Antes mesmo da criação da Festa do Peão de Barretos, a Queima do Alho já acompanhava as comitivas responsáveis por conduzir rebanhos pelos caminhos do interior brasileiro. Preparadas no fogo de chão, as refeições utilizavam poucos ingredientes e utensílios, transportados em bruacas de couro no lombo de cavalos e mulas.
Essa tradição estará novamente em evidência durante a 71ª Festa do Peão de Barretos, realizada entre os dias 20 e 30 de agosto. O Rancho Ponto de Pouso receberá duas programações dedicadas à culinária boiadeira: o Concurso da Queima do Alho, no dia 23, e a seletiva das comitivas iniciantes, marcada para 30 de agosto.
Na primeira disputa, 20 comitivas de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná e Minas Gerais apresentarão receitas, utensílios e costumes ligados às antigas marchas boiadeiras. Já a seletiva concederá duas vagas para a edição de 2027.
Tradição reconhecida como patrimônio cultural
Reconhecida como patrimônio cultural imaterial pela Lei Federal nº 13.364/2016, a Queima do Alho preserva técnicas culinárias e práticas transmitidas entre diferentes gerações.
Durante a competição, as comitivas preparam pratos tradicionais, como arroz carreteiro, feijão gordo, churrasco e paçoca de carne seca. As receitas seguem os métodos empregados pelos peões durante as longas viagens pelos estradões.

Para recriar o ambiente das antigas paradas, os participantes utilizam fogo de chão, lenha, chapas, panelas de alumínio batido e bruacas de couro. Equipamentos modernos e adaptações capazes de descaracterizar o preparo tradicional não são permitidos.
“O objetivo é preservar a essência da culinária das comitivas. Não permitimos utensílios modernos nem adaptações que descaracterizem esse modo de preparo. O fogo é de chão, a lenha é o único combustível e todas as tralhas precisam seguir os padrões da época”, explica João Paulo Martins, coordenador do Concurso da Queima do Alho.
Além do sabor dos pratos, os jurados avaliam a fidelidade histórica, o modo de preparo, a apresentação e a utilização dos utensílios tradicionais.
História atravessa gerações
A continuidade da Queima do Alho também está ligada às famílias que assumiram a missão de preservar os conhecimentos dos antigos boiadeiros. Um dos exemplos é a Comitiva Antônio Ângelo, considerada a mais antiga em atividade na Festa do Peão de Barretos.
Aos 85 anos, Dalva Aparecida Utuari mantém o trabalho iniciado por seu pai, Antônio Ângelo de Oliveira Sobrinho, um dos pioneiros da tradição no evento. Ela participa da Festa desde 1956, quando ainda acompanhava o pai nas atividades da comitiva.
“Desde menina acompanhava meu pai na lida com o gado e na Queima do Alho. Depois que ele faleceu, assumi a responsabilidade de manter esse trabalho. É a maior felicidade da minha vida”, conta Dalva.
A história familiar ganhou continuidade com Lucas Marques Salvino, neto de Dalva e bisneto de Antônio Ângelo. Ele integra a comitiva e ajuda a preservar o legado iniciado pelo bisavô.
“Fui aprendendo com a minha avó e essa responsabilidade virou uma paixão. Manter a cultura da Queima do Alho é preservar parte da história de Barretos”, afirma Lucas.
Comitiva mantém viagem a cavalo até Barretos
Outra representante dessa tradição é a Comitiva Devotos do Tião Carreiro, de Riolândia, no interior paulista. Criado em 2008, o grupo teve contato com a Queima do Alho por intermédio de um antigo peão boiadeiro, que compartilhou conhecimentos sobre a culinária e a rotina das comitivas.
A estreia no concurso ocorreu em 2011. Depois de conquistar dois vice-campeonatos e uma terceira colocação, o grupo venceu a competição pela primeira vez em 2025.

“O resultado representa muitos anos de dedicação. Em cada edição, buscamos aperfeiçoar os pratos, as traias e todos os detalhes avaliados pelos jurados”, destaca o comissário Marcelo Muzeti.
Além de participar do concurso, a comitiva preserva o costume das viagens a cavalo. Anualmente, os integrantes percorrem aproximadamente 210 quilômetros entre Riolândia e Barretos. O trajeto dura cerca de seis dias e atualmente reúne três gerações da mesma família.
Música raiz completa a programação
Além da competição gastronômica, o Rancho Ponto de Pouso receberá apresentações de moda de viola, catira e o tradicional Concurso de Berranteiros.
No dia 23 de agosto, a programação musical contará com Ronaldo Viola Filho e Moysés Rico. Durante a seletiva de 30 de agosto, as apresentações ficarão por conta de Thacio e da dupla Divino & Donizete.
Os shows serão exclusivos para quem adquirir os ingressos das respectivas programações da Queima do Alho.
Festa do Peão de Barretos
A 71ª Festa do Peão de Barretos será realizada de 20 a 30 de agosto, no Parque do Peão. Considerado um dos principais eventos do gênero na América Latina, o encontro reúne rodeio, provas cronometradas, shows musicais, atrações culturais, atividades infantis, feira comercial e espaços dedicados à memória e à cultura sertaneja.
O Parque do Peão possui mais de 2 milhões de metros quadrados e permanece em funcionamento durante 24 horas ao longo do evento. Os ingressos e a programação completa estão disponíveis nos canais oficiais da Festa do Peão de Barretos.
Por Heloisa Alves/Portal Cavalus (Com informações dos Os Independentes)
Foto: Divulgação/André Monteiro
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