A paixão de Graziela Mendonça Bernardes pelos cavalos começou ainda na infância, muito antes de ela imaginar que um dia estaria entre as competidoras dos Três Tambores e assumiria a presidência de uma das principais entidades da modalidade no país.
Atual presidente da Associação Nacional dos Três Tambores (ANTT), Graziela construiu uma trajetória marcada pela persistência. Antes de integrar a gestão da entidade e trabalhar pela valorização das competidoras, ela também precisou superar inseguranças, adquirir experiência e insistir no sonho de ocupar seu espaço nas pistas.
“Não sei explicar como tudo isso começou. Acho que foi naturalmente, pois os cavalos são encantadores. Deixei a paixão falar mais forte e hoje sou grata, porque tudo o que conquistei em minha vida foi por meio dos cavalos”, afirma.
O sonho de competir nos Três Tambores
Desde muito pequena, Graziela assistia às provas de Três Tambores e sonhava em participar das competições. Dentro de casa, recebia o incentivo do irmão, que montava em touros e desejava vê-la também envolvida com o esporte.
Ela começou a praticar a modalidade, mas, inicialmente, sem frequentar as provas. Um passo importante ocorreu no início dos anos 2000, quando seu marido, o treinador Marco Turchetto, abriu um centro de treinamento em São José do Rio Preto (SP). A nova estrutura permitiu que Graziela se aproximasse ainda mais dos Três Tambores e intensificasse os treinos.

Mesmo assim, demorou alguns anos para decidir entrar efetivamente nas competições.
“Apesar de praticar em casa e ser apaixonada pela modalidade, eu não conseguia me dedicar para valer. Por isso, preferia não ir às provas. Mas sempre alimentei esse sonho de competir”, recorda.
A estreia aconteceu somente em 2012 e já representou um grande desafio. Graziela escolheu participar de uma etapa da ANTT realizada durante a Festa do Peão de Guaíra. Naquele momento, ainda não tinha a experiência nem os animais de alto nível apresentados pelas principais atletas do campeonato.
A falta de resultados imediatos, entretanto, não a afastou das arenas.
“Eu quis estar na ANTT porque as melhores competidoras estavam ali e sabia que aprenderia muito. Durante um bom tempo, participei das etapas sem grandes resultados e sem me classificar nem para as semifinais. Mas persisti, aprendi com tudo isso e, com o tempo, os resultados começaram a aparecer”, conta.
Quatro finais consecutivas na ANTT
A persistência levou Graziela a se classificar durante quatro anos consecutivos para a Final do Campeonato da ANTT, encerrando as temporadas entre as melhores competidoras do circuito.
Um dos animais mais importantes dessa caminhada foi Esperanza Slander, com quem viveu sua melhor fase nas arenas e conquistou alguns dos resultados mais expressivos de sua carreira.
Entre todas as lembranças, a primeira Final da ANTT, disputada em 2014, ocupa um lugar especial. Na ocasião, Graziela teve a oportunidade de competir na arena de Barretos e terminou na terceira colocação da categoria Silver Race.
“As classificações para as finais da temporada são algumas das minhas maiores conquistas. Estar entre as finalistas representa a coroação de um ano inteiro de lutas e batalhas”, destaca.
Mais do que resultados esportivos, a convivência com os cavalos trouxe aprendizados que ela levou para diferentes momentos da vida. Coragem, persistência e sensibilidade nas relações estão entre as lições adquiridas ao longo da trajetória.
“A convivência só nos faz amar ainda mais os cavalos. É algo que nunca esfria, fica cada vez mais forte. Eles nos ensinam muito sobre a vida, o relacionamento com as pessoas, a superação das batalhas, a persistência e a coragem. Tenho certeza de que boa parte do que sei hoje veio desse mundo e das provas equestres”, ressalta.
Da competição à diretoria da ANTT
A participação nas etapas aproximou Graziela da associação e das mulheres que trabalhavam na organização do campeonato. Entre elas estava Flávia Cajé, que teve papel importante nesse processo de aproximação.
Em 2016, Graziela recebeu o convite para integrar a diretoria da ANTT. Ela aceitou o desafio e, desde então, participou de todas as gestões da entidade.
Antes de assumir a presidência, atuou diretamente na parte operacional das etapas. O trabalho incluía o contato permanente com as atletas durante os eventos e a participação nas diferentes demandas relacionadas à realização do campeonato.
A experiência permitiu que ela conhecesse de perto as necessidades das competidoras e compreendesse o funcionamento da associação.
“Por conhecer o dia a dia das atletas, as dificuldades e as necessidades que elas enfrentam em cada prova, nosso trabalho acaba sendo direcionado à busca por melhorias e valorização. Essa sempre foi a essência da ANTT e, por também ter sido competidora, consigo entender essas demandas”, explica.
A missão de dar continuidade ao crescimento da entidade
Quando surgiu a oportunidade de assumir a presidência, Graziela encontrou uma ANTT em processo de crescimento, fortalecida pelas conquistas alcançadas ao longo das administrações anteriores.
Dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelas ex-presidentes foi uma das principais razões que a levaram a aceitar o cargo.
“A ANTT vinha em uma ascensão muito grande, com conquistas importantes em cada gestão. Eu sentia que era preciso dar continuidade a tudo o que havia sido construído. Sabia que seria um desafio enorme, mas essa vontade foi o que mais me motivou”, afirma.
Gerenciar uma competição nacional, com calendário extenso e presença em alguns dos principais rodeios do país, exige planejamento constante. Em 2026, um dos maiores desafios enfrentados pela diretoria foi a alteração de datas devido ao cancelamento ou adiamento de eventos, situação capaz de impactar diretamente o campeonato.
Apesar das dificuldades, a temporada também foi marcada por realizações importantes.
Final em Colorado e prêmio histórico
Em 2026, a Final Nacional da ANTT foi realizada durante a edição comemorativa de 50 anos da Festa do Peão de Colorado. Embora seja considerado o evento mais tradicional da história da associação, o rodeio ainda não havia recebido uma final do campeonato.
A experiência foi considerada positiva e garantiu a permanência da decisão no município. A próxima Final Nacional também será realizada em Colorado, em março de 2027.
Outra conquista histórica foi o anúncio do prêmio destinado à campeã da temporada de 2026: uma picape Rampage zero-quilômetro, avaliada em mais de R$ 200 mil.
Trata-se da maior premiação já oferecida pela ANTT desde sua fundação.
“Vínhamos trabalhando havia muitos anos para tornar isso possível. É o maior prêmio da nossa história e, nesta temporada, conseguimos realizar esse objetivo”, comemora a presidente.
A importância da ANTT para as mulheres
Criada em 2004 por um grupo de mulheres, a Associação Nacional dos Três Tambores surgiu em uma época na qual a modalidade enfrentava um período de desvalorização dentro dos rodeios.
Ao longo dos anos, a entidade contribuiu para ampliar o espaço das competidoras, melhorar as condições oferecidas nos eventos e fortalecer o reconhecimento de atletas, treinadores, criadores e cavalos.

Para Graziela, o fato de a associação ter sido criada e conduzida por mulheres reforça sua importância histórica.
“Não sabemos como seria a modalidade se a ANTT não tivesse sido criada. A associação ajudou a valorizar os Três Tambores e trouxe mais respeito às competidoras, aos treinadores e aos criadores durante os eventos. O fato de a entidade sempre ter sido formada por mulheres, que enfrentaram e venceram inúmeros desafios, mostra a força feminina dentro e fora da arena”, declara.
Modalidade vive momento de expansão
Na avaliação da presidente, os Três Tambores vivem um de seus melhores momentos no Brasil. A expansão das provas para diferentes regiões e estados, o crescimento do mercado de animais, o surgimento de novas atletas e o interesse de grandes marcas são sinais do amadurecimento do esporte.
“A modalidade está vivendo seu melhor momento em nosso país. Temos provas chegando a novas regiões, crescimento no mercado de animais, novas competidoras e grandes empresas interessadas em investir nas competições. A ANTT tem orgulho de fazer parte e contribuir com esse processo”, pontua.
Um dos trabalhos desenvolvidos pela associação é a ampliação da visibilidade das atletas que se destacam no campeonato. A divulgação dos resultados, das histórias e das conquistas nas arenas, na imprensa e nas redes sociais ajuda a aproximar o público e inspira outras mulheres a iniciarem no esporte.
Incentivo às novas gerações
A formação de novas competidoras também ocupa espaço importante dentro do campeonato. Desde 2013, a categoria Mirim integra oficialmente todas as etapas da ANTT, permitindo que jovens atletas, inclusive aquelas com pouca experiência, participem das provas promovidas pela associação.
Ao longo dos anos, a categoria revelou competidoras que posteriormente se transformaram em destaques dos Três Tambores.
“Dar visibilidade às atletas incentiva outras pessoas a alimentarem o desejo de competir. A categoria Mirim já revelou inúmeras competidoras que hoje são estrelas da modalidade”, observa Graziela.

Para comandar a entidade e acompanhar a rotina de viagens e eventos, ela conta com o apoio do marido, Marco Turchetto, além da diretoria e da equipe responsável pelas diferentes áreas do campeonato.
“Não é nada fácil conciliar tudo, mas também não faço nada sozinha. Em casa, tenho o apoio do Marco, que entende essa rotina de viagens e dedicação às provas. Na ANTT, contamos com a diretoria e um staff formado por profissionais que auxiliam em tudo o que é necessário”, explica.
Reconhecimento para atletas dos Três Tambores
Entre os principais objetivos para os próximos anos está a ampliação do reconhecimento das competidoras. A proposta é fazer com que as atletas sejam vistas como estrelas do esporte não apenas pelos fãs do rodeio e das provas equestres, mas também por pessoas que ainda não conhecem os Três Tambores.
A associação pretende continuar trabalhando por melhores condições para competidoras e animais, aumento das premiações, valorização profissional e expansão da modalidade.
Ao olhar para a menina que sonhava em competir e para a mulher que hoje preside a ANTT, Graziela reconhece uma caminhada marcada pela coragem de insistir, mesmo quando os resultados demoraram a aparecer.
“Quero que todos aqueles que tenham um sonho acreditem em si mesmos e na força que suas ações podem ter em suas vidas. Que tenham coragem para buscar aquilo que desejam e superar cada desafio. Quando acreditamos de coração e persistimos, as coisas acontecem. Tem sido assim na minha vida”, afirma.
Se pudesse voltar ao início e conversar com a Graziela que ainda sonhava em entrar nas arenas, o conselho seria direto:
“Eu diria que nem tudo será fácil e que, em muitos momentos, ela terá vontade de desistir. Mas pediria que não desistisse, porque tudo valerá a pena.”
Por: Heloisa Alves/Revista Tambor & Baliza
Imagens: Arquivo Pessoal/Graziela Mendonça
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