilidades levantadas no trabalho está a criação de núcleos de conservação, inclusive em comunidades indígenas.

Uma avaliação voltada ao manejo precisaria distinguir os grupos que vivem soltos dos animais mantidos por criadores e comunidades. Já para a conservação do Lavradeiro, o estudo aponta uma tarefa que antecede o debate sobre a lista federal. É preciso saber onde estão os exemplares que ainda reúnem as características do ecótipo e em quais locais há condições de manter esses animais ao longo das próximas gerações.

Com informações da CNA e Embrapa
Foto de destaque: Divulgação/Carlos Marques/Wikimedia Commons

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