Queima do Alho preserva cultura das comitivas boiadeiras na Festa do Peão de Barretos

Concurso gastronômico reunirá 20 comitivas no dia 23 de agosto, enquanto seletiva para grupos iniciantes será realizada no encerramento do evento

Antes mesmo da criação da Festa do Peão de Barretos, a Queima do Alho já acompanhava as comitivas responsáveis por conduzir rebanhos pelos caminhos do interior brasileiro. Preparadas no fogo de chão, as refeições utilizavam poucos ingredientes e utensílios, transportados em bruacas de couro no lombo de cavalos e mulas.

Essa tradição estará novamente em evidência durante a 71ª Festa do Peão de Barretos, realizada entre os dias 20 e 30 de agosto. O Rancho Ponto de Pouso receberá duas programações dedicadas à culinária boiadeira: o Concurso da Queima do Alho, no dia 23, e a seletiva das comitivas iniciantes, marcada para 30 de agosto.

Na primeira disputa, 20 comitivas de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná e Minas Gerais apresentarão receitas, utensílios e costumes ligados às antigas marchas boiadeiras. Já a seletiva concederá duas vagas para a edição de 2027.

Tradição reconhecida como patrimônio cultural

Reconhecida como patrimônio cultural imaterial pela Lei Federal nº 13.364/2016, a Queima do Alho preserva técnicas culinárias e práticas transmitidas entre diferentes gerações.

Durante a competição, as comitivas preparam pratos tradicionais, como arroz carreteiro, feijão gordo, churrasco e paçoca de carne seca. As receitas seguem os métodos empregados pelos peões durante as longas viagens pelos estradões.

Para recriar o ambiente das antigas paradas, os participantes utilizam fogo de chão, lenha, chapas, panelas de alumínio batido e bruacas de couro. Equipamentos modernos e adaptações capazes de descaracterizar o preparo tradicional não são permitidos.

“O objetivo é preservar a essência da culinária das comitivas. Não permitimos utensílios modernos nem adaptações que descaracterizem esse modo de preparo. O fogo é de chão, a lenha é o único combustível e todas as tralhas precisam seguir os padrões da época”, explica João Paulo Martins, coordenador do Concurso da Queima do Alho.

Além do sabor dos pratos, os jurados avaliam a fidelidade histórica, o modo de preparo, a apresentação e a utilização dos utensílios tradicionais.

História atravessa gerações

A continuidade da Queima do Alho também está ligada às famílias que assumiram a missão de preservar os conhecimentos dos antigos boiadeiros. Um dos exemplos é a Comitiva Antônio Ângelo, considerada a mais antiga em atividade na Festa do Peão de Barretos.

Aos 85 anos, Dalva Aparecida Utuari mantém o trabalho iniciado por seu pai, Antônio Ângelo de Oliveira Sobrinho, um dos pioneiros da tradição no evento. Ela participa da Festa desde 1956, quando ainda acompanhava o pai nas atividades da comitiva.

“Desde menina acompanhava meu pai na lida com o gado e na Queima do Alho. Depois que ele faleceu, assumi a responsabilidade de manter esse trabalho. É a maior felicidade da minha vida”, conta Dalva.

A história familiar ganhou continuidade com Lucas Marques Salvino, neto de Dalva e bisneto de Antônio Ângelo. Ele integra a comitiva e ajuda a preservar o legado iniciado pelo bisavô.

“Fui aprendendo com a minha avó e essa responsabilidade virou uma paixão. Manter a cultura da Queima do Alho é preservar parte da história de Barretos”, afirma Lucas.

Comitiva mantém viagem a cavalo até Barretos

Outra representante dessa tradição é a Comitiva Devotos do Tião Carreiro, de Riolândia, no interior paulista. Criado em 2008, o grupo teve contato com a Queima do Alho por intermédio de um antigo peão boiadeiro, que compartilhou conhecimentos sobre a culinária e a rotina das comitivas.

A estreia no concurso ocorreu em 2011. Depois de conquistar dois vice-campeonatos e uma terceira colocação, o grupo venceu a competição pela primeira vez em 2025.

“O resultado representa muitos anos de dedicação. Em cada edição, buscamos aperfeiçoar os pratos, as traias e todos os detalhes avaliados pelos jurados”, destaca o comissário Marcelo Muzeti.

Além de participar do concurso, a comitiva preserva o costume das viagens a cavalo. Anualmente, os integrantes percorrem aproximadamente 210 quilômetros entre Riolândia e Barretos. O trajeto dura cerca de seis dias e atualmente reúne três gerações da mesma família.

Música raiz completa a programação

Além da competição gastronômica, o Rancho Ponto de Pouso receberá apresentações de moda de viola, catira e o tradicional Concurso de Berranteiros.

No dia 23 de agosto, a programação musical contará com Ronaldo Viola Filho e Moysés Rico. Durante a seletiva de 30 de agosto, as apresentações ficarão por conta de Thacio e da dupla Divino & Donizete.

Os shows serão exclusivos para quem adquirir os ingressos das respectivas programações da Queima do Alho.

Festa do Peão de Barretos

A 71ª Festa do Peão de Barretos será realizada de 20 a 30 de agosto, no Parque do Peão. Considerado um dos principais eventos do gênero na América Latina, o encontro reúne rodeio, provas cronometradas, shows musicais, atrações culturais, atividades infantis, feira comercial e espaços dedicados à memória e à cultura sertaneja.

O Parque do Peão possui mais de 2 milhões de metros quadrados e permanece em funcionamento durante 24 horas ao longo do evento. Os ingressos e a programação completa estão disponíveis nos canais oficiais da Festa do Peão de Barretos.

Por Heloisa Alves/Portal Cavalus (Com informações dos Os Independentes)
Foto: Divulgação/André Monteiro

Leia mais notícias aqui.