A história de Ivens Ortigari Neto com os cavalos começou muito antes de qualquer pista, prova ou título. Começou no meio rural, no contato direto com a vida do campo, com a lida, com os animais e com uma cultura familiar profundamente ligada ao cavalo.
Ivens Neto nasceu e se criou nesse ambiente. Ainda menino, aprendeu a enxergar o cavalo não apenas como animal de trabalho ou esporte, mas como parte de uma identidade. Depois, a família mudou-se para o litoral, e a vida tomou outro caminho. Ele estudou, fez faculdade de Direito, foi aprovado na OAB e iniciou sua trajetória profissional como advogado.
Mas havia algo que sempre o chamava de volta. Mesmo com uma carreira jurídica possível pela frente, Ivens Neto percebeu que sua verdadeira realização não estava nos escritórios, nos processos ou na rotina da advocacia. Estava no cavalo. Mais do que uma paixão, era uma vocação prática, construída desde cedo e amadurecida com o tempo. Foi então que tomou uma decisão que mudaria completamente sua vida: deixou a carreira no Direito para aprender, de verdade, a treinar cavalos.
A escolha não foi simples. Largar uma profissão tradicional para entrar no mundo exigente dos centros de treinamento demanda coragem, humildade e disposição para começar de baixo. Mas era exatamente isso que Ivens Neto buscava: viver a rotina dos cavalos, aprender com grandes profissionais e compreender, na prática, o que separa um animal comum de um cavalo de alta performance.
Sua primeira grande escola foi o universo do Cavalo Crioulo, especialmente nas provas funcionais do Freio de Ouro. Ali, encontrou um ambiente de extrema exigência técnica, onde cada detalhe importa: doma, manejo, condicionamento físico, alimentação, rotina, sensibilidade, resposta aos comandos, equilíbrio e preparo mental do animal.
Ivens Neto teve a oportunidade de trabalhar em centros de treinamento de referência, ao lado de nomes importantes da raça. Em 2016, integrou a equipe de Guto Freire, ano em que o ginete conquistou Freio de Prata. Em 2017, esteve com Cláudio Fagundes, também em uma campanha que chegou ao Freio de Prata. Foram experiências marcantes, não apenas pelos resultados, mas pelo aprendizado diário dentro de estruturas voltadas ao mais alto nível de competição.
“Quando você vive a rotina de um centro de treinamento de alta performance, entende que o resultado não aparece só no dia da prova. Ele começa muito antes: no trato, no horário, na limpeza da baia, na alimentação, no condicionamento e na forma como o cavalo é conduzido todos os dias”, resume Ivens Neto.
Esse período no Cavalo Crioulo moldou sua visão. Ele aprendeu que talento natural é importante, mas não basta. O cavalo precisa ser preparado como atleta. Precisa de rotina, disciplina, manejo correto e um treinamento que respeite sua capacidade física e mental.
Mais tarde, Ivens Neto levou esse conhecimento para uma raça com a qual sua família tem ligação histórica: o Cavalo Campeiro. Seu avô foi um dos fundadores da associação da raça, e essa herança despertou nele o desejo de contribuir para a valorização e evolução funcional desses animais.

Ao retornar ao universo dos cavalos marchadores, Ivens Neto encontrou um novo desafio. O Cavalo Campeiro tinha uma história forte, uma ligação cultural profunda com o Sul do Brasil e qualidades próprias de rusticidade e marcha. Ao mesmo tempo, ainda havia muito espaço para aprimorar critérios de treinamento, funcionalidade, condução e apresentação em pista.
Foi nesse cenário que ele começou a aplicar princípios aprendidos no Cavalo Crioulo ao treinamento de cavalos Campeiros. A ideia não era transformar uma raça em outra, mas usar fundamentos de alta performance para melhorar resposta, equilíbrio, marcha, disciplina e apresentação dos animais.
Com o tempo, vieram os resultados. Ivens Neto passou a se destacar nas provas de marcha, funcionais e morfológicas da raça, conquistando títulos importantes em eventos de grande expressão nacional.
Entre essas conquistas, estão os resultados obtidos na 42ª Expointer, considerada a maior feira agropecuária da América Latina. Na raça Cavalo Campeiro, Ivens Neto foi Reservado de Grande Campeão com a égua Marota da LA, que também conquistou o título de Reservada de Grande Campeã na prova funcional, na categoria fêmeas. Ainda na Expointer, foi Reservado de Grande Campeão na morfologia dos machos com Konrad da LC e, com o mesmo cavalo, conquistou o título de Grande Campeão da prova funcional do Cavalo Campeiro.
Na Expolondrina, considerada uma das maiores feiras agropecuárias da América Latina, Ivens Neto também obteve resultados expressivos, conquistando títulos em todas as categorias disputadas dentro da raça Cavalo Campeiro, tanto na morfologia quanto nas provas funcionais.



Essas conquistas reforçaram sua percepção prática de que o desempenho não depende apenas da genética ou da apresentação em pista, mas de um conjunto de fatores: condução, sensibilidade de boca, condicionamento, rotina, manejo e preparação correta do animal. Quanto melhor esse sistema é construído, maior a chance de o cavalo expressar sua verdadeira qualidade.
Além das pistas, sua atuação também passou a contribuir para a organização da raça. Atualmente, Ivens Neto é membro do CDT do Cavalo Campeiro e participou ativamente da construção e aprimoramento de provas funcionais, além de reformas de regulamentos ligados à modalidade.
Para ele, esse é um dos pontos mais importantes de sua trajetória: não apenas competir, mas ajudar a construir caminhos para que a raça se desenvolva.
“Eu acredito muito que o cavalo precisa ser visto como um atleta completo. A marcha, a funcionalidade e o desempenho não dependem de um único fator. Dependem de manejo, boca, equilíbrio, genética, rotina, preparo e respeito ao animal”, afirma Ivens Neto.
Hoje, a trajetória de Ivens Ortigari Neto une três mundos: a raiz rural da infância, a disciplina intelectual da formação em Direito e a vivência prática nos centros de treinamento e nas pistas. Essa combinação tornou sua história diferente. Ele não chegou ao cavalo apenas pela competição, nem apenas pela tradição familiar. Chegou por escolha, por renúncia e por construção.
Deixar a advocacia para seguir no mundo dos cavalos foi uma decisão de vida. E, olhando para trás, Ivens Neto enxerga que cada etapa teve seu papel: o campo ensinou a origem, o Direito ensinou disciplina e argumentação, o Freio de Ouro ensinou excelência, e o Cavalo Campeiro lhe deu a oportunidade de aplicar, vencer e contribuir.
Sua história ainda está em construção. Mas uma coisa permanece clara: para Ivens Neto, o cavalo nunca foi apenas esporte. Foi caminho, escola, profissão e identidade.
E, de certa forma, foi também o que o trouxe de volta para si mesmo.
Fotos: Arquivo Pessoal
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