Veri Real: uma década de coragem, pioneirismo e transformação no Paratambor

Idealizadora e embaixadora da categoria, paratleta transformou uma experiência pessoal em um movimento que começou com três competidores e hoje reúne 110 atletas

Antes de o Paratambor reunir 110 atletas e integrar oficialmente as competições da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM), foi preciso que alguém enxergasse a possibilidade de criar um espaço próprio para os paratletas dentro dos Três Tambores. Essa pessoa foi Veri Real.

Movida pelo desejo de sentir a mesma adrenalina que acompanhava nas provas disputadas por sua mãe, Veri não se conformou em participar apenas de apresentações ou competir sem uma categoria adequada às diferentes limitações dos atletas. Em 2016, ela transformou uma vontade pessoal em uma proposta coletiva: procurou a ABQM e apresentou a ideia de criar o Paratambor.

Uma década depois, a modalidade reúne 110 paratletas e chega aos 10 anos fortalecida por avanços na acessibilidade, na classificação dos competidores, nas premiações e no reconhecimento esportivo. Conquistas que carregam a participação direta de Veri, considerada embaixadora da categoria e uma das principais responsáveis por sua criação e desenvolvimento.

A ligação de Veridiana Trajan Real com os Três Tambores começou dentro de casa. Ao acompanhar a mãe nas provas, ela se encantou com a velocidade e a emoção da modalidade.

“Via minha mãe praticar a modalidade e aquela adrenalina me chamava para sentir aquela emoção”, recorda.

Antes do Paratambor, Veri participou de provas de marcha e hipismo rural. Nos Três Tambores, porém, encontrou o estímulo que procurava. Como ainda não havia uma categoria destinada aos paratletas, suas primeiras participações aconteciam em apresentações ou ao lado de competidores sem limitações.

Da ideia à criação do Paratambor

O passo decisivo ocorreu em 2016, após Veri participar de um curso com Joyce Loomis Kerneck, referência mundial nos Três Tambores. Durante a atividade, apresentou a ideia de criar uma categoria específica para pessoas com deficiência. Depois de observá-la montar, Joyce apoiou a iniciativa e a incentivou a seguir em frente.

Veri, então, levou a proposta à ABQM. A ideia chegou a Regis Fratis, que acolheu o projeto, e a primeira disputa ocorreu durante o Campeonato Nacional daquele ano, em Avaré (SP), com três participantes.

Mas criar uma categoria não significava apenas reunir diferentes competidores em uma mesma prova. Era necessário estabelecer critérios que respeitassem os diferentes níveis de limitação de cada atleta. Veri passou a defender a divisão dos participantes por handicaps e indicou a médica Gabrielle para colaborar com o processo de classificação. Em 2017, também em Avaré, a categoria foi homologada.

A classificação permitiu que os atletas competissem em condições mais equilibradas, considerando suas capacidades funcionais. Para Veri, esse sempre foi um ponto fundamental: garantir oportunidades justas, sem tratar todos os paratletas como se tivessem as mesmas limitações.

Uma luta para ser reconhecida como esporte

Os primeiros anos foram marcados por conquistas importantes, mas também por dificuldades. Inicialmente, os participantes recebiam somente medalhas. Incomodada com a diferença de tratamento em relação às demais categorias, Veri começou a procurar organizadores de provas e a defender que o Paratambor tivesse troféus, pontuação, premiação e os mesmos critérios de reconhecimento destinados aos demais competidores.

“Comecei a entrar em contato com os organizadores para que vissem a categoria como qualquer outra”, conta.

A cobrança de inscrição também foi defendida pela paratleta. Embora pudesse parecer uma vantagem não pagar para competir, Veri entendia que a gratuidade reforçava a percepção equivocada de que o Paratambor era apenas uma ação assistencial.

“Se quisermos fazer parte do esporte, somos iguais a todos. Não gosto que nos olhem com piedade”, afirma.

Essa postura resume a maneira como ela conduziu sua atuação durante a última década. Para Veri, o Paratambor não deve ser visto apenas como uma iniciativa de inclusão, mas como uma categoria esportiva formada por atletas que treinam, investem em cavalos, participam de competições e buscam resultados.

Premiação, pontuação e ABQM Awards

Outra frente de atuação foi a implantação da premiação em dinheiro. A conquista ocorreu em 2020, quando os paratletas passaram a receber valores pelos resultados alcançados nas pistas. Veri também reivindicou melhores premiações nos eventos da ABQM e segue defendendo novos reajustes.

A possibilidade de pontuar oficialmente foi outro avanço. Veri batalhou para que cada competidor acumulasse pontos dentro de seu respectivo handicap e pudesse disputar o ABQM Awards em condições equivalentes às dos atletas das outras categorias.

O resultado dessa mobilização ganhou um de seus capítulos mais simbólicos em janeiro de 2022. Veri subiu ao palco para receber o prêmio de Melhor Paratleta da temporada 2020, tornando-se a primeira competidora do Paratambor reconhecida oficialmente no ABQM Awards. A entrega foi acompanhada por uma ovação de pé do público.

Até 2025, ela havia recebido quatro vezes o título de melhor paratleta nos Três Tambores, pelas temporadas de 2018, 2020, 2023 e 2024. Mais do que uma conquista individual, os prêmios representaram a consolidação de um direito que ela ajudou a construir para todos os atletas da categoria.

Resultados dentro e fora do Paratambor

A trajetória de Veri também foi construída por resultados esportivos. Em 2023, ao lado de WRA Shady Packin, conquistou o pentacampeonato do Paratambor no Campeonato Nacional do Quarto de Milha, competindo no Handicap 3, de galope independente.

O cavalo se tornou um dos grandes parceiros de sua carreira. Outro nome importante é Amoroso Leo ENC, com quem a paratleta vem formando conjunto e buscando novos resultados. No início da temporada de 2025, Veri acumulou vitórias em diferentes circuitos, incluindo o Grand Prix Haras Raphaela, a Copa Western de Tambor e a Copa Rancho Mariana.

Sua busca por igualdade também a levou além do Paratambor. Em 2022, Veri estreou na categoria Feminina da Associação Nacional dos Três Tambores (ANTT), competindo ao lado de algumas das principais atletas do país. Na ocasião, entrou sozinha em pista, sem o acompanhamento habitual do treinador.

“Me senti livre, independente e feliz”, declarou após a estreia.

A participação mostrou que a criação de uma categoria específica não limitou seus horizontes. Ao contrário: deu estrutura, experiência e confiança para que ela também buscasse novos desafios em disputas convencionais.

Uma voz que ultrapassou as pistas

Com o crescimento do Paratambor, Veri passou a ocupar também espaços de representação. Em 2023, foi escolhida como embaixadora da Exposição Agropecuária, Comercial e Industrial de São João da Boa Vista (EAPIC), sua cidade natal. No mesmo ano, teve sua história apresentada no Programa Cavalos, ampliando a visibilidade da categoria e do impacto proporcionado pelos cavalos.

A projeção pública, no entanto, nunca afastou Veri do trabalho que deu origem à modalidade. Mesmo após dez anos, ela continua procurando entidades e organizadores, reivindicando melhorias nas premiações e defendendo que os paratletas sejam tratados como competidores.

“Até hoje estou atrás de melhorar a categoria”, ressalta. “Vou continuar tentando e batalhando pela nossa igualdade.”

De três participantes a 110 paratletas

O crescimento ajuda a dimensionar o caminho percorrido. A categoria que começou com três participantes, em 2016, hoje reúne 110 paratletas. Ao longo desse período, foram implantadas divisões por handicap, pontuação oficial, troféus, premiações em dinheiro e reconhecimento no ABQM Awards.

Cada avanço teve a participação de diferentes profissionais, familiares, dirigentes, organizadores e competidores. No centro dessa construção, contudo, está a persistência de Veri Real, que não se limitou a buscar um lugar para si. Sua atuação abriu caminho para que outras pessoas também pudessem entrar em pista, competir e ser reconhecidas como atletas.

Aos 10 anos, o Paratambor celebra mais do que o crescimento numérico de uma categoria. Celebra uma transformação na forma como o esporte recebe e reconhece seus competidores. Para Veri, essa história ainda está longe de terminar.

“Quando estiver velhinha, quero ter a certeza de que minha passagem por aqui não foi em vão. Que consegui semear a igualdade entre nós, atletas, transformar vidas, plantar sorrisos e vontade de lutar.”

Se hoje 110 paratletas encontram espaço dentro das pistas, parte desse caminho começou quando Veri Real decidiu que participar não era suficiente. Era preciso competir de igual para igual.

Por Heloisa Alves/Portal Cavalus
Fotos: Arquivo Pessoal

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