Uma década separa as primeiras apresentações do Paratambor de uma categoria consolidada no calendário da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM). Em 2026, a modalidade completa dez anos de uma trajetória marcada pelo crescimento do número de competidores, pela criação de regras próprias e, sobretudo, pela busca para que os paratletas sejam reconhecidos pelo desempenho esportivo dentro das pistas.
O projeto foi apresentado durante o 39º Campeonato Nacional ABQM, em 2016, com a participação de apenas três competidoras: Tarciana Alencar, Thaline Pádua e Veridiana Real. Conhecida como Veri Real, Veridiana tornou-se embaixadora da categoria e uma das principais vozes em defesa de sua estruturação.
Dez anos depois, a ABQM contabiliza 110 paratletas cadastrados. Na 49ª edição do Campeonato Nacional, realizada em Araçatuba (SP), o Paratambor recebeu 32 inscrições, de acordo com o Sistema de Esportes do Quarto de Milha (SEQM). O número considera as diferentes participações dos competidores nas divisões da categoria e revela a dimensão alcançada pela modalidade.
Mais do que uma ampliação quantitativa, a década foi acompanhada por avanços no regulamento, na classificação por handicap, nas premiações e no reconhecimento dos resultados. A evolução transformou uma iniciativa pioneira em uma disputa esportiva com espaço próprio nos principais eventos da raça Quarto de Milha.
Da vontade de competir ao surgimento da categoria
A história do Paratambor na ABQM está diretamente ligada à trajetória de Veri Real. O interesse pelos Três Tambores surgiu enquanto ela acompanhava a mãe nas competições.
“Eu via minha mãe praticar a modalidade e aquela adrenalina me chamava. Também queria sentir aquela emoção”, recorda.
Naquele momento, porém, não havia uma categoria específica que permitisse aos paratletas competir de acordo com suas diferentes limitações. O passo decisivo ocorreu em 2016, depois que Veri participou de um curso ministrado por Joyce Loomis, referência internacional nos Três Tambores, e compartilhou a ideia de criar esse espaço.
“Contei a ela o que pretendia fazer. Ela gostou, me viu montar e disse para seguir em frente”, relata.
Incentivada, Veri escreveu uma carta à ABQM propondo a criação da categoria. A solicitação foi recebida por Regis Frati, então dirigente da entidade, e abriu caminho para a implantação do projeto durante o Campeonato Nacional daquele ano.
A categoria foi posteriormente homologada, em 2017, durante evento realizado em Avaré (SP), consolidando o primeiro passo de um processo que ainda passaria por diversas mudanças.
Diferentes condições, disputas mais equilibradas
Uma das primeiras reivindicações apresentadas por Veri foi a divisão dos paratletas conforme suas capacidades funcionais. A medida era necessária porque os competidores possuíam diferentes tipos e graus de limitações, o que tornava inadequada a realização de uma disputa única.
Para colaborar com a construção desse modelo, foi indicada a médica Gabrielle, que participou do processo de divisão inicial. Com o passar dos anos, a ABQM estabeleceu um regulamento próprio e adotou a classificação por handicaps, buscando proporcionar condições mais equilibradas de competição.
O sistema considera as características de cada atleta e estabelece divisões específicas. Dessa forma, o resultado está relacionado ao desempenho esportivo dentro de parâmetros compatíveis com a classificação recebida.
Em 2025, diante da expansão da categoria, a ABQM anunciou uma equipe multiprofissional para aprimorar a avaliação e a reclassificação dos paratletas. O trabalho passou a reunir especialistas nas áreas motora, cognitiva, comportamental, médica e de equitação, culminando na definição do handicap de cada competidor.

A mudança representou mais uma etapa na estruturação técnica do Paratambor e na busca por critérios mais precisos para habilitar novos atletas e reavaliar aqueles que já participavam das provas.
Reconhecimento conquistado ao longo dos anos
Os primeiros competidores do Paratambor não recebiam os mesmos tipos de reconhecimento destinados às demais categorias. Segundo Veri, inicialmente a participação era premiada apenas com medalhas. A partir daí, ela começou a procurar organizadores e dirigentes para defender que os paratletas fossem tratados como competidores.
“No começo, não havia troféu, apenas uma medalha. Eu achava injusto e comecei a conversar com os organizadores para que enxergassem o Paratambor como qualquer outra categoria”, conta.
A mobilização contribuiu para a adoção de troféus, premiação em dinheiro e pontuação oficial. Outra conquista foi a inclusão dos destaques da modalidade no ABQM Awards, cerimônia que reconhece os melhores competidores da temporada.
Veri foi a primeira paratleta homenageada na premiação. Ela também defendeu que o reconhecimento fosse concedido separadamente em cada handicap, evitando que atletas de classificações distintas concorressem a um único prêmio.
“Queriam entregar apenas um prêmio para todos, mas isso não seria justo. Cada handicap possui sua disputa. Insisti bastante até conseguirmos o reconhecimento separado”, afirma.
Ao longo da trajetória, a embaixadora também participou das discussões para ampliar a premiação em dinheiro oferecida pela ABQM. Para ela, a valorização financeira precisa acompanhar o desenvolvimento da categoria e o esforço dos conjuntos.
Igualdade, não piedade
Para Veri, a essência do Paratambor está na igualdade esportiva. Ela ressalta que os competidores treinam, mantêm seus cavalos, viajam para os eventos e entram em pista com o mesmo objetivo dos demais atletas: alcançar o melhor resultado possível.
Essa visão também motivou sua defesa para que a categoria tivesse estrutura e responsabilidades equivalentes às demais. Segundo a embaixadora, o Paratambor não deve ser tratado apenas como uma ação de inclusão ou uma participação simbólica, mas como uma categoria esportiva oficial.
“Se queremos fazer parte do esporte, precisamos ser vistos como iguais. Não gosto que olhem para nós com piedade. Somos atletas e queremos competir em condições justas”, enfatiza.
A própria evolução do Paratambor reforça essa perspectiva. Em 2022, a ABQM possuía mais de 70 competidores habilitados. Em 2024, o número se aproximava de uma centena e, atualmente, são 110 paratletas cadastrados. No Nacional de 2026, as 32 inscrições demonstram que a presença dos conjuntos deixou de ser pontual e passou a ocupar um espaço expressivo na programação.
O cavalo como protagonista
Embora os números revelem o crescimento alcançado em dez anos, a história da categoria também é construída pela relação entre competidores, famílias, treinadores e cavalos. Para muitos participantes, o contato com o animal começou na equoterapia e evoluiu para o treinamento esportivo e para a competição.
Nos Três Tambores, cavalo e paratleta formam um conjunto. Treinamento, confiança, comunicação e preparo técnico são fundamentais para cumprir o percurso com segurança e eficiência. É justamente essa parceria que permite aos atletas desenvolver habilidades e buscar melhores resultados a cada prova.

Ao completar dez anos, o Paratambor celebra conquistas importantes, mas mantém em aberto novas pautas de desenvolvimento. Entre elas estão a atualização das premiações, o fortalecimento das provas oficializadas e a possibilidade de ampliar a participação dos paratletas para outras modalidades equestres.
Veri Real garante que continuará atuando para que esses avanços aconteçam.
“Foram muitas lutas e ainda há bastante coisa para melhorar. Vou continuar tentando e batalhando pela nossa igualdade”, finaliza.
De três pioneiras em 2016 a 110 paratletas cadastrados e centenas de inscrições em 2026, o Paratambor chega à primeira década como uma categoria em plena evolução. Uma história na qual cada conquista ampliou o espaço dos competidores, enquanto o cavalo permaneceu como o grande protagonista dentro e fora das pistas.
Por: Redação/Portal Cavalus
Foto: Divulgação/Hugo Lemes
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