Rancho Alegria transforma paixão pelo Mangalarga em um legado de inclusão, família e grandes conquistas

Pequeno criatório do Paraná conquista o título de Campeão dos Campeões na Nacional do Mangalarga e mostra que o verdadeiro legado vai muito além das pistas, unindo cavalos, arte e uma inspiradora história familiar

O título de Campeão dos Campeões conquistado na Exposição Nacional do Mangalarga marcou um momento histórico para o Rancho Alegria, de Campina Grande do Sul (PR). Para quem olha apenas o resultado nas pistas, trata-se da consagração de um criatório em ascensão. Mas, para a família Cruz, a conquista representa algo muito maior: a confirmação de que é possível construir um projeto baseado na inclusão, nos valores familiares e no amor pelos cavalos.

Mais do que criar animais de excelência, o Rancho Alegria nasceu com um propósito. A paixão pela raça Mangalarga sempre esteve presente na família, mas ganhou um significado ainda mais profundo a partir da convivência com os filhos Alice, Teteu e Ton, que inspiraram uma nova forma de enxergar a criação, a natureza e as relações humanas.

Alice, conhecida carinhosamente como Lilica — nome que também identifica os animais do rancho por meio do sufixo “da Lilica” — compartilha desde pequena a paixão pelos cavalos e acompanha de perto todas as etapas da criação. Teteu, descrito pela família como o grande responsável por transformar sua maneira de enxergar a vida, tornou-se a principal inspiração para que o rancho abraçasse a inclusão como um de seus pilares. Já Ton simboliza, segundo o pai, a importância de nunca deixar de sonhar.

“Não somos apenas criadores de cavalos. Somos uma família que acredita no poder transformador da natureza, dos animais e da arte”, resume June Cruz.

Um pequeno rancho com grandes sonhos

Localizado fora do tradicional eixo da raça Mangalarga, concentrado entre São Paulo e Minas Gerais, o Rancho Alegria construiu sua trajetória acreditando que dedicação, seleção genética e boas parcerias poderiam superar qualquer distância.

Segundo June, a caminhada foi fortalecida por projetos familiares que compartilham dos mesmos valores, como o Haras VJC, liderado por Vinicius João Curi, e a RPN Leilões, comandada por Rodrigo Paradeda e sua família. Para ele, essas parcerias foram fundamentais para que o rancho alcançasse os principais palcos da raça.

Apesar das conquistas, a rotina permanece simples. Todos participam das atividades diárias, desde a limpeza das cocheiras até os cuidados reprodutivos das éguas. É justamente nessa convivência que a família acredita estar o verdadeiro vínculo entre pessoas e cavalos.

A beleza da diversidade

Outra característica marcante do Rancho Alegria é a escolha por trabalhar com cavalos Mangalarga de pelagens amarela e pampa.

Mais do que uma preferência estética, June explica que cada nascimento representa uma celebração da individualidade. Assim como nenhuma pessoa é igual à outra, cada potro nasce com desenhos, cores e características únicas.

“Gostamos de dizer que, nessas pelagens, a natureza assume o papel de artista”, afirma.

Essa filosofia conversa diretamente com outro diferencial do rancho: as obras de arte espalhadas pela propriedade, que homenageiam pessoas com deficiência e reforçam a mensagem de que a beleza está justamente nas diferenças.

O título que emocionou uma família

A conquista do primeiro Campeão dos Campeões Nacional coroou anos de dedicação. O destaque foi o extraordinário Xavante VJC, considerado hoje um dos principais exemplares da raça Mangalarga.

Mas, segundo June, o momento mais marcante não foi a entrega do troféu.

Foi uma fotografia registrada logo após a conquista.

Na imagem aparecem o apresentador Diogo Rocha conduzindo Xavante VJC, Teteu aproximando-se espontaneamente do cavalo para lhe dar um beijo e o próprio June acompanhando a cena ao lado do filho, enquanto a esposa Vilma e Alice compartilham a emoção daquele momento.

Para a família, a fotografia sintetiza tudo aquilo que o Rancho Alegria representa: excelência na criação, amizade, inclusão e afeto.

“Enquanto muitos enxergavam apenas um título nacional, nós víamos algo muito maior. Víamos uma família reunida em torno de um propósito. Víamos amigos que se tornaram irmãos. Víamos um cavalo extraordinário aproximando pessoas.”

Muito além da criação de cavalos

Quem visita o Rancho Alegria encontra animais de alto nível genético, mas também esculturas, espaços de contemplação e uma proposta que une cavalos, arte e natureza para transmitir valores como respeito, acolhimento e convivência.

A inspiração para as homenagens às pessoas com deficiência nasceu da própria experiência familiar com Teteu. Segundo June, a convivência transformou completamente a forma como todos passaram a enxergar o mundo.

“A sociedade costuma olhar para a deficiência pelas limitações. Nós escolhemos enxergá-la pela capacidade de transformar vidas”, destaca.

Por isso, cada escultura instalada no rancho busca homenagear não apenas as pessoas com deficiência, mas também pais e mães atípicos, reconhecendo sua dedicação diária e reafirmando que toda vida merece ser celebrada.

Um legado para as próximas gerações

Embora a conquista nacional represente um marco importante, o Rancho Alegria afirma não estabelecer metas baseadas apenas em resultados esportivos.

O objetivo é continuar impactando pessoas por meio da criação de cavalos, da arte, da cultura, da inclusão e da valorização da família.

“Nunca deixem que alguém diga que o tamanho dos seus sonhos deve ser definido pelas circunstâncias. Se há algo que aprendemos com os cavalos, é que grandes jornadas começam com um primeiro passo. E, se há algo que aprendemos com nossos filhos, é que o amor é capaz de transformar qualquer caminho”, conclui June Cruz.

Por Heloisa Alves/Portal Cavalus
Fotos: Divulgação/Beto Falcão

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