A trajetória, as conquistas, os percalços e a glória de uma cowgirl. Com a ousadia de empreender, apresenta tendências da moda americana para as competidoras brasileiras

Qual menina, amante dos Três Tambores e dos rodeios, não sonha em competir nos Estados Unidos? E imagina morar lá e se tornar uma cidadã americana? Pois é, Patricia Costa Marchi, ou como é conhecida, Paty Cowgirl, conquistou e tornou esse sonho realidade.

A trajetória dela rumo a terra do ‘Tio Sam’ começou na Escola Agrícola de Jacareí/SP, onde conheceu Guilherme Marchi e juntos trilharam uma linda caminhada, que os levaram para o Texas. “Tivemos a oportunidade, fomos embora e vivemos o tão almejado ‘sonho americano’. Nos instalamos em Fort Worth, Texas, morando e um rancho. A vida e rotina da família, que sempre foi de muito contato com mundo de rodeios e provas, se intensificou”, começa contando Paty.

Mudanças aconteceram, houve muito aprendizado e hoje Paty sabe muito bem a importância de cada um deles. No Brasil, o competidor, treinador tem toda uma equipe de apoio em cada competição. Nos Estados Unidos já é bem diferente e Paty passou por todas essas fases.

“Esse esporte depende de dois atletas, por isso a importância de uma sintonia entre o animal e o competidor. Essa relação é estabelecida no dia a dia, com muita disciplina, foco, dedicação, objetivo e superação diária. O trabalho é feito através de uma equipe”.

Paty com os filhos no rancho quando ainda eram pequenos

Paty reforça que por trás de todo competidor existe um staff que faz toda a diferença e nem sempre são lembrados, são eles: treinador, veterinário, ferrador, tratador. “Aqui nos Estados Unidos nem sempre existe essa estrutura. Cada competidor acaba fazendo o papel do treinador e tratador. Em contrapartida existem outras facilidades, por exemplo, compra de equipamentos, trailers, as viagens para os campeonatos”.

Ela conta que existem ‘motéis’ para cavalos nas estradas, onde é possível hospedar os animais, e postos de combustível que possuem áreas com estrutura para descanso do animal. “Nesses locais há também o descarte dos dejetos com a devida preocupação do meio ambiente e o bem-estar do animal, o que ainda não existe no Brasil”.

Ela participou de vários rodeios nos Estados Unidos representando o Brasil, como em 2011, o World Barrel Racing Challenge, juntamente com mais cinco competidoras. Paty tem algumas fivelas ‘gringas’ como a do rodeio de Forth Worth, Texas; Mesquite,Texas; Stenphiville, Texas. “Porém, o que mais marcou foi em Las Vegas. Foi um evento muito importante, até porque nunca tinha dirigido com trailer e cavalo por mais de 24 horas e foi uma experiência incrível!”

Mesmo com outras atividades, ela nunca deixa de competir. Quando passou a correr no circuito mundial da PRCA, foi um ano bem intenso. “Eram mais de três eventos por semana para poder comprar meu Permit, que é o cartão da PRCA para novatos no circuito. E depois outra maratona para conseguir adquirir o Card, que é o cartão que permite correr nos rodeios grandes”, explica.

Nos Estados Unidos, competidor acaba fazendo o papel do treinador e tratador

Para alcançar essas duas ‘permissões’, todo competidor precisa ganhar uma quantia em dinheiro pré-determinada. Então, tem que ir para a estrada. As cowgirls americanas estão sempre se profissionalizando e Paty também foi em busca de se profissionalizar. Após um grave acidente em um rodeio da PRCA, que a deixou seis meses na cadeira de rodas, só pode voltar a competir após um ano.

“Nós competidores, atletas, temos quer dar a devida atenção que é um esporte de velocidade e estamos sujeitos a lesões como qualquer outro. Por isso a importância do uso do capacete. Temos que cuidar sempre do físico e do nosso mental para ter um bom desempenho nas provas. Disciplina e foco sempre foram muito importantes para minha recuperação. Após seis meses na cadeira de rodas, um período de fisioterapia, consegui voltar”.

Viver longe dos cavalos é algo inimaginável para Paty. “A prova de Três Tambores sempre foi minha paixão. Mesmo após o acidente e vida de mãe, competidora e empresária, sempre arrumo tempo para conciliar as provas. Até porque minha filha Manuela também é competidora dos Três Tambores”, relata.

Após o acidente, muitos perguntaram se ela não ficou com medo de voltar a competir, e a resposta foi de uma verdadeira amazona. “Digo que fiquei com medo de não voltar a competir! E sempre falo para que ninguém desista dos seus sonhos, do que faz seu coração bater mais forte”.

Ensaio da família especial para a Revista Tambor & Baliza

A atleta e empresária se inspira muito em uma frase do grande ídolo Ayrton Senna: ‘seja você quem for, seja qual for a posição social que você tenha na vida, a mais alta ou a mais baixa, tenha sempre como meta muita força, muita determinação e sempre faça tudo com muito amor e com muita fé em Deus, que um dia você chega lá. De alguma maneira você chega lá’.

Paty também investe em grandes genéticas nos seus animais, atualmente tem filhos e netos de Designer Red. “A linhagem do Designer Red me fascina por produzir cavalos inigualáveis em habilidade atlética, inteligência, vontade de trabalhar e resistência. Acho uma linhagem incrível para os Três Tambores e ele já têm vários filhos e netos se destacando e ganhando títulos muito importantes. No Brasil, seus filhos somam mais de 2,3 mil pontos de RMT, mais de R$ 870 mil em ganhos, segundo o SGP Sistema, e 25 tempos na casa dos 16 segundos”.

Ser mãe!

Patricia tem dois lindos filhos, Manuela, 14, que foi para o Texas com três meses de vida, e João Gabriel ‘JG’, 11, que nasceu lá. Eles amam o Brasil, mas a vida deles é nos Estados Unidos.

“Eu procuro manter viva a cultura brasileira, principalmente o idioma, falando português dentro de casa. Eles amam quando vão para o Brasil, a família, os amigos a comida”, relata.

Mãe coruja, ela conta que cada um tem seu estilo. Manuela gosta de cavalos, faz Três Tambores, já JG é bem urbano. Manu Marchi começou a competir em 2016 e chegou a estar classificada em primeiro lugar para State Finals. Além das competições entre escolas, ela compete também nas provas abertas.

Manu, JG e Paty

No Texas existe um incentivo do governo para que crianças pratiquem esportes. “Nas escolas do ensino médio, a High School, eles organizam competições de rodeio, que incluem os Três Tambores. E geram créditos, podendo ser convertidos em bolsa de estudos para a faculdade. E existem cursos extras curriculares sempre envolvendo o mundo rural, para que os adolescentes ao concluírem o ensino médio também tenham conhecimentos técnicos”, detalha Paty.

O caçula JG não curte muito os rodeios, mas é ele que auxilia a mãe e a irmã nas provas. Além de ser a pessoa que descontraí o ambiente no dia a dia com seu jeitinho brincalhão de ser. “O JG é mais urbano, adora esportes, joga futebol americano e basquetebol, é fã de motocross. Mas ele acompanha a gente em todos os campeonatos auxiliando no check list do trailer e acessórios. Durante a viagem ele é o responsável pelo clima de descontração e animação”.

Amor pelos cavalos

A história de Patricia Marchi com os cavalos começou na adolescência. O avô era fazendeiro, mas não foi o que a tornou uma amazona. “Aos 13 anos de idade uma amiga me levou para conhecer um Haras, o antigo Jockey de São Jose dos Campos/SP. Foi quando eu me descobri como uma cowgirl. Não conseguia me imaginar em outro lugar a não ser ali, apesar de todos os contras da família, que tinha um receio de me ver montando a cavalo”, relembra.

A partir dai, todos os dias após a escola, ela ia para o haras. Essa amiga era criadora de cavalos da raça Crioula e competidora. “Meu interesse era tanto que comecei a treinar e competir com cavalos emprestados. Por conta da raça que eu tinha contato, nessa época eu competia na modalidade Freio de Ouro. Após um tempo que fui conhecer e descobrir outras modalidades, e conheci a raça Quarto de Milha”. Foi nesse momento que ela se encontrei nos Três Tambores.

Aos 14 anos já estava competindo e, segundo ela, foi um encontro sem volta. Cada dia que se passava se apaixonava mais pelo esporte. “Comecei a competir em provas e rodeios na região do Vale do Paraíba. Tive a oportunidade de fazer intercambio no Canadá e Estados Unidos e nesse período busquei conhecimento técnico voltado a cavalos e competições nos Estados Unidos”.

Aproveitou essa oportunidade para fazer vários cursos, com nomes importantes do cenário mundial como Charmayne James, Martha Josey, Jannet Strover e Dena Kirkpatrick. “Quando retornei ao Brasil, tentei conciliar a faculdade com as provas. Comecei a me dedicar mais profissionalmente aos cavalos, me associei a antiga a Federação Nacional do Rodeio Completa e também na Associação Nacional dos Três Tambores – ANTT. Minha vida eram os cavalos e os rodeios, algo viciante”, declara.

Empreendedora nata

A veia de empreendedora também sempre esteve presente em sua vida, aproveitando as oportunidades e observando tudo que podia ser feito. Aos 17 anos, comprava roupa em São Paulo e revendia em São José dos Campos, a sua cidade. “Quando retornei do intercambio, abri minha primeira loja de roupas, buscando um diferencial. Ao perceber que o mercado não tinha muitas opções para os tamanhos plus size, foquei nesse nicho”, recorda.

Como sempre se vestiu muito bem, Paty acabou virando uma referência para as competidoras dos Três Tambores. Quando vinha ao Brasil competir, estava com algum acessório ou roupa diferente que tinha adquirido nos Estados Unidos. E isso deixava as cowgirls brasileiras ‘doidas’.

Stand Paty Cowgirl Bootique, em Avaré/SP – Campeonato Nacional ABQM

“Vi aí mais uma oportunidade. Comecei levando poucas peças e especificas, até que resolvi empreender e abrir a loja física no Brasil, com produtos importados diferenciados, exclusivos e de alta qualidade. Assim surgiu a Paty Cowgirl Bootique”, fala com entusiasmo. A loja está presente nos maiores eventos da raça Quarto de Milha e nas principais provas de Três Tambores do Brasil.

E para facilitar ainda mais para suas clientes, e dando um leque maior de opções, Patricia lançou recentemente a loja online – www.patycowgirl.com.br. E essa não é a única função empreendedora que Paty Cowgirl exerce. Ela também faz um trabalho de assessoria para competidoras que sonham em competir e passar uma temporada nos Estados Unidos.

“Atendendo ao pedido de amigas e clientes que sonham em competir aqui, resolvi dar assessoria para as amantes dos Três Tambores. Ajudá-las em tudo aqui no circuito do Texas, arrendando cavalos, trailer e levando para provas e rodeios. Todo mês recebo competidoras”. Para quem se interessar, basta enviar e-mail para patycowgirlbootique@ gmail.com. E ela avisa: são poucas vagas!

Para finaliza, Paty agradece a todos que a apoiam. “Agradeço incondicionalmente aos meus pais Zilnei e Guilherme, aos meus filhos Manuela e João Gabriel, que são tudo na minha vida e estão sempre ao meu lado dando todo apoio. E também todos os meus clientes, que procuro a cada evento ampliar essa lista e que muitos se tornam amigos.”

Por Verônica Formigoni
Fotos: Kirstie Mary Jones
Na foto de chamada, Paty durante o PRCA Rodeo Marshal em 2016

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