A cidade contribuiu para o crescimento e desenvolvimento da raça no Brasil, sendo nela instalada a primeira sede da Associação dos Criadores do Cavalo Quarto de Milha

Quarto de Milha chegou ao Brasil em 1955, trazidos pela Swift King Ranch. A partir daí, começou a ser difundido em todo Brasil. Primeiro em Presidente Prudente, Araçatuba e, logo depois, em Bauru, todas cidades paulistas. E Bauru acabou se tornando um grande reduto da raça.

Em 1968, Heraldo Pessoa Araújo, médico, que é de Bauru/SP, soube através do amigo Carlito Guilherme, mais conhecido como Carlito Boiadeiro, que criavam QM na Sorocabana, na Swift King Ranch. “Ele me contou que uns americanos criavam uns cavalos Quarter Horse na Sorocabana, animais de cowboys. E aí, Roberto Ferraz, irmão do meu amigo Marcos Ferraz, disse que conhecia um criador de Araçatuba e nos convidou para conhecer”, lembra Dr Heraldo.

Era Francisco Furquim Correa, Chiquito. E foi o começo de tudo. Rogério Ferraz, filho de Marcos Ferraz detalha um pouco mais desse início. “Eles arrendaram um cavalo do Chiquito Corrêa, de Araçatuba, naquela época registrava filho de garanhão 15/16 que é mestiço. Resolveram, então, comprar um potro puro na King Ranch, chamado Cacareco Brasil (foto de chamada). O início da criação do Quarto de Milha em Bauru foi esse”.

E o envolvimento foi tanto que no mesmo ano, Guilherme Ferraz, outro irmão de Marcos, como investidor, teve a ideia de convidar Heraldo para ir aos Estados Unidos para importar alguns animais. “Marcos não quis continuar a sociedade, então o Guilherme ficou como meu sócio e o Marcos seguiu sozinho”, recorda Dr. Heraldo.

Então ele, junto com Guilherme, importou 25 animais PO, sendo 15 éguas do 666 Ranch, tendo como garanhões Double Bull e Hijos Flash, além do Hondo Ranchero, do Callan Ranch e criação do King Ranch. Durante a viagem, visitaram a sede da AQHA, em Amarillo, Texas, e conheceu o então Secretário Executivo Don Jones, que havia morado no Brasil como dirigente do frigorífico Wilson. Foi um contato que ajudou muito posteriormente.

Rogério conta que quando eles fizeram as importações, não tinham onde colocar os animais. “Então ficaram na fazenda do meu pai, que posteriormente vendeu uma parte para que eles montassem o haras”. Heraldo completa: “montamos ali o Bauru Haras, onde é hoje o Haras Prata. Acabou virando uma referência na cidade, pois da Marechal Rondon dava para ver sua imponente estrutura. A criação de cavalos Quarto de Milha criou força e a partir daí vieram novos criadores”.

Na volta de sua viagem aos Estados Unidos, Heraldo começou a buscar criadores, chegando a 40 nomes. Endereçou cartas a todos, perguntando se haviam interesse de terem registro de seus animais e quantos animais possuíam. Desses, 38 responderam ao chamado. “Eu havia vendido dez embriões e recebido antes. O comprador queria registro. Assim, fui buscar interessados na criação”, detalha Heraldo.

Fundação ABQM

E em 1969, Heraldo Pessoa Araújo, juntamente com Ruy Assumpção, Euclides Aranha, José Eugenio Resende Barbosa, Antônio Carlos Quartin Barbosa e Renato Eugenio Resende Barbosa, dentre outros, em número de 15 presentes, fundaram a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Quarto de Milha., a ABQM. Confeccionaram a ata de fundação em São Paulo, com sede em Bauru.

A primeira convenção foi feita em Maracaí, próximo a Presidente Prudente, no Haras Santa Rita. A ABQM ficou funcionando na cidade de Bauru, no escritório médico de Dr. Heraldo, por nove anos. “Quando mudei para a Bahia, o presidente da época Sergio Paes de Almeida e Samir Jubran, mudaram a Associação para o Parque da Água Branca, em São Paulo. No período que ficou em Bauru, tínhamos um funcionário que contribuiu muito”.

Dr. Heraldo conta que Toiocazu Sakata desenhava certificados, “mas se envolveu tanto, que no fim fazia todo processo. Realizava o trabalho de dez funcionários”. A ABQM precisava documentar os animais, isso era fato. Na época, segundo Heraldo, que ocupava o cargo de secretário, junto com Paulo Lane e Chiquito Correa, faziam o trabalho de inspeção.

“E tivemos como primeiro diretor Guido Petinase, agrônomo da Ultrafertill. Nessa época, Emilio Fanton prestava inestimável trabalho, pois foi oficialmente o primeiro inspetor da ABQM, depois passando para diretor”, detalhou Dr. Heraldo.

Emilio Fanton lembra muito bem desse processo e conta com detalhes. “Em 1972, com sede em Bauru, em uma sala sobre o consultório do Dr. Heraldo Pessoa, fui convidado a ser o primeiro diretor do Registro Genealógico Efetivo do Quarto de Milha no Brasil. Nessa época, eu tinha uma Clínica Médica Veterinária, que era a quarta clínica do interior paulista”.

Muitas histórias foram lembradas por Emilio desse período, que em 48 anos como inspetor registrou cerca de oito mil animais. “Como inspetor para toda ABQM, era muito difícil chegar nos 100 cavalos registrados ao ano. As distancias eram longas. Os animais eram mestiços na sua maioria”.

1988 Campo Grande – Equipe Anhanguera de Bauru

Ele se lembra de uma vez que foi registrar quatro éguas de Antônio José Junqueira Vilela, no Rio do Sangue, em MT. “Fomos de avião, uma aventura para época. Chegava a ficar semanas fora de casa, porque era um animal em cada canto. Os anos passaram e eu assisti este crescimento enorme da raça, que a cada dia se torna mais desenvolvida nos processos organizacionais e melhorando sua genética de forma incrível”, recorda.

“Os primeiros julgamentos, eram feitos por leigos, mas conhecedores da raça para a época. O Dr. Heraldo, outra lenda viva, organizava tudo dentro da lei e das regras. Organizou um curso oficial com a participação de várias pessoas, sendo que o único na época habilitado pela profissão de Médico Veterinário era eu. Assim, me transformei no primeiro Juiz Oficial”.

Haviam outros que também julgavam nesse começo, até por falta de pessoas devidamente credenciadas. “Na verdade, eu lutava para fomentar a raça. Ótimos juízes se fizeram, mas o Boldrini sempre foi um líder destes profissionais em épocas mais adiantadas”, reforça Emilio.

E muitos começaram a criar Quarto de Milha em Bauru logo depois, como Fauzet Farha, Érico Braga, Francisco Bertolani, dentre outros. Em seguida, vieram os criatórios Haras ST, do Dr. Marcio Tolentino, Haras Fanton, de Emilio Fanton, Haras Canarim, e foram aumentando os amantes da raça nesta região. Pessoas com papeis importantes para o esporte e para raça como Willian Koury, Salvador de Almeida.

Bauru já tinha um espaço para eventos e provas, o Recinto Mello Moraes, espaço doado pela Família Ferraz na década de 40, para que a cidade tivesse um lugar para exposições. “Meu avô doou as terras por amor a Bauru, aos cavalos e ao boi. Doou para o estado, porque já tinha doado espaço para a hípica, mas não havia um lugar para exposição. E hoje o recinto é da Prefeitura, com concessão para a Associação Rural do Centro Oeste Paulista, a ARCO”, conta Rogério Ferraz.

Emilio julgando na Expo Bauru 86 etapa do Nacional

É no Recinto Mello Moraes que foram realizados muitos encontros e os esportes equestres começaram a ser difundidos. Em Bauru acabou se sobressaindo os Três Tambores e as Seis Balizas. Algumas provinhas já aconteciam ali. Algo que foi bastante frisado pelos participantes daquela época, sendo que alguns estão até hoje no mercado, é que a família sempre esteve envolvida. Foi o incentivo para que os filhos participassem o principal papel pedagógico.

“Naquela época, era tudo sacrifício e dedicação. Sempre bati que tínhamos que estimular as crianças. Até nas provas, podia montar qualquer animal e o foco era primeiro envolver as crianças. Meus quatro filhos montavam e desde pequenos. Começaram com Seis Balizas e Três Tambores. Era um aprendizado e depois foram se especializando”, enfatiza Heraldo.

Em 1974, foi inaugurado o Rancho Quarto de Milha, em Presidente Prudente, que por muitos anos foi um polo grande de competições. As provas eram todas organizadas pelo Heraldo. O Campeonato Nacional na época era feito em cinco etapas em diferentes estados. “Eram etapas estaduais e não regionais. Nos reuníamos em grupos e viajávamos em comitivas de caminhões e ônibus. Não existiam trailers. A princípio, íamos a Uberaba, Brasília, Ribeirão Preto, Curitiba e Rio de Janeiro”, lembra Emilio.

Haroldo Pessoa de Araujo Sobrinho, Loly, um dos filhos de Dr. Heraldo, nessa época tinha 12 anos de idade e lembra bem a festa que era participar das provas do Nacional. “As provas do Campeonato Nacional eram itinerantes, então a gente fretava ônibus e ia todo mundo. Nomes que vocês conhecem até hoje como Franco Bertolani, Rogério Ferraz, Paulo Farha, eram meus companheiros nessas viagens”.

Loly também lembra da primeira convenção do Quarto de Milha em 76, em Goiânia. “Meu pai que montava as provas. Fomos todos para lá, pegamos uma parte do parque e montamos um camping, a molecada só ficava lá, pessoal do Prudente e fazia uma cozinha tudo junto. Era muito mais família, hobby, diversão do que é hoje. Empenho de fazer que os filhos se envolvessem foi determinante”.

Maneabilidade e Velocidade

E Bauru estava presente em todos esses momentos, até quando a primeira pista em tamanho oficial foi construída na cidade. Com a formação do Clube do Laço, em 1975, acabaram sendo criadas as equipes e assim participavam dos Campeonatos da ABQM. Eram todos uniformizados. As mães e os pais literalmente vestiam a camisa.

Década de 80

Os campeões da época eram o Benedito Moreira e o Jairo Martins. Depois veio o Marcão Toledo. Todos celebrados como lendas da raça Quarto de Milha. Assim como o Clube do Laço, outros núcleos começaram a ser criados, como Presidente Prudente, e os esportes começaram a se desenvolver.

Emilio Fanton lembra de nomes que marcaram a história da raça, tendo grande relevância para o esporte e a criação. “Pessoas que foram importantes nessa época: Salvador de Almeida, Francisco Bertolani, Willian Cury, Adi Gilberto Zambon, Erico Braga, Fauzet Farha, Marcos Ferraz, Pérsio Norato, Amauri Bortoleto, Familia Medeiros de Prudente, Família Biazzi de Novo Horizonte, Marcos Ferreira e Sá e família, Carlos Marçano, Rui Moraes Terra e tantos outros, aos quais pedimos desculpas pela omissão traída pela memória”.

“Justiça seja feita in memorian ao Luiz Antônio Boldrim. Um ícone verdadeiro na raça já na década de 80, que muito contribuiu pela sua dedicação e postura técnica como Juiz e inspetor dentre outras atribuições. Criadores importantes existiam na época, como o Cacau. Mas fazemos destaque à Família Whirtz, que até hoje tem os genes predominantes em tropas de elite como ZD. O Macário também já aparecia no circuito como um dos maiores divulgadores do Cavalo Quarto de Milha a nível nacional”.

Da esquerda: Bruno Dias P. Gomes, Robledo Barbosa Goulard Jr., Fernando de Araújo, Ovídio Vieira Ferreira, Ricardo Fanton, Francisco Ramos, Roberto Abdalla, Wilson Carlos de Almeida Jr. e Talita di Paula Chaul

Década de 90

Em 1991, foi realizado o 1º Congresso Brasileiro da raça Quarto de Milha, em Bauru, e foi um estouro de evento. Nesse tempo, Érico Braga era o presidente da ABQM. Os eventos oficiais da Associação aconteceram por muitos anos no Recinto Mello Moraes, até um promotor embargar as provas de Laço. Com proibição até hoje desta modalidade na cidade.

Em 1995, foi fundada a ABQM Jovem, durante o 5º Congresso Brasileiro da raça Quarto de Milha, em Goiânia. E o primeiro presidente foi um competidor de Bauru, Ricardo Fanton, tendo como vice Beto Abdala. O sócio número da ABQM foi Henrique Pessoa, em homenagem ao avô, Dr Heraldo. E tudo foi se desenvolvendo, evoluindo cada vez mais.

Em 1996, foi fundado Núcleo Bauruense do Cavalo Quarto de Milha/NBQM. Filhos dos que participaram ativamente do início da ABQM até hoje estão inseridos na Associação, a exemplo de Paulo Farha, que foi presidente por dois mandatos e ainda faz parte do Conselho.

E a ABQM se tornou a potência que é hoje, sendo a maior associação de raça do Brasil, com Bauru se tornando o berço da raça, já que a maternidade foi Presidente Prudente.

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Por Verônica Formigoni
Fotos: Cedidas

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