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Cenário de filme é o lar de família brasileira que vive do cavalo

Buscando qualidade de vida, família Pucci transformou a paixão pelo cavalo em novos desafios na Argentina

Ronaldo, Alessandra, Giovanna, Rodrigo e Lucas Pucci vivem hoje em Bariloche, Argentina. No Haras El Padán, situado em Los Lagos, há 20 quilômetros de Bariloche, respiram cavalo 24 horas por dia. Em 2010 eles decidiram mudar do Brasil em busca de qualidade de vida, novos horizontes e mais segurança para os filhos.

A cidade, que fica na região da Patagônia argentina, junto à Cordilheira dos Andes, representa um cenário de filme. Sobretudo, pelas belas paisagens nos arredores, especialmente quando neva, e ainda uma natureza exuberante e tranquilidade para viver. Contudo, não foi uma adaptação fácil, principalmente pelas condições climáticas da região. Além disso, houve um choque cultural, inesperadamente, relacionado ao mundo do cavalo.

De acordo com o relato da família Pucci, encontraram uma zona muito pobre de informação e muito resistente em tudo que era relacionado ao cavalo, doma, treinamento, manejo, cuidados, entre outros. Visto que estavam acostumados a uma rotina muito diferente desde que começaram a se envolver no Quarto de Milha no Brasil.

Buscando qualidade de vida, família Pucci transformou a paixão pelo cavalo em novos desafios e se mudou para a Argentina, onde vive até hoje
Família Pucci

Diferenças e adaptação

Quando chegou à Patagônia, a família Pucci descobriu que o cavalo Quarto de Milha lá tinha rejeição por sua origem norte-americana. Havia abundância de cavalos de Corrida, levados às estâncias para o trabalho do dia a dia. Como não deu certo, as pessoas do meio na região não queriam saber da raça. Os brasileiros, então, tiveram que se reinventar. Acima de tudo, reinventar o modo como os animais eram tratados por lá.

Eventualmente, a experiência no Brasil os fez implementar um trabalho de base e difusão de um sistema de doma muito mais apropriado para o que estavam acostumados a lidar. Os argentinos usam um modo que remonta de 100 anos e que não funcionava mais nos dias atuais. Surgiu, assim, a ideia do centro de treinamento da família, voltado à doma, redoma, cursos, qualificação profissional e assessorias nas fazendas. Logo depois, em 2011, adquiriram o primeiro Quarto de Milha na Argentina, com linhagem de trabalho.

Uma aposta que se mostrou certeira quando os resultados obtidos com o animal chamaram atenção das pessoas envolvidas com cavalo nos arredores. Em virtude de uma exposição positiva, a família Pucci foi convidada pelo Haras El Padán, onde estão até hoje. Com a experiência do Brasil, ajudaram a implementar no local um plantel com genética  de trabalho, especialmente Rédeas, animais provenientes dos dois principais criadores da Argentina que importam cavalos do Brasil e Estados Unidos.

Acima de tudo, contam com ajuda ainda de profissionais de fora, como a veterinária Luli Kratschmer, o treinador Edvaldo Gonçalves e de Sergio Moraes, que trabalha com o método John Lyons.

Buscando qualidade de vida, família Pucci transformou a paixão pelo cavalo em novos desafios e se mudou para a Argentina, onde vive até hoje
Haras El Padán

Participação ativa no meio do cavalo argentino

Com as coisas mais estabilizadas hoje, a família Pucci está sempre presente nas provas de duas associações argentinas: CACCM – Criadores Argentinos do Cavalo Quarto de Milha; e ACRA – Associação de Cavalos de Rédeas da Argentina. A maior parte das provas é de Rédeas e boi, realizadas na região de Buenos Aires, a 1.700 quilômetros de distância do haras.

No dia a dia da família cabe não só a parte esportiva, como também atua na reprodução. O Haras El Padán vive a expectativa dos embriões e de futuros nascimentos de potros nas linhagens de Rédeas e boi, com o intuito de se tornar cada vez mais referência como criador e na localidade. Eles ainda desenvolveram um projeto de cavalgadas largas na Patagônia, chamado Patagonia Ranch Working, que foi pensado nos dias de trabalho de uma fazenda de gado da região.

Trabalham, atualmente, com 40 cavalos, 98% da raça Quarto de Milha. Pela falta de capacitação de pessoal, optaram por não tratar nenhum cavalo com ração ou grãos. Todos os animais, desde o nascimento, têm a base da alimentação com verde (alfafa) e sal mineral comum.

Eles não pensam em voltar ainda para o Brasil. Porém, acreditam que essa hora chegará no futuro.

Ronaldo

Ronaldo Quintanilha Pucci

Nascido em São Paulo, capital, 52 anos, Ronaldo Pucci é ex-proprietário da Austin Western, treinador e competidor de Laço de Bezerro. O contato com o cavalo começou muito cedo na fazenda da família ainda criança.

“Ainda pequeno, a primeira modalidade que tive contato, foi rodeio em cavalos quando minha babá fez minha inscrição na montaria de pequenas mulas para crianças, no Parque da Água Branca, em São Paulo. Depois de adulto, apaixonado pela modalidade Laço de Bezerro, treinei durante muitos anos com Ovídio Brito, Francisco Brito e Frederico Werneck. Hoje trabalho e pratico Laço Cabeça, Laço Pé, Apartação e Rédeas.

Nesse meio tempo, o cavalo mais marcante que passou pela minha vida, foi um neto de Shinning Spark, chamado Shinning Beauty. Domado e treinado por mim, que tornou-se o que se conhece como All-Around, ou seja, um cavalo completo. Ele podia apartar, laçar bezerro, laçar cabeça e trabalhar em cow horse, como se fosse para ele a coisa mais natural. Como garanhão deixou ótimos filhos.

A prova que mais marcou minha carreira foi com uma égua Wimpy Little Step, uma prova de versatilidade com as modalidades Ranch Cutting, Ranch Cow Horse, Team Penning, Ranch Sorting e Conformação. O juiz era o atual presidente da AQHA, Sr. Jim Heird, consagrando a égua grande campeã. Cavalo pra mim é vida, cumplicidade e força.”

Buscando qualidade de vida, família Pucci transformou a paixão pelo cavalo em novos desafios e se mudou para a Argentina, onde vive até hoje
Alessandra

Alessandra Rocha Pucci

Natural de São Paulo, como o marido, Alessandra Pucci, 47, é formada em Turismo, pela Faculdade Anhembi Morumbi, atuando hoje no Haras El Padán na administração e publicidade.

“Meu primeiro contato com cavalos foi quando estudava no colégio do Jockey Club de São Paulo. Uma amiga que fazia Hipismo Clássico na Hípica Paulista me levava com ela. Apaixonada pelos rodeios, e pela modalidade Três Tambores, meu mundo no cavalo começou em 1997. Fui levada pela amiga Anália Fonseca, competidoras de Três Tambores e Breakaway Roping, à Hípica Versátil, na época ainda localizada em Arujá/SP.

Conheci o treinador Abelardo Peixoto, hoje presidente da NBHA Brasil, que me convidou para provar uma aula. Desse dia em diante, comecei a aprender, treinar, me dedicar e me apaixonar cada vez mais. Assim como conheci também a modalidade Seis Balizas, que foi outra disciplina que acabei me dedicando.

Durante a minha trajetória no Quarto de Milha, montei muitos cavalos, mas dois deles marcaram muito a minha vida. Um filho de Docs Gamay, chamado Peppys Gamay HED, foi um cavalo que me proporcionou muitas alegrias e vitorias. Muitas provas ficaram marcadas, mas uma delas que vale destacar, foi em 1999, no Congresso Brasileiro da ABQM, em Presidente Prudente/SP. Fui consagrada campeã em Baliza. Outro cavalo importante, mas daqui da Argentina, foi uma égua chamada Chacayal Bandolera, que também foi consagrada campeã em 2015 no Campeonato Nacional de Tambor. Pra mim, o cavalo é amor sem limites.”

Giovanna

Giovanna Rocha Pucci

Aos 16 anos, Giovanna Pucci, natural de São Paulo, vive em Bariloche, cursando terceiro ano do colegial.

“Meu contato com o cavalo foi em casa, ainda bebê, quando meu pai laçava e eu ficava na pista dentro do carrinho. Conheci o Laço e o Tambor ao mesmo tempo, quando meus pais competiam no Brasil. Minha paixão pelos cavalos, sem dúvida, está no meu DNA. Em 2017, fizemos uma viagem aos Estados Unidos, para assistir o NRHA Futurity, e visitamos o Cardinal Ranch, quando me chamou atenção a modalidade Rédeas.

Um mês depois, o Franco Bertolani veio para a Argentina para um curso, desse modo venho praticando e aprendendo a amar cada vez mais a disciplina. Em 2018, representando Argentina, participei do Rédeas de Ouro no Paraná, trazendo um troféu de segundo lugar. Em seguida, em 2019, mais uma vez representando Argentina, participei da primeira ANCR International Open. Outro resultado veio no começo de 2020, quando participei de uma prova do Núcleo Anhanguera, no Brasil, com a égua Sweet Peppy Uba, de propriedade do Gilson Vendrame, ficando em segundo lugar.”

Buscando qualidade de vida, família Pucci transformou a paixão pelo cavalo em novos desafios e se mudou para a Argentina, onde vive até hoje
Giovanna

Objetivos e sonhos

“Assim sigo com meu objetivo, que é continuar aprendendo e me aperfeiçoando nos Estados Unidos, com os melhores treinadores e ser uma excelente profissional futuramente. Hoje em dia, meu pai é meu treinador e sempre que posso e a escola me permite, participo de cursos e viajo para o Brasil para seguir aprendendo com Gilson Vendrame, que me ajuda, me ensina e me leva com sua equipe de trabalho para participar das provas.

O cavalo que mais marcou a minha vida foi meu primeiro cavalo de Rédeas, Rey Jay Shiners, que meu pai comprou no curso do Franco aqui na Argentina. Com ele, fui campeã em 2019 no Campeonato Nacional, na cidade de Córdoba. Como resultado, fui classificada para o mundial de 2020. Outra prova marcante foi a Copa Haras El Padán realizada em março de 2020, que ganhei atingindo 214,5 a melhor nota da prova e ainda batendo meu recorde em pista.

Pra mim, o cavalo representa amor, paixão, liberdade, cumplicidade, felicidade, lealdade e força. Quando estou com ele me sinto completamente livre, nada me preocupa, só estamos nós dois, uma sensação positiva que sempre quero sentir. Uma felicidade e um amor extremamente grande. É meu lugar acolhedor.”

Por Luciana Omena
Crédito das fotos: Arquivo Pessoal

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